Ensino Fundamental de 9 anos: trabalho pedagógico e formação de professores

A ampliação do Ensino Fundamental (EF) de 8 para 9 anos, assim como a incorporação de crianças com seis anos de idade, trouxe algumas implicações pedagógicas e metodológicas sobre a nova escola de EF. Um novo público, mais novo, demanda reflexões sobre o papel, objetivos e expectativas da escola nesta modalidade inaugural de atendimento, o que diz respeito à formação de professores e à gestão escolar. Discutiremos, nesse quinto e último texto da série sobre EF de 9 anos, como esses pontos foram ou não trabalhados.

Unânime entre diversas pesquisadoras e pesquisadores da área é o modo antidemocrático como a reforma foi implantada. Pouco foi levada em conta a opinião das profissionais (refiro-me no feminino porque a maioria das professoras de 1º ano do EF é mulher) que estão no dia a dia lidando com as crianças de seis e sete anos. Os escassos encontros regionais que ocorreram para discutir essa política serviram apenas para apresentar uma decisão que já havia sido tomada pela Secretaria de Educação Básica do MEC (ARELARO, JACOMINI & KLEIN, 2011).

Uma implantação atropelada do novo EF prejudica a sua assimilação e organização pelas escolas, comprometendo o trabalho pedagógico.

Não só os espaços de discussão não foram promovidos, como as orientações às professoras deixaram a desejar, o que descaracteriza a proposta original. Sabe-se que a formação de professores, em todos os níveis da educação básica, é um quesito bastante deficiente do quadro educacional brasileiro. Flávia Pansini e Aline Marin (2011) destacam que é comum ser considerado como atividades formativas “cursos de curta duração, encontros esporádicos, oficinas que são oferecidas aos representantes de cada município” (p. 99). Esses representantes, por sua vez, ficariam encarregados de “repassar” o conteúdo aos colegas.

A falta de ênfase nas orientações e na formação das profissionais responsáveis por esse novo ano de EF compromete, sem dúvida, a qualidade do trabalho pedagógico. O espaço para o lúdico e as brincadeiras são ausentes no EF, tanto porque muitas escolas de EF não possuem infra-estrutura para tal, quanto pela cultura de que a brincadeira não serve à educação. Assim, prefere-se antecipar a alfabetização às crianças de seis anos, por meio de exercícios mecânicos de cópia, caligrafia e repetição. Práticas classificadas, por muitos, como inadequadas a didática a qual se daria prioridade nessa faixa etária (CORREA, 2011).

Não deixa de ser um desafio, em contrapartida, abordar a relação entre o brincar e o desenvolvimento infantil visando, em última instância, a alfabetização e o letramento, as metas centrais do 1º ciclo do fundamental.

Lev Vygotsky (1896-1934), para quem há um complexo caminho a ser percorrido antes da alfabetização em si.

O psicólogo bielo-russo Lev Vygotski escreve sobre uma “pré-história do desenvolvimento da linguagem escrita”, isto é, um complexo caminho que a criança percorre para a apropriação da escrita o qual se inicia antes do ensino das letras e do processo convencional de alfabetização na escola. Há etapas anteriores a essa aquisição, sendo que uma criança não poderia, na perspectiva histórico-cultural de Vygotski, adquirir do nada o domínio da linguagem escrita.

Nesse sentido, o gesto é considerado por Vygotski o primeiro signo visual que contém a futura escrita da criança. Gestos somam-se aos desenhos. Desenhos somam-se ao faz-de-conta. Juntos, integram um universo de significação, a caminho da língua escrita (NOGUEIRA & CATANANTE, 2011). Vê-se, portanto, que há indícios em prol de uma preparação à aquisição de linguagem, o que se configura um contraponto à tendência de antecipar a escolarização e alfabetização cada vez mais, visando aos “melhores resultados”.

Muitas escolas de EF não possuem a infra-estrutura voltada para o atendimento infantil, o que força a escola a simplesmente antecipar, às crianças de 6 anos, o que se tem em um EF tradicional.

A despeito dos problemas levantados, é válido no debruçarmos rapidamente sobre uma experiência bem sucedida de implantação do EF de 9 anos. Tizuko Kishimoto e colaboradoras (2011) fizeram um estudo de caso na Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (EA-FEUSP), uma escola pública dotada de uma infra-estrutura e qualidade acima da média para a região, que ilustra as mobilizações da escola para se adaptar às mudanças.

A equipe da escola procurou compensar a antecipação da escolarização por meio de um projeto pedagógico que aliasse o jogo ao letramento. Dessa forma, a sala de aula do novo 1º ano do EF não poderia ser apenas um adiantamento do que usualmente se vê no fundamental. Uma nova proposta, que rediscutisse aspectos estruturais e pedagógicos, se fez necessária.

Sem apelar para os métodos tradicionais de alfabetização e buscando uma interface com o lúdico, a EA obteve resultados surpreendentes. Na tabela abaixo, podemos acompanhar o desenvolvimento das crianças de 6 anos de idade em diferentes anos (2006-2010), nas turmas da série inicial de EF. Podemos ver que houve sensíveis reduções no número de crianças pré-silábicas e silábicas (os estágios iniciais da alfabetização) e aumentos significativos no número de crianças silábicas-alfabéticas e alfabéticas.

Acompanhamento do processo de aquisição da escrita das crianças de 6 anos na EA-FEUSP, 2006-2010. (Fonte: KISHIMOTO et al, 2011) - Clique na imagem para ampliar.

É claro que não devemos expor esses dados com o intuito de simplesmente “cobrar” das outras escolas resultados similares, porque a EA apresenta condições (em termos de estrutura, formação e financiamento) que a favorecem no contexto precário da educação nacional. Mas fica, acima de tudo, a sugestão de que um EF de 9 anos pode, sim, ser positivo para todos, desde que bem pensando, discutido e planejado.

Constata-se, infelizmente, que o próprio MEC parece não ter procurado dar condições para que esse trabalho fosse o mais construtivo possível. Ficam comprometidos o sentido e as finalidades dessa nova política, que marca definitivamente a educação brasileira e aponta para tendências futuras, principalmente a de que a antecipação da escola veio para ficar. Educadores, o Estado e pais devem se preparar para saber como lidar com crianças cada vez menores, dentro de escolas que parecem sempre tão pouco interessantes.

Clique aqui para acessar a introdução ao Ensino Fundamental de 9 anos, que dá acesso aos demais textos da série.

About these ads
2 comentários
  1. Antonio disse:

    Existe uma forte tendência à escolarização precoce das crianças. Competências básicas não trabalhadas na EF retardam o processo de alfabetização.
    O pior disso tudo é o ensino descontextualizado aliado a espaços que não estimulam.

  2. Noádia disse:

    A pesquisa é recente e contempla no momento a função que tenho desempenhado nas escola de ensino fundamental no Estado de Minas Gerais. Adorei a leitura sobre a temática, espero que contribua para a qualidade do ensino em minha escola.

Ensaie um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 557 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: