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Heterossexualidade, homossexualidade, bissexualidade, assexualidade, pansexualidade — há tantas categorias e, é claro, sempre surgem mais. Para algumas pessoas podem parecer tão naturais essas categorias, como se elas existissem desde sempre, assim como o “sexo” — uma visão transcendental, mas parece que o fato de não haver uma categoria para um tipo de desejo expressa a construção mesma das outras. Aliás, parece que ser de uma identidade sexual produz fracassos necessários pelos quais as próprias categorias mostrariam sua falha ou como funcionariam. No fundo, a questão que queremos chegar é como essas categorias são invenções históricas que estão possibilitadas por relações de poder.

Michel Foucault (1926 – 1984): para o filósofo francês, não houve nenhum repressão sobre o assunto “sexo”, mas, ao contrário, uma série de dispositivos fizeram, das pessoas, proliferar uma série de discursos sobre o “sexo”.

Lembremo-nos que sobre essa questão, o filósofo francês Michel Foucault, em A história da sexualidade I: a vontade de saber (1988), nos oferece uma crítica genealógica dessas classificações. Primeiramente, para Foucault, e deixemos claro que o autor rechaça a hipótese repressiva do sexo, a colocação do sexo em discurso é uma estratégia do biopoder com o surgimento da “população” — e todas as suas variantes: natalidade, fecundidade, expectativa de vida etc. — pela qual se pode calculá-la nesses mesmos termos. Para alguns pesquisadores poderia parecer que falar sobre o “sexo” se tornou cada vez mais regulado, e, de fato, mas isso não sugere a repressão do próprio assunto “sexo” como alguns se sentem atraídos a afirmar. Há o outro lado e pelo qual a crítica de Foucault é extremamente valiosa: a do discurso. Para o autor, houve uma verdadeira explosão discursiva sobre o sexo, centrando-o justamente como a sexualidade na moderna forma de governar, a do biopoder: dispositivos pelos quais as pessoas foram obrigadas a falar sobre sexo, tudo o que faziam dele, como lidavam com ele — assim, não houve uma repressão, mas uma nova maneira de falar e lidar com ele, justamente em nome desse regime. 

Dessa forma, o “silêncio” sobre sexo é para Foucault extremamente valioso e não repressivo, porque para ele, o mutismo sempre é múltiplo e integra as estratégias que apóiam e atravessam o discurso: não se parou de falar sobre o sexo, pelo contrário, se continuo a falar dele — e mais — de outra forma, valorizando-o e fazendo dele um segredo. Essa proliferação dos discursos, ele nos ressalta, não é simplesmente um fenômeno quantitativo, mas a forma pela qual o sexo e a sexualidade podem ser reguladas, já que como problemas econômicos e políticos, segundo Foucault (1988, p. 28), “é preciso analisar a taxa de natalidade, a idade do casamento, os nascimento legítimos e ilegítimos, a precocidade e a freqüência das relações sexuais, a maneira de torná-las fecundas ou estéreis, o efeito do celibato ou das interdições, a incidência das práticas contraceptivas”.

Para Foucault, o século XVIII não é um século marcado pela proibição de se falar sobre o sexo, mas por um regime que regula o sexo por meio de discursos úteis e públicos, pelo detalhamento dos discursos das pessoas sobre como cada um lida com o “sexo”. O pressuposto silêncio aqui é entendido pelo autor como múltiplo, onde ele próprio é integrante das estratégias que apoiam e atravessam esses discursos.

Nessa sociedade — a sociedade soberana/disciplinária — o biopoder é o que possibilita, como nos esclarece Beatriz Preciado no capítulo “Historia de la tecnosexualidad” que compõe seu Testo Yonqui (2008), o calculo técnico da vida em termos de população, saúde e interesse nacional, entre os quais o sexo e a sexualidade são controlados em nome do capitalismo disciplinário — o próprio Foucault nos escreve que existe uma polícia do sexo pela qual o sexo é regulado por meios de discursos úteis e públicos. Assim, o sexo e a sexualidade, como nos alerta a autora em sua leitura de Foucault, são potentes ficções somáticas (performativas) que vão obcecar o Ocidente a partir do século XIX, construindo toda ação teórica, científica e política contemporânea.

