De onde surgiu gênero?

Gênero é um conceito riquíssimo, base para qualquer estudo na área das chamadas “relações de gênero” e todas as suas vertentes, seja na psicologia, antropologia e sociologia, considerando temas como a diversidade sexual, o panorama das mulheres na sociedade contemporânea, a militância do feminismo e similares.

Por outro lado, é também um termo extremamente complicado de se definir, sendo que tratados poderiam ser escritos apenas para se pensar (e repensar) o que se está levando em conta ao escrever esta pequena palavra de três sílabas. Não me atrevo, pois, a busca uma definição, mas uma conceituação que certamente atravessará muitos textos.

Um pouco de história

Podemos dizer que a ideia central do conceito de gênero nasceu com escritora francesa Simone de Beauvoir. Essa autora, uma das mais importantes feministas da história, foi a precursora daquilo que ficou conhecido como “Segunda Onda” do feminismo, segundo Scholz (2010). Talvez o ponto mais importante da principal obra de Beauvoir, O Segundo Sexo (1949), possa ser resumido na seguinte frase:

Não se nasce mulher, torna-se mulher.

Simone de Beauvoir (1908-1986), para quem ser do sexo feminino não bastava para ser mulher.

Ao mencionar isso, Beauvoir está chamando a atenção para as inúmeras construções sociais acerca de ser homem e, especialmente, de ser mulher. Na Introdução de sua obra, Beauvoir inicia um questionamento muito profícuo: “O que é uma mulher?”, para, em seguida, questionar se ‘ser mulher’ é simplesmente possuir um útero. Ao refutar essa correspondência direta, Beauvoir chega à seguinte conclusão: “Todo ser humano do sexo feminino não é, portanto, necessariamente mulher; cumpre-lhe participar dessa realidade misteriosa e ameaçada que é a feminilidade.” (p. 13)

Justamente sobre esse ponto, tão complexo e contraditório por excelência, que reside o conceito de gênero. No entanto, diferentes visões sobre esse mesmo ponto lançaram interpretações distintas.

Um termo de origem gramatical

Quando nós falamos sobre “meninos” e “meninas”, estamos simplesmente alterando o gênero de uma palavra corriqueira. Porém, são tantos sentidos e significados que surgem que é quase como se estivéssemos falando de termos absolutamente diferentes. Toda essa riqueza ao alterar apenas uma pequena letra, bem no finzinho da palavra.

Capa de obra de 1972 publicada pelos psicólogos John Money e Anke Ehrhardt.

Desde sua origem, gênero foi, sim, um termo emprestado da gramática. Sua origem é inglesa, da palavra gender. A princípio, o termo foi apropriado por psicólogos norte-americanos dos anos 60, dentre Money, Ehrhardt e Stoller para designar uma “identidade de gênero” somada a um corpo, seja lá que corpo é este. Esses psicólogos estavam interessados em entender as pessoas com “sexo ambíguo”, isto é, aqueles que apresentavam, no mesmo corpo, características tidas do sexo feminino e do sexo masculino (CARVALHO, 2011).

Dessa forma, o termo gênero era particularmente interessante para eles uma vez que “identidade de gênero” daqueles sujeitos não poderia ser uma decorrência natural de características corporais. Cria-se, então, uma dicotomia entre um conceito de sexo (o corpo, a natureza) e gênero (a cultura, as atitudes), sobre uma teoria que diz respeito, essencialmente, a indivíduos e como estes lidam com seu sexo e seu gênero.

Gênero seria, portanto, todos os aspectos sócio-culturais, construídos historicamente, que poderiam residir sobre um indivíduo. A título de exemplo, gênero compreenderia os comportamentos, as preferências, os interesses, as formas de se vestir, andar e falar, relacionadas a ‘ser homem’ e ‘ser mulher’. Todos esses aspectos seriam simplesmente somados a um corpo que, por estar preso à “natureza humana”, é imutável, fixo e bipolar, separando o masculino do feminino.

