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2011|2012: anos de protestos em diversas regiões do mundo.

2011|2012: anos de protestos em diversas regiões do mundo.

Os últimos textos do Adriano Senkevics para o “Ensaios de Gênero” nos chamaram a atenção para a série de movimentos que eclodiram em 2011 e que continuaram a eclodir ou se estenderam a 2012, marcando definitivamente o início dessa década como uma “década de protestos, revoltas e revoluções”: Primavera Árabe, Occupy Wall Street, greve estudantil chilena, os indignados da Espanha e outras mobilizações entre as quais nos poderíamos incluir os protestos nos subúrbios do Reino Unido, os ataques na Noruega por parte de Breivik etc. Mas, é claro, assim como Senkevics, não poderíamos deixar de acrescentar alguns acontecimentos no Brasil, como os protestos contra o aumento da tarifa de ônibus em Teresina (PI), a Marcha da Maconha em São Paulo (SP), a entrada da tropa de choque na Universidade de São Paulo (USP) para deter uma mobilização estudantil, a desocupação da comunidade do Pinheirinho em São José dos Campos (SP), a operação da Cracolândia também em São Paulo, as greves das mais de 50 universidades federais, sendo que muitas delas chegaram a um período recorde de greve em sua história, e também, o conflito dos índios Guarani Kaiowá com fazendeiros do Mato Grosso do Sul (MS).

Em certo momento, para responder o que esses movimentos têm em comum, Adriano nos diz que é a mobilização pela internet, lugares alternativos e não através das empresas de comunicação, a grande mídia, que acabam por ocultar e desviar nossos olhos desses movimentos. Facebook, Twitter, são algumas das redes sociais pelas quais se organizam e divulgam esses acontecimentos, ou ainda, jornais alternativos, blogs, todos eles democratizando a informação. Isso me lembra Sobre os rostos que a mídia nos oferece: uma questão entre representação e humanização, texto que escrevi para esse blog analisando como quem pode ser representado tem mais condições de alcançar a inteligibilidade do “humano” propriamente dito e aqueles rostos não representados se tornam desumanizados, ainda, como os rostos que a mídia nos oferece representam eles próprios a ideia que deveriam exprimir, bloqueando nossa vulnerabilidade a precariedade do Outro. Nesse sentido, uma série de questões que eu considero sempre importantes retomar são: Como opera a mídia na democratização da informação? Quem estão representados e quem não estão na grande mídia? Como ela pode nos desviar da alteridade e precariedade do Outro?

O que a mídia nos mostrou dos

O que a mídia nos mostrou dos acontecimentos como a Primavera Árabe, Occupy Wall Street, a greve estudantil chilena, os indignados da Espanha e outras mobilizações entre as quais nos poderíamos incluir os protestos nos subúrbios do Reino Unido, os ataques na Noruega por parte de Breivik etc?

Em Judith Butler (2011), os rostos midiáticos impedem a identificação com o rosto encontrado no pensamento de Emannuel Lévinas, e, portanto, com a chamada à alteridade, à alteridade do Outro, do próprio Eu, da precariedade da vida. Assim, usando do exemplo da autora, os rostos nus de mulheres afegãs estampadas no New York Times exprimem orgulhosamente o progresso cultural americano e nós não podemos em momento algum nos identificar com a precariedade dessas mulheres sem suas burcas, que, aliás, pelos importantes significados culturais, a burca é imprescindível para a agência feminista no Afeganistão. E, é claro, os rostos representados ou representam um ideal dominante (o imperialismo cultural, por exemplo) ou os próprios rostos dominantes (soldados americanos representando o triunfo militar americano, a tropa de choque representado o triunfo militar brasileiro, por exemplo). Logo, os rostos nus das mulheres afegãs não nos captura, não nos chama à precariedade do Outro, à própria precariedade da vida, nós não escutamos no sentido levinasiano o som agonizante do chamado do Outro, sendo que esses rostos se tornaram a personificação do próprio progresso cultural americano, assim como o rosto de Bin Laden é uma personificação do terror, o de Arafat do engano e o de Saddam Hussein o da tirania contemporânea.

Mas, a mídia não nos promete oferecer tudo? Talvez nos estejamos aqui no campo do que Žižek considera como a relação entre prazer e gozo, porque, se pensamos bem, a mídia, isto é, a mídia dominante, promete oferecer tudo, o gozo, quando na verdade ela oferece o vazio, o prazer, a coisa-em-si esvaziada de seu significado, usurpando o lugar da totalidade, não o seu real. Aliás, em O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Žižek começa retomando uma expressão persa, war nam nihadan, que significa “matar uma pessoa, enterrar o corpo dela e plantar flores sobre a cova para escondê-la”, para nos dizer que a (re)ação predominante da mídia frente aos eventos da Primavera Árabe a Occupy Wall Street, os protestos nos subúrbios do Reino Unido à Breivik, foram uma (re)ação war nam nihadan. Em outras palavras, a mídia matou o potencial emancipatório radical desses eventos, enterrando-o e plantando flores sobre o cadáver enterrado.