Nesse sentido, essa estratégica proliferação discursiva é o que permite mesmo a regulamentação do sexo; conforme Foucault (1988, p. 37): “anexou-se a irregularidade sexual à doença mental; a infância à velhice foi definida uma norma do desenvolvimento sexual e cuidadosamente caracterizados todos os desvios possíveis; organizaram-se controles pedagógicos e tratamentos médicos; em torno das mínimas fantasias, os moralistas e, também e sobretudo, os médicos, trouxeram à baila todo o vocabulário enfático de abominação”. Assim, através dessa proliferação discursiva sobre o sexo, com uma dispersão das sexualidades, se buscava assegurar institucionalmente o povoamento e uma sexualidade economicamente útil e politicamente conservadora.

As identidades sexuais, sua classificação taxonômica e psicopatológica são invenções do século XIX.

O lícito e ilícito era discursivamente propagado, implantando as “perversões”, como nos sugere o autor; a gestão, sobretudo médica-psiquiátrica, contribuirá para o anexo das sexualidades “desviantes”, dos corpos “criminosos”, e da especificação dos indivíduos quanto à sexualidade. Foucault nos escreve que o homossexual agora é uma espécie, uma identidade inventada para compreender os sodomitas. Temos a primeira clivagem: heterossexual versus homossexual. De fato, se seguimos também a leitura em Preciado: as identidades sexuais, sua classificação taxonômica e psicopatológica são invenções do século XIX, especificamente, 1868.

A questão central desse debate, quando compreendemos a relação entre o biopoder, o sexo e a sexualidade, é entendermos como essas classificações não são naturais, mas criadas no âmbito do biopoder. O surgimento das primeiras identidades sexuais no século XIX e sua clivagem tem de ser compreendidas como classificações que surgem em detrimento de técnicas que procuram “normalizar”, controlar e modelar a forma como cada um lida com o seu sexo (como falam dele, o que fazem dele, como lidam com ele), estabelecendo formas “normais” e “perversas” de prazer, a verdade do sexo, entre outros.

É fato que estamos, os autores deste blog, beirando ao pedantismo, de tanto que criticamos a distinção sexo/gênero. Mas será que essa crítica obtém algum resultado? Sendo uma distinção conceitual tão presente, não só no senso comum, como também nos estudos de gênero, é válido refletirmos sobre as dificuldades em sua compreensão.

Uma historiadora por quem guardo imensa admiração, Joan Scott, tentou desconstruir essa dicotomia entre um sexo para a natureza e um gênero para a cultura em seu clássico artigo Gênero: uma categoria útil de análise histórica (1995), publicado originalmente em 1986. Pouco depois, em 1990, Judith Butler opera de forma similar em Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade (2010).

A historiadora Joan Scott (1941-) relevou os mecanismos de poder associado ao conceito de gênero, apresentando-o como um saber constituído conjuntamente à noção de sexo.

Mais de duas décadas depois, Scott (2010) faz um balanço e nos mostra que está longe de ser consensual o entendimento sobre sexo e gênero. Os usos sempre variaram: há aqueles que tomam os dois conceitos como radicalmente distintos, há outros que tomam o gênero como uma forma mais acadêmica de se referir a “sexo” ou “mulheres”, mas uma coisa permanece: a noção de que o gênero é uma assimilação de significados sobre diferenças sexuais biologicamente dadas continua intacta. E foi justamente isso que elas tanto criticaram!

Ao conceituar gênero, tanto Joan Scott quanto sua colega Judith Butler – falando a partir de uma perspectiva construcionista social, altamente influenciada por Foucault – destacam que tanto sexo quanto gênero são, em primeiro lugar, formas de saber, isto é, conhecimentos a respeito dos corpos, das diferenças sexuais, dos indivíduos sexuados.

Porém, se associamos o primeiro à natureza, e o segundo à cultura, perpetuamos a ideia de que existe uma “natureza” que possa ser apreendida à parte de um conhecimento que produzimos sobre ela (SCOTT, 1999). Ambos são conceitos históricos (no sentido de possuírem uma história, serem passíveis de uma genealogia) e, desta forma, cambiáveis no tempo e no espaço.

