O conceito de gênero por Pierre Bourdieu: a dominação masculina

Conceitos de grande importância para a sociologia e antropologia, cunhados e/ou trabalhados ao longo da obra do sociólogo francês Pierre Bourdieu, como violência simbólica, habitus e arbitrário cultural, são estendidos para uma análise da questão de gênero em um artigo, publicado originalmente em 1990, chamado A dominação masculina (1995), que pouco mais tarde se transforma num livro homônimo.

Conforme já afirmado nesse blog, Bourdieu não trabalhou com um conceito de gênero propriamente dito. Na sua referida obra, esse conceito não dá as caras. Entretanto, o seu pensamento sobre o masculino e o feminino passa por um trajeto em alguma medida similar ao das autoras até então discutidas, sendo válido chamá-lo para o debate.

Pierre Bourdieu (1930-2002), sociólogo francês, escreveu sobre a dominação masculina, estendendo ao campo do que chamamos de debate de gênero os conceitos desenvolvidos ao longo de sua obra.

Bourdieu, condizente com sua teoria, trata a questão da “dominação masculina” principalmente a partir de uma perspectiva simbólica. Para ele, a dominação masculina seria uma forma particular de violência simbólica. Por esse conceito, Bourdieu compreende o poder que impõe significações, impondo-as como legítimas, de forma a dissimular as relações de força que sustentam a própria força.

Desculpem-me pelo jargão complicado, típico dos escritos de Bourdieu, mas o que o sociólogo quis dizer com isso é justamente a manutenção de um poder que se mascara nas relações, que se infiltra no nosso pensamento e na nossa concepção de mundo.

Para o gênero, essa visão é rica, afinal de contas, não estamos discutindo justamente as maneiras marcadas por relações de poder de conceber o masculino e o feminino? Tanto é verdade que Bourdieu denuncia um modo de pensar pautada pelas dicotomias e oposições. Aqui, falamos de masculino/feminino, mas o mesmo se opera em alto/baixo, rico/pobre, claro/escuro etc.

Além disso, Bourdieu enfatiza que essas concepções “invisíveis” que chegam a nós nos levam à formação de esquemas de pensamentos impensados, ou seja, quando acreditamos ter a liberdade de pensar alguma coisa, sem levar em conta que esse “livre pensamento” está marcado por interesses, preconceitos e opiniões alheias. Não é à toa que o sociólogo afirma que uma relação desigual de poder comporta uma aceitação dos grupos dominados, não sendo necessariamente uma aceitação consciente e deliberada, mas principalmente de submissão pré-reflexiva.

Capa da sua principal incursão no debate feminista, A dominação masculina (1990), que reforça a noção de uma dominação incrustada nos esquemas de pensamento, nos corpos e no que mais for alvo dos símbolos e da linguagem (ou seja, tudo!).

Em decorrência disso, a própria socialização dos corpos estaria tingida por essas ideias. “O corpo biológico socialmente modelado é”, conclui Bourdieu (1995, p. 156), “um corpo politizado, ou se preferimos, uma política incorporada. Os princípios fundamentais da visão androcêntrica do mundo são naturalizados sob a forma de posições e disposições elementares do corpo que são percebidas como expressões naturais de tendências naturais.”

Trocando em miúdos, a biologia e o corpo seriam espaços onde as desigualdades entre os sexos, aqui resumidas na ideia de dominação masculina, seriam naturalizadas. Essa noção nos remete à Joan Scott e à Judith Butler, bem como ao conjunto das feministas pós-estruturalistas.

Ainda que Bourdieu tenha trabalhado nesse campo com sua maestria usual, ele criou uma teoria que, do ponto de vista político, esteriliza as possibilidade de mudanças: como quebrar a dominação masculina se ela está tão imbricada no nosso inconsciente e nas formas mais simples de organização do pensamento e da linguagem? Há muitos outros problemas que poderiam discutidos nessa obra, que são apresentados por Corrêa (1999) e Carvalho (2011).

Neste blog, até agora não desenvolvemos com mais sistematização o pensamento de Bourdieu, mas você pode ler um pouco sobre ele aqui. Acompanhe os próximos textos. Se quiser ler sobre o conceito de gênero por outras autoras, clique aqui.