Os índios Guarani Kaiowá  se tornaram vidas impensáveis, impossíveis de serem lamentadas pela mídia?

Os índios Guarani Kaiowá se tornaram vidas impensáveis, impossíveis de serem lamentadas?

Dando uma palhinha ao que podemos acrescentar nessa longa discussão, Butler em Violencia de Estado, guerra, resistencia. Por una nueva política de la izquierda (2011) questiona como as câmeras podem na Guerra, fazer guerra ou ser parte da ação de guerra. De fato, pois, ao pensar nos instrumentos materiais da guerra podemos pensar nas câmeras fotográficas, filmadoras, entretanto, parece difícil dizer que elas poderiam fazer guerra ou operar no interior da ação de guerra. Apesar de tudo, é nossa obrigação nos perguntarmos, como sugere a autora: O que acontece se os instrumentos mesmo adquirem uma agência própria e as pessoas se transformam simplesmente em extensões desses instrumentos? É claro, nós sabemos que os próprios objetos tecnológicos são donos de um discurso desconstrutivo, como o dildo, operando a lógica do suplemento e invertendo as posições tidas como “originais”. As câmeras parecem passar como um artefato tecnológico que nunca faz guerra, que apenas registra a guerra, mas elas não podem ser donas de um discurso próprio? Elas não podem desde sempre executar a própria agência na guerra? Além do mais, se as fotos nuas das mulheres afegãs ocultou o grito do Outro, essas imagens, possibilitadas pelas câmeras, não abrem as possibilidades de se violentar o Outro? A não identificação com o rosto ético do Outro não é sempre o ponto da condição para a violência?

Definitivamente, em 2012 nós não nos identificamos com a precariedade dos estudantes da USP, mas seus rostos representaram o tráfico de drogas e a “baderna” estudantil; não nos identificamos com a precariedade dos rostos da comunidade do Pinheirinho, nem dos professores em greve, porque as ausências dos seus rostos representam aqueles campos desumanizados da sociedade; os rostos da Cracolândia foram uma representação do triunfo militar contra as drogas e os rostos também ausentes dos índios Guarani Kaiowá representaram aqueles cujas vidas se tornaram impensáveis. Particularmente, esses últimos rostos, que acumulam um número considerável de mortes, se encaixam com essa categoria que Butler concede como o impensável e o indiscutível, vidas precárias ocultas que se tornaram impensáveis, bloqueadas ao lamento.

Mas, como então pensar a mídia e a representação da alteridade? É possível exibir o rosto no sentido encontrado em Lévinas? Onde está o som agonizante do Outro, sua demanda ética sobre nós, seu discurso violento do qual não podemos evitar? Essas são questões fecundas para 2013, questões para que pensemos as consequências filosóficas e políticas da representação, do campo visual e do estabelecimento do humano, das faces que são apresentadas como dignas de lamento e daquelas que se tornaram elas próprias impensáveis. Pensemos!

O rosto de Osama Bin Laden em tempos midiatizados: o rosto do terror. Observem como o rosto está personificado pela ideia que ele busca representar.

Gostaria de começar com um rosto humano que, claramente, a mídia tem nos remetido essa semana: o rosto de Osama Bin Laden. Sabemos que há 11 anos, no dia 11 de setembro, os Estados Unidos receberam uma série de ataques de quatro aviões que colocaram abaixo as torres gêmeas do World Trade Center e o Pentágono, ceifando, sobretudo, vidas. Para as investigações norte-americanas, os responsáveis por esses atentados foram a Al-Qaeda e Osama Bin Laden (líder e fundador da própria organização) e a face desse último ocupou nossas televisões, jornais e revistas: a face do mal, do terror, da guerra – e num sentido estritamente derridiano, deveríamos nos perguntar quem vem antes de quem, Bin Laden ou o terror? Com a Guerra do Terror, os Estados Unidos iniciam uma invasão ao Afeganistão para encontrar esses responsáveis e para derrubar o regime talibã que lhe deram apoio. O principio estadunidense nessa empreitada é lutar contra o “terrorismo” e essa guerra nos oferece uma miríade de rostos “heróicos”, contribuindo para o eufórico sentimento nacionalista.