A filósofa Judith Butler (1956-) nos mostra o quanto a ideia de um sexo natural é produto de relações de gênero que visam a naturalização do sexo em um ambiente pré-cultural e ahistórico.

O exercício, portanto, de naturalização do sexo é uma maneira de assegurá-lo em um status pré-cultural, pré-discursivo e, consequentemente, ahistórico (BUTLER, 2010). Neste sentido, Scott (1999) vai afirmar que, sendo saberes, a distinção entre os dois é complexa, de tal forma que não podemos dizer que o gênero é um reflexo do sexo ou que seja imposto sobre este. Pelo contrário, o sexo se torna um efeito do gênero.

O que não significa que o pênis ou a vagina, por exemplo, passem a existir porque foram “inventados” no âmbito da cultura e da linguagem. Não, eles estão lá! Mas sua existência na sociedade só tem sentido, só é passível de ser compreendida, a partir de um olhar que é cultural, a partir de um discurso que é construído. Assim sendo, concepções políticas sobre masculino e feminino marcam e orientam a constituição desses saberes. É por isso que gênero é, desde sua origem, um conceito político que diz respeito às relações de poder, como já dizia Scott (1995) em décadas anteriores.

“O sexo não poderia qualificar-se como uma facticidade anatômica pré-discursiva”, escreve Butler (2010, p. 27), “sem dúvida, será sempre apresentado, por definição, como tendo sido gênero desde o começo”. Isso é exatamente a ideia de Linda Nicholson (2000), a qual partilha dessa mesma perspectiva, de que sexo e gênero são um mesmo conceito, pois o primeiro está subsumido no segundo e só pode ser entendido a partir deste.

O masculino eo feminino: como entendê-los em termos de sexo e de gênero é sempre um desafio.

Mas, na prática, o que fazer com essas ideias de Scott, Butler e Nicholson? Poderíamos pensar: se ainda utilizam a dicotomia sexo/gênero, então a contribuições delas foi irrelevante? Incorreto. Mesmo as feministas que pensam de forma idêntica a essas autoras utilizam o conceito de sexo e de gênero, a depender do seu contexto, e nem por isso tratam o sexo de forma pré-discursiva e ahistórica. O mais importante é entender o sentido dessa construção social, para além de qual termo se utiliza (SCOTT, 2010).

Na prática política, na pesquisa e no senso comum, sexo e gênero tem informado aspectos diferentes. Para falar de estatísticas em larga escala, utiliza-se a ideia de “sexo”, porque as construções sociais não estão no foco e, querendo ou não, estamos diante de um mundo generificado no qual a polarização de sexos ainda faz algum sentido. Para falar de significados e identidades, preferencialmente utiliza-se “gênero”, porque as construções desse feminino e masculino estão em pauta. As situações variam – a utilidade de cada conceito também.

Em seguida, indico a leitura de algumas postagens antigas desse blog que trabalham com sexo/gênero: clique aqui para ler um texto sobre o desempenho escolar de meninos e meninas, clique aqui para verificar um texto sobre a feminização do magistério, e aqui para abrir um recente texto sobre a representação de animais nos desenhos animados. São três exemplos de que é possível operar com os dois conceitos sem, no entanto, cair em uma polarização radical entre os dois.

A manobra nem sempre é fácil, mas é indubitavelmente rica. Boa sorte!

Hoje é comemorado, em todo mundo, o “Dia Mundial de Combate à Homofobia”, ou “Dia Internacional contra a Homofobia”. A data é estratégica: em 17 de maio de 1990 a homossexualidade foi retirada do CID (Código Internacional de Doenças) pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Vinte e dois anos depois, no Brasil, nos encontramos em uma situação extremamente paradoxal: se por um lado temos uma crescente visibilização das homossexualidades e também o reconhecimento de que essa população carece de políticas públicas direcionadas, por outro é visível também uma profunda reação homofóbica em vários setores da sociedade, bem como a não-implementação de políticas que são formuladas. É triste constatar que hoje, no Brasil, “nunca se teve tanto, e o que se tem é quase nada” (MELLO, 2010). Para continuar meu ensaio, precisarei da ajuda de um dos teóricos de grande impacto nas teorias sobre sexualidade: o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984).

