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Após termos discutido brevemente, em outro texto, o contexto no qual surgiu o conceito de patriarcado, ficamos de tecer algumas críticas, a fim de repensar a utilidade ou não desse conceito.

O conceito de patriarcado: inscrevendo no corpo as opressões da mulher pelo homem.

O patriarcado foi um conceito útil na medida em que procurou historicizar a dominação masculina, buscando uma origem para a opressão, no tempo e no espaço, a partir da qual se poderia desnaturalizar as desigualdades. Nesse sentido, o conceito foi particularmente útil para a mobilização política, por ser uma forma sucinta de descrever os nítidos problemas que interessavam (e ainda interessam) ao feminismo: a insistente dominação das mulheres pelos homens, nas mais diferentes épocas, lugares e esferas da vida social.

Entretanto, o patriarcado também trouxe enormes dificuldades, as quais foram sendo apontadas ao longo das últimas décadas no bojo dos estudos de gênero. Esses problemas giram em torno do caráter universalizante, dando o mesmo nome para as mais diversas formas de opressão, e a-histórico, inscrevendo no corpo a dominação. Tem-se uma contradição: da mesma forma que o patriarcado procurava historicizar a opressão, ele o fazia encerrando-a no corpo.

Essa linha de pensamento levou a uma compreensão engessada e rígida sobre a relação entre homens e mulheres, não conseguindo sair de um modelo bipolar de gênero. Se não existe nada fora a “inerente” desigualdade entre os sexos, estamos diante de um argumento tautológico, pois “a fonte das relações desiguais entre os sexos é, afinal de contas, as relações desiguais entre os sexos”, conforme critica Joan Scott (1995).

Para as historiadoras, como a autora mencionada acima, o patriarcado trouxe parcas contribuições, pois reafirmava a primazia do corpo sobre a organização social no seu conjunto. Adriana Piscitelli (2002) escreve que “o corpo aparece, assim, como o centro de onde emana e para onde convergem opressão sexual e desigualdade.” Estendendo-se rapidamente no discurso político sem ter sido fruto de maiores reflexões, componentes importantes do conceito não foram trabalhados.

Para historiadoras como Joan Scott (1941-), o patriarcado trouxe uma noção engessada de dominação, sustentada por um argumento tautológico.

Assim, criou-se uma noção essencializante de opressão, a um passo do determinismo biológico: não é à toa que as feministas radicais frequentemente são reconhecidas como aquelas que fazem uso de um pensamento determinista ao avesso, vitimizando mulheres e culpabilizando homens. O patriarcado tornou-se um conceito vazio e inespecífico, referindo-se a “um sistema político quase místico, invisível, trans-histórico e trans-cultural, cujo propósito seria oprimir as mulheres.” (PISCITELLI, 2002).

Mas, essas críticas são suficientes para se descartar esse conceito? Nada, nele, poderia ser revisitado? No próximo texto, vamos discutir se ainda há como usar um conceito de patriarcado que, pensando amplamente na “dominação masculina”, poderia corrigir os seus equívocos e tornar-se uma robusta e útil concepção.

Para aquelas pessoas interessadas nos estudos feministas, é comum, em algum momento das suas leituras, esbarrar no termo patriarcado. Esse conceito, central para certas correntes do feminismo, já passou por variadas acepções. Em alguns textos, vamos discutir a origem desse conceito, refletindo sobre suas aplicações e problemas, a fim de compreender se e qual será sua utilidade atualmente.

Quando afirmei que o patriarcado (ou patriarcalismo) é um conceito-chave para certas discussões feministas, pensei essencialmente no que se convencionou chamar feminismo radical. É preciso entender suas propostas para compreender o uso daquele conceito.

Shulamith Firestone (1945-), uma das principais teóricas do feminismo radical, escreveu a influente obra A Dialética do Sexo (1970).

Em poucas linhas, a partir do momento em que a reflexão sobre as opressões às mulheres ganhou relevo no feminismo, o que ocorreu a partir da década de 1960, essa dominação masculina, pensada tanto como universal (por ocorrer em todas as partes e em todos os períodos históricos conhecidos) quanto específica (por ter suas particularidades ao longo do tempo e espaço), recebeu a denominação de patriarcado, isto é, uma organização social que sistematicamente beneficia o homem em detrimento da mulher (SCHOLZ, 2010).

O conceito foi particularmente útil para o feminismo radical, o qual entendeu que a dominação masculina devia se inscrever naquilo que era visto como comum a todas as mulheres e homens do planeta, independente de suas culturas e sistemas políticos tão distintos: o corpo. Mais, a principal diferença entre o corpo masculino e feminino: o aparelho reprodutivo.

Assim, o feminismo radical escreveu que as origens da subordinação feminina estariam localizadas no processo reprodutivo. “Os papéis desempenhados por homens e mulheres na reprodução da espécie”, comenta Adriana Piscitelli (2002) a respeito dessa visão, “são fatores fundamentais de onde derivam as características que tornam possível a dominação que os homens exercem sobre as mulheres.”

Em decorrência, as desigualdades econômicas ou de poder político, entre outras, estão enraizadas na maneira como se reproduzem os seres humanos: o papel das mulheres no processo reprodutivo, visto que são as únicas da espécie capazes de engravidar e amamentar os bebês durante o seu longo período de dependência, as tornariam “prisioneiras da biologia”, forçando uma dependência do homem.

O patriarcado, segundo o feminismo radical, estaria baseado nas diferenças reprodutivas entre homens e mulheres, sobretudo a maternidade.

A esse regime de dominação universal, amparada na biologia das mulheres, chamou-se patriarcado. É válido destacar que o conceito não foi criado por essas feministas. Patriarcado é uma noção antiga, que inclusive já foi conceituada por Max Weber como aquelas sociedades tradicionais, centradas na figura de um patriarca. O uso do termo patriarcado no feminismo foi por meio de uma apropriação um tanto livre, mas bastante importante à época.

A demarcação dessa possível causa da dominação masculina levou, pois, à proposição de soluções radicais. Entre elas, a substituição da reprodução biológica pela artificial, livrando as mulheres do fardo de carregar um bebê e ser a principal responsável pelo seu cuidado. A ideia é tirar a reprodução sexual do cerne da desigualdade, limpando qualquer significado sócio-cultural das diferenças genitais.

Hoje em dia, ainda que as diferenças sexuais tenham um peso importante nas opressões, que se expressam em variados níveis e realmente configuram formas de dominação em diferentes espaços e tempos, já é possível prever que a concepção de patriarcado tal qual defendida pelo feminismo radical está cheia de problemas. No próximo texto, teceremos uma crítica a esse conceito, para em seguida discutir sua utilidade.

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