Mas, observemos também outras faces representadas pela mídia. Primeiro, o confronto entre um grupo de estudantes da Universidade de São Paulo (USP) e a polícia, no ano passado: o movimento grevista e a posse da reitoria em busca de visualizar as reivindicações, entre as quais estavam o pedido de renúncia do então reitor, João Grandino Rodas, e o fim da aliança entre a Polícia Militar e a universidade. Para que desocupassem a reitoria, assim como o prédio da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, foi realizada uma ação com 400 policiais, da qual a mídia nos ofereceu, hegemonicamente, faces de estudantes “bagunceiros”, “drogados”, em contraponto a faces policiais garantidoras da “ordem pública”. Assim, essas faces chegam aos nossos olhos de maneira precisa: as imagens dos estudantes são a própria “desordem” e a dos policias, da “manutenção”, do “controle”. A mídia nos submeteu imagens de estudantes sendo levados pela polícia, na qual o “bem” acaba com o “mal”, o “herói” com o “vilão”, retificando o lugar da polícia, como suas estrelinhas vitoriosas no peito, e aqueles que vão contra ela. O mesmo princípio aqui pode ser visto na ação da Cracolândia.

Onde estão estampadas as faces dos professores das mais de 50 universidades federais que entraram em greve neste ano? Não é curioso que certos rostos sejam representados e outros não? Como podemos relacionar a representação com a humanização ou desumanização?

Contrariamente, vejamos que, apesar dos movimentos grevistas de mais de 50 universidades federais nesse ano, com algumas chegando a um período máximo de greve em suas histórias, essas faces não surgiram nos nossos meios de comunicação, ao menos em massa. As faces desses professores não estão em parte alguma, elas não estão representadas, enquanto que as faces da USP se tornaram uma fonte de exploração, quase pornográfica. Uma vez ou outras, podemos nos remeter a notícias que dizem que não sei quanto mil alunos estão sem aulas e se o enunciado aqui se transformasse numa face humana, essa face certamente seria uma face de alguém explorado, triste, prejudicada pela “greve”. Outras faces humanas, como as das pessoas sendo expulsas de suas casas na desocupação do Pinheirinho, também não são representadas pela mídia ou são mal representadas[*].

O que acontece com essas faces? Qual o papel da mídia nessa representação ou não-representação? Como essas faces chegam até nós? E que tipo de contatos estabelecemos ou deixamos de estabelecer com elas? No artigo Vida Precária (2011), Judith Butler nos oferece uma leitura do conceito de “rosto”, descrito pelo filósofo Emmanuel Levinas, refletindo sobre a relação com o Outro e a representação do mesmo em tempos midiatizados. Em primeiro lugar, Levinas nos disse que o rosto do Outro, isto é, aquelas pessoas cuja vida estão marcada pela precariedade, nos impõem uma questão ética, ele faz uma reivindicação sobre nós, uma demanda moral que não solicitamos, mas também não podemos evitar.

Para o filósofo francês Emmanuel Levinas (1906 – 1995), o rosto é que nos mantêm moralmente vinculado ao Outro, é forma pela qual esse Outro nos faz uma demanda ética, uma série de reivindicações. Mas, o rosto aqui não é propriamente um “rosto humano”, ele não pode ser traduzido a uma prescrição linguística; ao contrário, o rosto é uma vocalização sem palavras do sofrimento e da precariedade.

Levinas citado por Butler (2011, p. 16) nos ensina que “o rosto é o outro que me pede para que não o deixe morrer só, como se o deixar seria se tornar cúmplice de sua morte. Portanto, o rosto diz a mim: não matarás”, no entanto, o rosto não diz no mesmo sentido que a boca fala, ele não pode ser traduzido a uma prescrição lingüística; a questão é: o que ele significa é expresso pelo mandamento “não matarás”. “Na relação com o rosto”, continua o autor, “eu sou exposto como um usurpador do lugar do outro”, porque minha “relação ética de amor pelo outro está enraizada no fato de que o eu não pode sobreviver sozinho, não pode encontrar sentido apenas em sua própria existência no mundo… Expor a mim mesmo à vulnerabilidade do rosto é colocar meu direito ontológico de existir em questão. Em ética, o direito do outro em existir tem primazia sobre o meu, uma primazia condensada no decreto ético: Não matarás, não colocarás em risco a vida do outro”.

Assim, o rosto em Levinas não é propriamente dito um rosto humano, ele não fala, não pode ser reduzido à boca, é um tipo de vocalização sem palavras, de sons agonizantes. Além disso, é através do rosto do Outro, que se dirige a nós sem que possamos evitá-lo, que nos mantêm moralmente vinculados a esse Outro, porque nós nos identificamos com a própria precariedade e entender o rosto, como nos escreve Butler (2011, p. 19), “quer dizer acordar para aquilo que é precário em outra vida ou, antes, àquilo que é precário à vida em si mesma”.