Bandeira do Orgulho LGBT

Acredita-se que a sociedade, desde meados do século XVIII, vive em um crescente processo de “repressão sexual”. É nesse período que o “sexo bom, sadio, maduro e completo” passa a se reduzir ao casal monogâmico. Tudo o que está fora desse núcleo é considerado errado, doentio. Foucault (1988), na primeira parte de sua famosa trilogia “A História da Sexualidade”, vai chamar isso de “Hipótese Repressiva”. Para essa perspectiva, até esse contexto acima citado a sexualidade não era tão presente nos discursos do cotidiano. No máximo, era considerado pecador aquele não cumpria os preceitos bíblicos (isso, vale lembrar, em nossa sociedade ocidental). Antes, “as práticas sociais não procuravam o segredo; as palavras eram ditas sem reticência excessiva e, as coisas, sem demasiado disfarce; tinha-se com o ilícito uma tolerante familiaridade” (FOUCAULT, 2011, p. 9). Porém, no período conhecido como Era Vitoriana, a sexualidade começou a ocupar um lugar (negativo, diga-se de passagem) de destaque no cotidiano social. Começou-se a reprimir duramente práticas sexuais consideradas erradas. Prendia-se, internava-se, matava-se aquel@s pessoas que praticavam atos que fugiam à “normalidade” sexual.

Essa seria a hipótese repressiva. Foucault, entretanto, vai negá-la, e dizer exatamente o inverso: o que ocorreu desde o período vitoriano foi, ao invés de uma repressão, uma profunda incitação ao sexo. Segundo ele, nunca se falou tanto sobre sexo como nos últimos séculos. A própria Igreja Católica, por exemplo, ao reformular a prática da confissão no Concílio de Trento, foi parte desse contexto de incitação: antes, somente se confessava aquilo que se fez de “errado”; agora, deve-se confessar aquilo que se fez, aquilo que se pensou, e até mesmo aquilo que se sonhou com relação a práticas sexuais “não convencionais”. É importante saber também que, a partir de então, o discurso sobre o sexo passou a ter locais específicos: não se pode falar sobre sexo em qualquer lugar, mas sim no confessionário, nas clínicas médicas e psicanalíticas ou, no máximo, dentro do “quarto dos pais” (pelos pais, obviamente). Portanto, o que se teve desde o período vitoriano, segundo Foucault, foi a criação de dispositivos de sexualidade que existem para policiar quem fala do sexo, o que se fala, como se fala, por que se fala etc.

Foucault critica a hipótese que considera que houve uma repressão sexual nos últimos séculos.

É claro que a obra de Foucault é muito mais extensa e contempla muito mais detalhes e questões que não poderão ser abordadas aqui (talvez em uma próxima oportunidade). Mas, desse primeiro contato com o autor, e pensando no tema do post, seria interessante pensar que essa “incitação ao sexo” produziu um discurso médico e jurídico em torno da sexualidade e, por que não dizer, em torno especialmente das sexualidades dissidentes, como a homossexualidade. Foi a partir desse momento que se começou a internar pessoas que praticavam a doença do homossexualismo, a prender “pervertidos” sexuais (por exemplo: homens que praticavam sexo com outros homens e mulheres que praticavam sexo com outras mulheres). A “polícia do sexo” passou a agir incessantemente, e os agentes dessa polícia não eram (ou são) simplesmente soldados, militares, policiais: eles estão nos discursos e são todos aqueles que interagem com o indivíduo o-tempo-todo. A patologização da homossexualidade (e também do sado-masoquismo, da transexualidade, da travestilidade etc) caminha lado a lado com esses discursos.