A conceituação sobre sexo e gênero será tão simples quanto a dicotomia proposta inicialmente?

Por mais interessante que essa abordagem possa parecer – vale ressaltar que uma parte significativa das correntes feministas ainda faz uso dessa conceituação de gênero –, ela tem se mostrado absolutamente insuficiente para entender as complexidades das relações de gênero, as heterogeneidades entre as mais diferentes culturas e as riquezas e contradições que se escondem sobre termos tão rotineiros e comuns como homem e mulher, masculino e feminino.

É justamente sobre essa teorização mais complexa de gênero que vamos adentrar nos próximos textos. Nossa finalidade é superar as dicotomias entre natureza e cultura, biologia e sociedade, sexo e gênero. Para isso, vamos contar com a contribuição de importantes autoras e autores feministas nacionais e internacionais. Acompanhe!

18 comentários
  1. Ckrischina Cunha Saleh disse:

    Estou fazendo meu TCC sobre Gênero, vou pesquisar sobre o Homem como docente na Educação Infantil. Adorei o blog de vocês, está me ajudando na construção de mais um sonho.

    • Oi Ckrischina, tudo bem?

      Que bom que o blog está sendo útil! Veja, sobre esse assunto, eu tenho algumas recomendações de leitura:

      VIANNA, Cláudia. O sexo e o gênero na docência. Cadernos Pagu (17/18), pp. 81-103, 2001/02.

      CARVALHO, Marília Pinto de. No coração da sala de aula: gênero e trabalho docente nas séries iniciais. São Paulo: Xamã, 1999.

      O primeiro é um artigo, disponível na internet, que discute a questão de sexo/gênero entre professores. É muito bacana. O segundo é um livro, escrito pela minha orientadora, sobre a pesquisa de doutorado dela, que foi sobre professoras e professores nas séries iniciais da Educação Básica. Não é exatamente o seu tema, mas é bem próximo. Ela estudou um professor homem e viu como ele conciliava a dimensão do “cuidado”, inerente nesse nível de ensino, com a sua masculinidade. É muito bom. Se não puder ler o livro todo, recomendo ao menos o texto seguinte, disponível na internet, que é um capítulo do livro:

      CARVALHO, Marília Pinto de. Ensino, uma atividade relacional. Revista Brasileira de Educação, n. 11, pp. 17-32, 1999.

      Mantenha em contato!

      Abraços e boa sorte!

  2. Ckrischina Cunha Saleh disse:

    Obrigada pela recomendação, após fazer a leitura te comunico.

    Abraços

  3. Ckrischina Cunha Saleh disse:

    Adriano,
    você sabe me informar como eu faço para adquirir o livro ? Li a resenha dele e amei.
    Obrigada pela atenção!

    • Oi Ckrischina, desculpa pela demora!

      Bem, o livro pode ser adquirido na própria editora, acredito. Tente acessar o site da editora Xamã. Senão, procure pelo livro na Internet em sites como Estante Virtual, Submarino, Cultura. Comprei o meu exemplar quando houve uma feira do livro e a Xamã levou um banca de livros lá. Mas não sei se é fácil achar por aí ou não.

      Boa Sorte!

  4. Daniela disse:

    Parabéns pelo trabalho! Estou escrevendo meu TCC sobre a influência de gênero na tolerância ao risco em investimento de capitais e você será bastante citado.
    ^^

  5. Daniela disse:

    Só um adendo: Você já pensou em escrever um livro sobre o assunto? Estou procurando bibliografia e estou com dificuldade… acho que faria sucesso!

    • Oi Daniela,

      Obrigado pelo carinho! Mas estou longe de ter algum domínio sobre o assunto a ponto de escrever um livro, magina! Tudo isso que escrevi aqui foi baseado em leituras de autoras que gosto, leio e admiro, como Joan Scott. Mas são ideias delas, no máximo passando por uma interpretação minha a partir das influências de outras leituras e das discussões com colegas e orientadora.