É nesse sentido, que Judith Butler nos chama a atenção para os rostos da mídia, o rosto levinasiano e a problemática em torno da humanização; seguindo a autora, observemos que pessoas podem representar ou fazer representar a si próprias parecem terem mais chances de serem humanizados, enquanto que aquelas que estão longe desse patamar correm o risco de serem mal representadas (desumanizadas) ou, mesmo, não serem representadas. Nós começamos com alguns rostos, rostos concretos, para sermos específicos, rostos precisamente humanos expostos pela mídia e como (significado) esses rostos chegam até nós. O rosto de estudante “maconheiro” e “bagunceiro” sendo “colocado em seu lugar” chega até nós pela televisão, por exemplo, mas nós devemos nos perguntar se esse “rosto” nos oferece a possibilidade do rosto levinasiano, se esse rosto nos lança uma demanda ética da qual não podemos escapar, uma demanda totalmente vinculante. Onde está a precariedade desses rostos? Onde está a precariedade dos rostos de professores que vão trabalhar em situações impossíveis de infra-estrutura? Como podemos compreender a precariedade de vida dos professores quando a mídia diz que eles receberam 45% de reajuste salarial, sendo que os 45% só serão alcançados quando o atual plano de carreira for alterado? Ou, antes mesmo, como podemos ser captados pelo rosto dos professores, sendo que a mídia nos oferece um rosto de pessoas que só lutam por altos reajustes salariais?

Judith Butler nos oferece uma crítica valiosa sobre a representação do Outro em tempos midiatizados. Em primeiro lugar, a representação do humano, para a autora, é sempre uma ação falha, porque ocorre uma perda do humano no própria ato de representação. Em segundo lugar, a representação midiática do Outro impede nossa identificação com o rosto, no sentido levinasiano, porque a própria mídia nos oferece um rosto manobrado no interior de políticas representacionais.

Butler (2011) nos chama a atenção para os rostos de afegãs sem burcas nas páginas do New York Times e como esses rostos eram exibidos orgulhosamente, como um sinal do sucesso da democracia, no entanto, esses rostos captam o sucesso estadunidense do progresso cultural como o “melhor dos possíveis” e deslocam o rosto levinasiano: nós não identificamos com qualquer vocalização sem palavras, lamento ou agonia da precariedade dessas vidas. A produção do rosto é uma das diferentes maneiras em que a vida a violência pode ocorrer e a autora reclama para que pensemos nisso, para esses retratos da mídia que são manobrados: o rosto de Bin Laden como o rosto do terror, o rosto de Arafat como o rosto do engano e o rosto de Hussein como o rosto da tirania contemporânea.

A mídia deslocou ou ocultou o rosto e sua demanda ética, como nos esclarece a autora, nós não nos identificamos ou somos capturados por ele, mas pelo contrário, fazemos uma ação de dentro para fora, somos nós que capturamos e evisceramos as imagens à mão. No caso das imagens exemplificadas por Butler (2011, p. 26), ela nos diz: “elas ou representam o triunfo americano ou promovem um incitamento ao triunfo militar americano no futuro. Elas são os despojos da guerra ou são os alvos da guerra”. Esses rostos midiáticos mascaram o rosto, no sentido que encontramos em Levinas, eles são simplesmente uma personificação política que deve ser a própria ideia que ele representa, uma espécie de suplemento, no sentido derridiano: o rosto do mal, o rosto do terror, o rosto do triunfo cultural, o rosto do triunfo militar etc.

A leitura de Butler sobre Levinas nos ajuda a compreender que algo falha quando o humano é capturado pela imagem, porque ele não pode ser capturado pela representação, não pode ser representado e, assim, não nos identificamos com o que é representado, mas também com o que é irrepresentável. Ainda, para Butler (2011, p. 31-32): “Não é possível, nas condições contemporâneas de representação, escutar o clamor agonizante ou ser compelido ou chamado à responsabilidade pelo rosto”.

Encerrando nosso texto, gostaria que pudéssemos nos atentar para essa questão da representação, humanização e desumanização em tempos midiáticos, como esse debate entre o rosto levinasiano e rosto estampados em nossos jornais, revistas, televisões, eles estão a favor de alguma política representacional que impede nossa vinculação ética com o Outro, que o deixa de representar ou estampa um rosto pelo qual entramos em euforia, mas deixamos de perceber a violência por trás do rosto do “herói”. Aliás, o próprio rosto produzido é uma das maneiras pelas quais a violência pode ocorrer, porque esses rostos estão manobrados e se seguimos Judith Butler, eles são invariavelmente tendenciosos.