É curioso pensar que somente em 17 de maio de 1990 a OMS vai retirar definitivamente a homossexualidade dos códigos internacionais de doenças e patologias. E não sejamos ingênuos: é evidente que isso só vai acontecer por causa do impacto do movimento feminista e do movimento gay dos anos 70 e 80, contexto em que o próprio Foucault se inseria. Os adeptos da “hipótese repressiva” diriam que essas duas décadas foram uma “quebra” com essa repressão vitoriana, e que hoje vivemos em um contexto de maior liberdade e visibilidade, e muito menos repressão em comparação, por exemplo, ao início do século XX. Eu pergunto: será que realmente estamos vivendo esse momento tão positivo? Não acredito que estejamos muito distantes da Era Vitoriana. Por mais que realizemos inúmeras paradas do orgulho LGBT, por mais que o mercado GLS se expanda, por mais que supostamente se aceite mais a “opção sexual” dos outros, percebo que ainda existe um discurso vil e perverso contra práticas sexuais que se encontram às margens do “círculo encantado” da sexualidade (RUBIN, 1992, p. 277), no qual práticas monogâmicas, procriativas, de uma mesma geração, em casa, heterossexual etc. são bem vistas, enquanto práticas em ambientes públicos, individuais, não procriativa, homossexual, entre gerações diferentes etc. são condenadas.

“Círculo encantado” da sexualidade, proposto po Gayle Rubin (1959-).

Como entender que há “liberação sexual” em um contexto onde um dos piores xingamentos, ou as melhores piadas, se referem à orientação sexual do indivíduo? Como pensar em “liberação” em uma realidade onde lésbicas, gays, travestis e transexuais (só pra citas as categorias da sigla adotada pelo movimento atualmente) sofrem violência física e simbólica todos os dias, em todas as cidades, o tempo todo? Como pensar que há liberação em um contexto onde há uma enorme dificuldade em se aprovar projetos que criminalizam a homofobia e legalizam o casamento entre pessoas do mesmo sexo (só pra citar alguns exemplos)?

Acredito que, hoje, a “polícia do sexo” continua a mesma de séculos atrás. A única diferença é que ela está cada vez mais sofisticada. É importante comemorar as conquistas, porém, mais importante ainda é lutar por direitos que deveriam ter sido garantidos já há muito tempo. Dia 17 de maio, portanto, é uma data que nos lembra o que já foi feito, e principalmente que muito ainda está por vir.

Até a década de 80, sobrevivia com força a dualidade entre sexo e gênero, sendo o primeiro para a natureza e o segundo, para cultura. Uma das feministas que mais abalou essa concepção, trazendo novas perspectivas para os estudos de gênero, foi a historiadora estadunidense Joan Scott, quando da escrita de seu célebre artigo Gênero: uma categoria útil de análise histórica (1995), publicado originalmente em 1986.

Seu artigo tornou-se um clássico já quando publicado, sendo indiscutível sua influência não só nos Estados Unidos. Scott inicia o texto chamando atenção para o que ela considera os usos descritivos de gênero: quando apenas se olham para questões envolvendo mulheres e homens sem que se vá muito além.

Joan Scott (1941-), historiadora estadunidense, escreveu um célebre artigo que demarca uma leitura pós-estruturalista a respeito do gênero, explorando seus potenciais analíticos de desconstrução e ressignificação.

A historiadora, assumidamente pós-estruturalista, retoma o método de desconstrução do francês Jacques Derrida e busca, de fato, desconstruir vícios do pensamento ocidental, como a oposição tida como universal e atemporal entre homem e mulher (PISCITELLI, 2002). Scott, também influenciada por Michel Foucault, entende o gênero como um saber sobre as diferenças sexuais. E, havendo uma relação inseparável entre saber e poder, gênero estaria imbricado a relações de poder, sendo, nas suas palavras, uma primeira forma de dar sentido a estas relações.

Juntando esses referenciais, Scott conclui que gênero é uma percepção sobre as diferenças sexuais, hierarquizando essas diferenças dentro de uma maneira de pensar engessada e dual. Scott não nega que existem diferenças entre os corpos sexuados. O que interessa a ela são as formas como se constroem significados culturais para essas diferenças, dando sentido para essas e, consequentemente, posicionando-as dentro de relações hierárquicas.