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4 comentários
  1. Oi Adriano,

    Muito legal essa sua empreitada. Espero que outros conceitos de gênero possam ser pincelados em séries futuras :)

    Com relação ao Bourdieu: eu até gosto dele pra algumas coisas. Certamente, a noção de campo que ele desenvolve, bem como a de capital simbólico (e toda a discussão que isso envolve) é bastante instigante. Só acho um pouco complicada a noção de habitus, por mais celebrada que ela seja; é um conceito muito circular, muito fechadinho, sabe? Acho que você entende o que eu quero dizer.

    Mas em A Dominação Masculina ele peca muito. MUITO! Como você mesmo disse, ele fala algumas coisas que nos fazem lembrar bastante de algumas autoras feministas que estudaram gênero. E me diga: ele cita alguma?! Por mais que eu goste do autor, esse livro, pra mim, mostra um Bourdieu extremamente arrogante e deselegante. A própria Butler, se não me engano, se retratou em uma das edições do Gender Trouble dizendo que o que ela havia falado em determinado momento da obra já havia sido abordado por Bourdieu. Vou me informar direitinho sobre esse bafão, mas rolou algo assim. Você conhece essa história?

    E tem o ponto que você abordou muito bem: a teoria dele “esteriliza as possibilidades de mudança”. Por mais que o Bourdieu diga que isso não é verdade, não tem jeito: o habitus é uma prisão eterna! Que a Cher nos salve se ele estiver certo…

    Tem um tempinho que eu li esse livro, e eu teria que dar uma olhadinha pra dar uns pitacos mais pontuais. Mas era mais ou menos isso…

    Achei seu texto bastante explicativo. Parabéns! Poucxs conseguem lidar com Bourdieu assim.

    • Oi Matheus,

      Obrigado pelo comentário. No futuro, talvez eu faça uma outra série, incluindo autoras como Linda Nicholson, Donna Haraway (para explorar os ‘cyborgs’)… e, não sei, talvez Teresa de Lauretis. Ainda não sistematizei uma próxima edição.

      A respeito do habitus, não posso afirmar muito. Sei de sociólogos aqui da faculdade que dizem que o conceito de habitus não é tão fechadinho assim, e que isso é muito mais uma leitura de Bourdieu que se espalhou do que o que ele pensou mesmo. Sei lá… quem conhece mais de Bourdieu, certamente pode falar melhor dos entremeios da sua obra. As contribuições dele são inquestionáveis, pensando em “A Miséria do Mundo”, “A Reprodução”… mas não me atrevo a escrever sobre essas obras ainda.

      A “Dominação Masculina” tem uma série de problemas. Neste post, não quis entrar nas críticas, mas em outro momento posso fazer. De fato, ele não dialoga nada com a literatura feminista, apresentando uma “síntese de ideias que ele sempre teve”, passando por cima de ricos debates que foram se estendendo por décadas nos estudos feministas. A postura dele foi arrogante mesmo, apoiada na sua legitimidade em outros campos de pesquisa.

      Não conheço o bafão da Butler. Eu conheço outro bafo, se segura!, de que a Betty Friedan plagiou trechos inteiros d’”O Segundo Sexo”. Menina, quem disse isso foi a Saffioti em um pequeno artigo publicado no Pagu! #tenso

      E confesso pra você que eu nem li – e nem pretendo ler – o livro do Bourdieu. Li apenas o artigo, que já está de bom tamanho. Colegas do meu grupo já leram o livro e disseram que o essencial está no artigo mesmo, não valendo o esforço de ler o livro. Porque a leitura dele é bem cansativa. Né? Tem mais essa…

      Abraços!

  2. Paula disse:

    Olá Adriano. Parabéns pelo texto. Você cita Carvalho(2011) no seu trabalho. Você poderia informar a referência completa dessa obra??
    Grata.

    • Oi Paula,

      A referência completa dessa obra é a seguinte:

      CARVALHO, Marília Pinto de. O conceito de gênero: uma leitura com base nos trabalhos do GT Sociologia da Educação da ANPED (1999-2009). Revista Brasileira de Educação, v. 16, n. 46, 2011.

      Esse texto pode ser facilmente encontrado na internet. Vale ressaltar que todas as referências citadas no texto encontra-se na aba “Bibliografia” localizada abaixo da foto de capa do blog. Lá, encontrará essas e outras.

      Agradeço pelo interesse,

      Abraços!

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