[*] Sugiro as leituras dos textos: USP, estudantes, policiais e o reitor e Uma violência policial autorizada, estimulada e sancionada; ambos de autoria de Adriano Senkevics para esse blog. Gostaria de deixar meu apreço por esses textos e como eles me ajudaram a ter uma visão crítica sobre esses acontecimentos; e gostaria também de esclarecer que minha atenção quanto a esse contraste específico entre a mídia, a greve da USP no ano passado e a greve das universidades federais nesse ano, foi incitada por um comentário do autor.

É recorrente nos meios de comunicação em massa a reprodução de estereótipos sobre os sexos feminino e masculino, a tal ponto da mídia cumprir um importante papel no fortalecimento de uma dada ordem de gênero, por sinal desigual e sexista. Penso, por exemplo, na matéria de capa da edição 292 da revista Superinteressante publicada em junho de 2011 com o título “Homens x Mulheres: por que eles estão ficando para trás”, assinada por Karin Hueck.

A matéria contrapõe dados que vão desde o número de nascimentos até a proporção de mulheres e homens em determinadas carreiras discutindo esses achados à luz de trabalhos “científicos” provenientes, em sua maioria, da neurobiologia. De um lado da página, em tom azul, lemos um texto referente aos meninos; do outro, em rosa, às meninas. Há toda uma literatura de senso comum sobre as supostas diferenças entre mulheres e homens que é sempre marcada pelo humor. O embasamento científico, no entanto, costuma ser altamente questionável. Com essa matéria, não é diferente.

Capa da edição 292 da Superinteressante, contendo a matéria sobre Homens x Mulheres: um tema apelativo, cômico e (bastante) comercial.

O texto inicia narrando um relato obtido por uma neurobióloga de Harvard. Nesta história, uma mãe que sempre quis que o seu casal de filho/a fosse criado sem distinções de gênero, viu sua menina de três anos ninando um caminhãozinho de brinquedo dizendo: “Não chore, carrinho. Vai ficar tudo bem”. Esse fato é suficiente para a revista afirmar que, “para deixar bem claro” (p. 49), sempre há alguma diferença entre os sexos. No caso, um suposto instinto maternal que se expressa nas meninas apesar de uma educação sem gênero.

As críticas a essa perigosa afirmação são muitas e começam de todos os lados. A educação que a mãe (cadê o outro cônjuge?) lhes proveu era de fato desgenerificada? As crianças tinham colegas, primos/as, amigos/as? Elas frequentavam creches? Como eram tratadas por profissionais e familiares? Assistiam à televisão? Atualmente, é cada vez mais claro o papel protagonista das crianças na construção de sua própria realidade social. Uma criança de três anos de idade é capaz de muito mais do que pensamos!

Adiante, a matéria faz menção a “fatos” científicos que, baseados em distinções psicobiológicas, explicam comportamentos distintos de meninos e meninas. Um deles é a “maior agitação dos meninos”, decorrência de um menor “controle de inibição”. Outro é o “maior estresse dos meninos diante da autoridade”, tornando-os mais questionadores, o que pode ser atestado pelos níveis de cortisol no sangue.

Estereótipos sobre homens e mulheres marcam nossas representações do senso comum e também dos trabalhos pretensamente científicos como os gestados no bojo da neurobiologia.

Essa baixa coragem das mulheres supostamente as levariam a serem menos competitivas no mercado de trabalho. Para evitar a competição, elas escolheriam as carreiras menos desafiadoras. Elas ganham menos, segundo a reportagem, por preferência; é porque historicamente gostam de profissões mal pagas, dentre as artes e a educação.

Só depois de muitas páginas de pseudociência, a matéria resolve dar ênfase para o aspecto social e destacar o peso das expectativas tradicionais sobre o lugar das mulheres e dos homens na sociedade. Contudo, a reflexão é bastante superficial e termina atribuindo a conquista da igualdade de gênero a duas razões: o fato dos bebês do sexo masculino nascerem com desvantagens físicas (em virtude de uma suposta rejeição materna ao corpo do sexo oposto) e o fracasso escolar que atinge majoritariamente os meninos em muitos países do mundo. Isso, somado à possibilidade dos meninos serem menos agressivos e competitivos, levaria ao equilíbrio da balança, na opinião da autora do texto.

Pink Brain, Blue Brain, de Lise Eliot: exemplo de obra que, fazendo uso de uma psicologia pop, “atesta” diferenças (conservadoras) entre mulheres e homens com base na ciência.