São símbolos e significados construídos sobre a base da percepção da diferença sexual, utilizados para a compreensão de todo o universo observado, incluindo as relações sociais e, mais precisamente, as relações entre homens e mulheres (CARVALHO, 2011). Temos, portanto, a tal utilidade analítica de gênero: a possibilidade de nos aprofundar nos sentidos construídos sobre os gêneros masculino e feminino, transformando “homens” e “mulheres” em perguntas, e não em categorias fixas, dadas de antemão.

Na conceituação de Scott, é necessário desconstruir os vícios do pensamento ocidental e relativizar as definições de masculino e feminino, buscando principalmente um novo olhar sobre os símbolos e as linguagens.

O reconhecimento das diferenças entre os corpos não leva, contudo, à manutenção da dicotomia sexo x gênero. Pois, se o corpo é sempre entendido a partir de um ponto de vista social, o conceito de sexo estaria subsumido no conceito de gênero (NICHOLSON, 2000). Logo, não faria sentido pensar o sexo como pertencente à natureza, esta inquestionável, porque a própria separação entre natureza e cultura já seria um produto cultural.

E, na opinião da historiadora, como se daria essa construção? Talvez esse seja justamente o seu ponto fraco – até porque é exatamente onde mais recaem as críticas –, mas Scott deixa a cargo principalmente da linguagem e do discurso. Para ela, é um universo simbólico que organiza socialmente aquilo que podemos enxergar nos corpos, nas relações sociais etc. Fico devendo, nesse momento, um aprofundamento nesta questão por motivo de espaço.

Para saber mais sobre o pensamento de Joan Scott, temos um texto que elucida suas críticas aos usos descritivos de gênero (clique aqui) e outro que apresenta melhor sua utilidade analítica (clique aqui). Para entender mais sobre a dicotomia sexo x gênero, acesse aqui. Por fim, caso queira ler sobre o conceito de gênero por outras autoras, clique aqui para voltar ao texto inicial da série.

Recentemente estamos vendo a uma grande movimentação, principalmente de prostitutas, em determinados países pelo reconhecimento e legalização do seu trabalho. Na verdade, nessa movimentação se relaciona atores/atrizes pornôs, diretores, a equipe técnica; os strippers, lojistas de sexshops, operadores de linhas eróticas, preparadores de afrodisíacos/estimuladores sexuais, etc., de forma que todas essas pessoas estão ligadas a atividades sexuais, de prazer, fantasia, sexo; ou a indústria do sexo, tratando-se, portanto, de trabalhadores sexuais.

Manifestação também em Lisboa, só porque no ano de 2009. A integração e manifestação dos trabalhadores do sexo no Dia do Trabalho cobra por direitos iguais, legitimação, legalidade e respeito.

Assim, por exemplo, João Saramago no texto Prostitutas na manif do Dia do trabalhador para o Correio da Manhã, relata sobre a integração de um grupo de trabalhadores do sexo nas comemorações do dia 1º de Maio, Dia do Trabalho, no ano de 2010, em Lisboa. Essa participação justamente no Dia do Trabalho serve para reivindicarem que seus serviços/produtos são um trabalho sexual e um trabalho ao patamar de qualquer outro, exigindo legalidade, legitimidade, direito, deveres e respeito. Além disso, segundo Saramago, as prostituas integrariam o grupo das Panteras Rosas (movimento contra a homofobia, lesbofobia e transfobia) e o grupo UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta), onde pela fala da presidente deste último, Salomé Coelho, todo o grupo deveria vestir vermelho ou chapéus de chuva vermelhos e cartazes escritos “trabalhadoras do sexo”, representando a reivindicação dessas trabalhadoras e sua luta, independente se todos do grupo são ou não trabalhadores do sexo. Também estariam presentes outras instituições que dariam apoio a essas trabalhadoras.

O Artigo 13 da sociedade contra-sexual demanda a consideração de todas as pessoas que vendem uma atividade sexual e outras atividades comerciais relacionadas com a indústria do sexo como trabalhadores sexuais.