      Boa sorte no seu TCC! E como assim, me citar? Ué, mas não tenho nada publicado (com exceção de um artigo, que discute gênero e biologia) que possa ser citada nos moldes acadêmicos. São textos de blog, não do campo científico ou acadêmico. Procure nos originais que eu cito, como a própria Joan Scott. Certamente serão até mais úteis que o meu texto.

      Obrigado novamente e um abraço!

  6. Cristina disse:

    Vocês precisam colocam as referências ao final. Podem dizer: Com autor e ano é possível achar. Sim, pode ser. Ou poder ser que o autor / a autora tenham publicado várias coisas naquele ano e aí… Na dúvida: publiquem as referências. Claro pra quem lê e justo com quem escreveu o que foi citado.

  7. Cristina disse:

    Ah, complementando: Vocês colocaram aquele link lá em cima com a bibliografia. Está errada. Quando o/a citada tem mais de uma obra publicada num mesmo ano, você precisa dar letras. (1990a, 1990b…) A bibliografia de vocês, por colocar tudo que foi citado num mesmo saco, não dá a possibilidade de saber. O mesmo problema já dito no comentário anterior. Façam um favor, coloquem as refs ao final de cada texto. Obrigada.

    • Oi Cristina,

      Optamos por não colocar a bibliografia no final de cada texto para não ficar poluído. Por isso, jogamos tudo para uma página à parte. Isso acontece em livros também, que reúnem todas as bibliografias no final. No caso de textos publicados no mesmo ano, pelo/a mesmo/a autor/a, o que fazemos é mencionar, por extenso, qual é a obra que estamos referenciando. Isso não acontece neste texto, mas tem em outros. Às vezes, podemos ter cometido um deslize. Neste caso, basta nos enviar um comentário que informamos a referência completa, se for o caso.

      Abraços,

  8. gente isso se considera como origem de gênero : Desde sua origem, gênero foi, sim, um termo emprestado da gramática. Sua origem é inglesa, da palavra gender. A princípio, o termo foi apropriado por psicólogos norte-americanos dos anos 60, dentre Money, Ehrhardt e Stoller para designar uma “identidade de gênero” somada a um corpo, seja lá que corpo é este. Esses psicólogos estavam interessados em entender as pessoas com “sexo ambíguo”, isto é, aqueles que apresentavam, no mesmo corpo, características tidas do sexo feminino e do sexo masculino. ?

  9. Jenoveva disse:

    Amiga, desculpe, mas não entendi. Gostei muito do seu texto e gostaria de usar em meu tcc algumas referências. Vc as colocou em algum lugar específico aqui na página? Obrigada. Jê

    • Olá Jenovena,
      Sim, as referências estão todas na aba “Bibliografia”, logo acima da figura de capa do blog e abaixo do seu título.
      Obrigado pelo comentário,
      Um abraço!

  10. Ramona disse:

    Olá, poderia me dizer de que livro é essa citação de “Scholz” que você menciona em seu texto ? tentei achar mas não consegui. Abraços!

    • Olá Ramona,
      Todos os livros e artigos citados estão na aba Bibliografia, acessível no menu localizada acima da imagem de capa do blog. No caso de Scholz, referimo-nos ao seguinte:

      SCHOLZ, Sally J. Feminism: a beginner’s guide. Oxford: Oneworld, 2010.

      Um abraço e até mais!

  11. Aline disse:

    Olá! Intriga-me sua concepção de que a palavra gênero derive do inglês gender. Sendo nossa língua uma derivação do latim, a etimologia correta não seria a palavra: generu?

    • Olá, Aline! Talvez não tenha ficado claro, mas minha intenção foi dizer que o CONCEITO de gênero derivou do “gender”. O termo “gênero” já existia na língua portuguesa, possivelmente por sua raiz latina, mas não no sentido adotado pelo “gênero” das “relações de gênero”, tal qual estavam sendo desenvolvidas nos Estados Unidos como “gender relations”.
      Obrigado pelo seu comentário!

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