Curioso é notar a facilidade com que esse discurso encontra respaldo e legitimidade. Como aponta Raewyn Connell (2009), existe uma indústria de psicologia pop que trata homens e mulheres de forma oposta nos seus pensamentos, emoções e capacidades. Essa é justamente a base da concepção psicológica conhecida como “cérebro azul, cérebro rosa”, cujo trabalho é mencionado pela matéria da Super.

É complicado, entretanto, fazer conclusões sobre o comportamento de mulheres e homens, ainda que ancorados na neurobiologia. Além de existirem poucas comprovações de diferenças anatômicas e funcionais nos cérebros de homens e mulheres, poderíamos nos questionar se essas diferenças não seriam fruto dos comportamentos diferentemente realizados por homens e mulheres, em vez de ser sua causa. Esses comportamentos, por sua vez, estão altamente regulados pelas normas sociais.

Pois é muito parcial tecer conclusões sobre diferenças entre os sexos, e pautá-los pelas biologia/psicologia, quando estamos diante de um mundo altamente marcado por feminilidades e masculinidades que dizem com quais modelos mulheres e homens devem se conformar.

A contraposição de diferenças entre mulheres e homens faz parecer que estão competindo na sociedade, quando, no fundo, ambos são produtos de relações de gênero (e de poder) que se reproduzem na mesma.

Características como a capacidade de aceitar ou não a autoridade, ser mais ou menos agitado, manifestar a sexualidade cedo ou tarde, ser melhor ou pior em matemática, gostar ou não de determinadas profissões, estão todas, sem exceção, atravessadas por relações de gênero. São processos complexos que envolvem incentivos, censuras, representações etc. Relações de poder, em suma, marcam de cabo a rabo cada aspecto das pretensas diferenças entre mulheres e homens. Caberia um texto para discutir cada aspecto, mas deixo isso para outra ocasião.

Para completar, o discurso do senso comum é autorizado pela ciência, a qual não é jamais neutra, sendo bastante influenciada pelas concepções prévias dos/as pesquisadores/as, que frequentemente reproduzem suas expectativas na forma de resultados científicos. É a ciência a serviço de uma especulação puramente conservadora; o prestígio científico na produção de “verdades”, como ainda ocorre com a patologização da transexualidade, por exemplo.

Assusta-me, para concluir, a naturalidade com a qual esse discurso penetra o nosso entendimento sobre mulheres e homens na sociedade. Penso o contrário: deveríamos nos rebelar contra a produção de “verdades” que subestimam os potenciais de mulheres e homens, que nos aprisionam em expectativas e representações reacionárias, que negligenciam a nossa tão rica diversidade de gênero. Não podemos aceitar um retrato lúdico de injustiças e formas de opressão históricas. Não podemos deixar que as desigualdades de gênero se transformem em uma guerra dos sexos.

Já repararam que os bichos de desenhos animados, assim como os bonecos que representam esses bichos e são vendidos em lojas, nunca possuem genitálias? Cachorros, gatos, leões, ursos, cavalos, do sexo masculino, não apresentam pênis ou testículos (nem os mamilos que todo macho têm). As fêmeas, por sua vez, não possuem vagina, nem mamilos. O que essa representação revela sobre a nossa forma de lidar com a sexualidade?

Se podemos dizer que a sexualidade ainda é um tabu sob muitos aspectos, a sexualidade das crianças, público-alvo dos desenhos animados e das animações, é em dobro. Conteúdos eróticos são tirados do alcance dos menores, sob o discurso de que crianças não devem ver “cenas pesadas”. Sem discutir o mérito da questão, é válido questionarmos o fato da patrulha da não sexualidade censurar os próprios corpos de animais, a princípio isentos dos valores morais das sociedades humanas.

A ausência de genitália na representação de machos e fêmeas é substituída por outras marcas que distinguem o sexo. No caso, a cor, detalhes do corpo e o comportamento, como no Simba e Nala do Rei Leão.

Afinal, qual seria o grande problema de representar as genitálias em animais? Qualquer criança que tiver um animal doméstico em casa, que puder frequentar zoológicos ou ver fotos na internet, entrará em contato com a anatomia genital dos bichos. Não seria melhor, portanto, tratar com naturalidade a questão desde cedo, deixando claro que a genitália, dos humanos ou dos demais animais, são partes constitutivas do nosso corpo e não deveriam ser escondidas? Isso não significa incentivar a prática sexual desde cedo, muito menos estimular os pequenos a exibirem suas genitálias pelas ruas. É justamente ao se fundar um tabu que o “proibido” ganha força.

E de fato é esse o caminho escolhido. Ocultam-se as genitálias, mas, para diferenciar machos de fêmeas, incluem-se gravatas, ternos, chapéus, nos primeiros, e laços, saias, maquiagem, nos segundos. Importam-se aspectos culturais, impregnados por uma moralidade que é nossa, colando-os aos corpos, à personalidade e às aspirações dos animais representados.