O último artigo da sociedade contra-sexual trata justamente desse embate que causa tanta controvérsia entre a legitimação ou não da prostituição como trabalho. Assim, pelo último artigo da sociedade contra-sexual proposto por Beatriz Preciado em seu Manifiesto contra-sexual: prácticas subversivas de identidad sexual (2002), o Artigo 13, reivindica-se a consideração de toda atividade sexual vendida e as atividades relacionadas com a indústria do sexo como um trabalho, assim a prostituição deverá ser reconhecida como uma forma legítima de trabalho sexual. Mas, para além das políticas dos trabalhadores sexuais, na sociedade contra-sexual torna-se obrigatório que a prostituição só poderá ser exercida quando as pessoas em questão entrarem em contrato livre e consensual onde uma das partes se define como comprador do trabalho sexual e a outra como vendedor do serviço sexual. “Todas as trabalhadoras e trabalhadores sexuais”, escreve Preciado (2002, p. 36, tradução minha), “terão direitos ao trabalho livre e igualitário, sem coação nem exploração, e deverão se beneficiar de todos os privilégios legais, médicos e econômicos como qualquer outro assalariado do mesmo território”.

Tanto a prostituição quanto as outras formas de vendas ligadas a indústria do sexo, compõem também as multidões queer, quebrando a ordem da nossa sociedade capitalista, onde se une sexo e reprodução e, além disso, quebra-se também toda a hipocrisia burguesa e a limpeza dos discursos desde o XVII tal como nos esclarece Michel Foucault na sua História da sexualidade I: a vontade de saber (1988). Estamos falando agora de uma contra-prostituição, uma prostituição legalizada e reconhecida, um discurso não clandestino, não codificado e tão pouco hipócrita, onde para uma sociedade contra-sexual todo o puritanismo moderno que está além dos prostíbulos deve ser desconstruído bem como essa repressão sexual. Ademais, são colocados em marcha a publicação de imagens, vídeos, textos contra-sexuais (a contra pornografia, isto é, o material contra-sexual, as práticas, os conceitos, a não censura da pornografia, mas a análise da pornografia atual como também normativa e performativa, sendo necessário propor nessa pornografia as práticas contra-sexuais), a contra-prostituição, todas consideradas como artes e disciplinas, criando-se centros universitários onde se ensinam as diferentes disciplinas contra-sexuais.

Encerrando o último artigo, Preciado (2002, p. 36, tradução minha) escreve: “No marco da sociedade contra-sexual, os corpos parlantes se chamarão <<pós-corpos>> [<<postcuerpos>>] ou wittigs”. Assim, estamos falando de uma sociedade contra-disciplinar, pós-estruturalista, da desconstrução, da análise crítica das relações de biopoder e biopolítica, da pós-identidade, onde, para a mesma autora, no artigo Multidões queer: notas para uma política dos “anormais” (2011), diferente das “políticas ‘feministas’ ou ‘homossexuais’, a política da multidão queer não repousa sobre uma identidade natural (homem/mulher) nem sobre uma definição pelas práticas (heterossexual/homossexual), mas sobre uma multiplicidade de corpos que se levantam contra os regimes que os constroem como ‘normais’ ou anormais”. É a era do ciborgue — vivemos na era da cibernética e tecnologia — e conforme Donna Haraway em Ciencia, cyborgs y mujeres: la reinvención de la naturaleza (1991), uma das pioneiras da cibertecnologia, o ciborgue é como o monstro de Franskenstein, mas não espera que seja criado seu par heterossexual, seu complemento, nem tão pouco sonha em construir uma comunidade que siga o modelo tradicional de família, nem reconhece o Jardim do Éden, não é feito de barro e ao barro não retornará.

Na introdução do livro O que é feminismo (1985), de Branca Moreira Alves e Jacqueline Pitanguy, as autoras esclarecem que o movimento feminista surge ao lado de tantos outros movimentos de libertação que denunciam formas de opressão que não se restringem apenas ao econômico, são “movimentos negros, de minorias étnicas, ecologistas, homossexuais, [que] se completam na busca da superação das desigualdades sociais” (ALVES e PITANGUY, 1985, p. 7). Mais adiante, as autoras dizem que esta complementação não implica numa fusão desses movimentos, mas que eles não são desvinculados entre si, uma vez que as fontes de discriminação não são fontes isoladas e tais movimentos se juntam em busca de uma nova sociedade.