A imagem de um herói do sexo masculino (sem pênis, é claro) marca diversos dos bichos de desenhos animados, como o personagem de Tico e Teco.

Assim, vemos destemidos gatos de botas, se contrapondo a graciosas borboletas cor-de-rosa. Uma representação, com fins de entretenimento, levando à reprodução de concepções tradicionais acerca de gênero e sexualidade (há de se lembrar que todos os bichos são, evidentemente, heterossexuais). Reforçam não só quais comportamentos são esperados para homens e mulheres, como também quais lugares cada um deve ocupar na sociedade.

Podemos ir além dos desenhos e pensar na forma como enxergamos os animais na natureza. Os machos simbolizam a força: gorilas fortes, leões monarcas, tigres ferozes. As fêmeas, das mesmas espécies, são entendidas como mais sentimentais, menos dominadoras, mais maternais. Ainda que existam diferenças de comportamento em função do sexo dos animais, essas diferenças são amplificadas pela caricatura da nossa interpretação, absolutamente enviesada pelas marcas da nossa cultura.

Detalhes e adereços nos corpos das gatas marcam a construção de feminilidades em Aristogatas.

Tomemos por exemplo os cães de estimação. Ao sair do pet shop, as fêmeas saem com laços; os machos, com gravatas. Olhamos para as cadelas como as nossas meigas moças, para as quais a bagunça é inadmissível. Para os cachorros, esperamos outro comportamento, até porque são eles que dominam o espaço espalhando sua urina pelos cantos. Qualquer semelhança (metafórica) com a nossa realidade, certamente não é coincidência.

Não seria mais justo se, em primeiro lugar, as representações fossem fidedignas à natureza dos animais? Em segundo lugar, o campo artístico das representações pode muito bem servir para abrir o leque das possibilidades e expandir nosso universo simbólico. Na prática, ao contrário, ele usualmente serve para a manutenção dessa ordem desigual de gênero que passa inquestionada.

Junto às discussões dos problemas de gênero, é necessário colocar em xeque o que entendemos por homens e mulheres. Essa análise perpassa, necessariamente, pelo que entendemos por macho e fêmea, seja entre humanos, seja na natureza.

É assustadora a quantidade de casos de violência policial nos últimos tempos. Pior é constatar a reação da população e da mídia diante de tantas atrocidades e violações de direitos humanos. Quando se discute a ação policial, usualmente se cai no argumento de que ”os policiais estão apenas cumprindo ordens”, o que dá carta branca para a truculência dessa corporação que envergonha o país há mais de um século. Se os policiais estão a serviço de ordens, da mesma forma que o seu modus operandi encontra respaldo na sociedade civil e nos meios de comunicação, é necessário, portanto, fazer uma análise integrada.

Polícia Militar do Estado de São Paulo: inúmeros casos de violência policial, tratados como "casos isolados" ou defesa da ordem pública.

A Polícia Militar (PM), foco de todas as discussões atuais, é uma corporação pensada para a manutenção da ordem pública. A “garantia” da segurança é apenas um efeito colateral, uma decorrência de uma ordem que prevê punição a crimes comuns, como aqueles contra os quais a força policial eventualmente atua. Não nos enganemos, entretanto. Invasões de propriedades privadas, ocupações de prédios públicos, interrupção da circulação em vias públicas, entre outros, são ações nas quais a ação da Polícia é invocada, com finalidades sempre bastante claras: a repressão a movimentos sociais.

O mais recente e emblemático caso foi a desocupação da comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP). Em nome da reintegração de um terreno pertencente à “massa falida do grupo Selecta, do empresário Naji Nahas”, como a imprensa frisou repetidamente, mais de 1,5 mil famílias foram desalojadas de forma truculenta pela PM. Houve baixas e muito sofrimento, sendo que essas famílias foram levadas para alojamentos improvisados, em condições precárias. A ação foi empreendida sob comando do Governo do Estado de São Paulo, há quase duas décadas nas mãos do PSDB.

Desocupação da comunidade do Pinheirinho: o uso da força policial gerando sofrimento e mortes em nome do capital especulativo.

Nesse caso, a comoção pública parece ter sido maior, pois o Brasil foi até denunciado para órgãos internacionais de direitos humanos. É absolutamente estarrecedor o poder da especulação e do capital privado sobre a sociedade, a ponto de milhares de pessoas serem expulsas de seus lares. Essas ocupavam um terreno que não pertencia a elas, sim, mas a discussão não pode ficar nesse tom legalista e superficial. A irregularidade da ocupação não justifica a ação do governo e da PM. Medidas alternativas deveriam ter sido utilizadas para realocar a famílias para outro terreno, se este é o caso.