O movimento feminismo não só lutou por direitos, mas também contra identidades que prejudicavam as mulheres

Ainda, para Alves e Pitanguy, o feminismo assume o sexo como político, isto é, estabelece-se uma relação de poder através da diferenciação sexual, e desse ponto em diante há um rompimento com os modelos políticos tradicionais que atribuem somente à palavra política ao campo público. Com isso, o feminismo questiona a hierarquização dos sexos, a condição subordinada da mulher tida como natural, espaços segregacionistas (profissões para homens, profissões para mulheres; lugar de homens, lugar de mulheres; coisas de homens, coisas de mulheres), tudo o que está em torno de ser homem e ser mulher, questões identitárias.

Michel Foucault, em seu O sujeito e o poder (1995), analisa o que há de comum entre vários movimentos, incluindo a oposição ao poder dos homens sobre as mulheres ao lado de oposições não tão distintas das apresentadas por Alves e Pitanguy, em suma, são oposições à administração do modo de vida das pessoas viverem, das relações interpessoais e a organização política e social. Assim, Foucault traça características comuns dessas lutas, das quais buscamos brevemente explorar as lutas feministas a partir de algumas delas.

Em primeiro lugar, Foucault considera que essas lutas são lutas transversais, elas não se limitam a um país especifico, nem a um tipo de particular de governo político ou econômico, mas são lutas globais. Inegavelmente, o feminismo é uma luta global, pois a gênese da relação de poder são as construções sociais feitas a partir da diferenciação sexual anatômica, exige-se que o macho humano performatize um gênero masculino e a fêmea humana um gênero feminino. Onde, na verdade, masculino reflete superior/opressor e feminino inferior/oprimido, além de estabelecer normas, verdades coercitivas sobre os corpos que não permitem com que as pessoas estejam além desses campos, entre eles ou que possam modificá-los.

Consoante a isso, é próprio da relação de poder entre os gêneros que se naturalize a condição subordinada/oprimida, logo, ser dominada está na natureza feminina, é um dado biológico. É aí que o feminismo e os estudos de gênero em geral, investigam essas estruturas e provam que não há nada de natural, de biológico, tudo se dá no âmbito cultural, isto é, não se trata de uma condição natural, mas uma condição naturalizada, nem da biologia, mas de uma biologia socializada, como se refere Pierre Bourdieu em A dominação masculina (2010). Assim, as finalidades destas lutas são analisar os efeitos do poder enquanto tais, os abusos sobre os corpos e a administração do modo de vida das pessoas.

As ideias de Michel Foucault (1926-1984) foram bastante apropriadas pelo feminismo

Outra característica importante das lutas feministas é a relação individuo/identidade, “são batalhas contra o ‘governo da individualização’”, da identidade da mulher, do que é ser mulher, que, na verdade, são campos coercitivos, opressivos, ou em outras palavras, das mulheres se esperam “que sejam ‘femininas’, isto é, sorridentes, simpáticas, atenciosas, submissas, discretas, contidas ou até mesmo apagadas” (BOURDIEU, 2010, p. 82). Dessa forma, a identidade do sexo que o feminismo repensa e recria não impõe leis sobre os corpos que permutam durante toda a vida de uma pessoa, que, desta forma, hierarquizam homens e mulheres, traduzindo essa hierarquia em várias esferas como a pública, familiar, política (ALVES e Pitanguy, 1985).

Foucault (1995) considera que o principal objetivo de lutas como as feministas seja realmente a questão da identidade pré-estabelecida, coercitiva, elemento que regula as vidas das pessoas, uma espécie de poder que cria sujeitos para se adequarem, se submeterem. Assim, através desse célebre filósofo, percebemos a coerção social sobre os corpos, que dentro de um estudo feminista, coloca o homem como soberano e a mulher como a inferior, a subordinada, à medida que o feminismo pretende atacar uma técnica, uma forma de poder, que é aplicada sobre a vida cotidiana das pessoas e as categorizam, impondo uma lei de verdade, uma identidade que elas devem reconhecer em si e os outros também.

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