Outro exemplo, também emblemático, de substituição de políticas públicas pela ação coercitiva policial foi a operação da Cracolândia. Com o apoio da Prefeitura de São Paulo, o que se fez foi basicamente repreender os viciados em crack que ali consumiam e comercializavam sua droga. A política de combate às drogas, já de natureza desastrosa, foi imperativa na “solução” de um problema que, antes de tudo, é de ordem da saúde pública. Mais uma vez, o interesse em reurbanizar a região central de São Paulo seguiu os interesses especulativos, resultando em mais uma parcela da população sendo tratada como lixo.

Reintegração de posse da reitoria da USP: o emprego da PM como forma de colocar fim ao diálogo e eliminar resistências civis.

Em menor grau, podemos citar o caso da USP. A entrada da PM na Universidade, política aprovada de forma irregular com o incentivo do reitor João Grandino Rodas, possui um fim claramente repressor, a ponto de haver policiais infiltrados nas reuniões do movimento estudantil, sob o semblante da segurança. No mês passado, um aluno foi agredido gratuitamente por um PM, uma aluna foi estuprada também por um policial (não dentro da Universidade), sem falar na desocupação da Reitoria no último novembro, tomada de forma absolutamente desproporcional. Limpando a oposição, o projeto privatista já posto em curso pelo Rodas e outros reitores é facilitado. Para saber mais sobre a USP, leia este texto.

Esses três casos chamaram a atenção, mas a violência policial no Estado de São Paulo não se resume a eles. Seja nas ruas, seja nas favelas, frequentemente escutamos relatos e depoimentos de vítimas dessa corporação que é tão requisitada e apreciada pelo governo atual. Não é à toa que estudo do ano passado apontou que a PM de São Paulo matou mais em cinco anos do que toda a polícia estadunidense. Entre 2005 e 2009, ocorreu a morte de 2.045 pessoas, em uma média superior a um por dia.

Tropa de Choque da PM do Estado de São Paulo: a corporação que matou mais do que toda a polícia estadunidense em cinco anos.

E como essa problemática tem surgido nos jornais e discutida no dia a dia? Em Pinheirinho, apesar de a mídia ter feito uma abordagem superficial, destacando a reação dos moradores à presença da PM e não a ação truculenta em si, a comoção pública foi maior. Sobre a Cracolândia, é penoso constatar, segundo o Datafolha, que 82% da população paulistana aprova a ação policial. Quanto à USP, foi ainda pior. A população, como um todo, se posicionou contra a mobilização estudantil; primeiro, porque existe uma confiança ou ao menos um respeito ao trabalho da PM; segundo que a mídia insistiu que os estudantes estavam lutando pela legalização da maconha no campus, o que está longe de ser verdade.

Confia-se tanto no trabalho da PM que se fecham os olhos para essas truculências. Situações como a violência a estudantes da USP e os homicídios em Pinheirinho são tratados como “casos isolados”, isto é, policiais imprudentes que agiram de forma equivocada. Só chama a atenção, porém, a quantidade de “casos isolados”: uma lista grande, coerente e recorrente. A resposta é clara: ainda que haja policiais mais ou menos responsáveis, por trás da PM há uma força maior, que direciona as atividades e funções dessa corporação. Esse é ponto central, não a atuação em um ou outro contexto menor. Soma-se a isso o despreparo do próprio corpo policial para lidar, digamos, com seres humanos (para falar o mínimo).

A operação na Cracolândia: transformando em questão policial um assunto de ordem da saúde pública e coletiva.

O cenário da polícia paulista se repete em outros Estados. Basta lembrarmos do confronto entre estudantes e PM em Teresina (PI), o conflito com os índios nas águas do Xingu, o massacre da Candelária que marcou o Rio de Janeiro. Nessa mesma região, a instalação das UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), política de “garantia” da segurança pública altamente duvidosa. Em São Paulo, ainda temos a repressão à Marcha da Maconha em 2011, o ataque da PM contra um protesto estudantil em 2009 no portão da USP e o massacre de Carandiru, de 1992.

Com o controle de governos autoritários e pouco comprometidos com causas sociais, uma corporação que faz jus aos seus “méritos” (entre eles, a “Revolução” de 1964), a vista grossa e tendenciosa dos empresários dos meios de comunicação, e uma sociedade, por razões não discutidas aqui, que raramente analisa a fundo as imensas problemáticas sociais, o cerco está armado. Por essa equação, a violência policial vai sendo sempre autorizada, estimulada e sancionada.

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