Feminismo: uma luta entre identidades

Na introdução do livro O que é feminismo (1985), de Branca Moreira Alves e Jacqueline Pitanguy, as autoras esclarecem que o movimento feminista surge ao lado de tantos outros movimentos de libertação que denunciam formas de opressão que não se restringem apenas ao econômico, são “movimentos negros, de minorias étnicas, ecologistas, homossexuais, [que] se completam na busca da superação das desigualdades sociais” (ALVES e PITANGUY, 1985, p. 7). Mais adiante, as autoras dizem que esta complementação não implica numa fusão desses movimentos, mas que eles não são desvinculados entre si, uma vez que as fontes de discriminação não são fontes isoladas e tais movimentos se juntam em busca de uma nova sociedade.

O movimento feminismo não só lutou por direitos, mas também contra identidades que prejudicavam as mulheres

Ainda, para Alves e Pitanguy, o feminismo assume o sexo como político, isto é, estabelece-se uma relação de poder através da diferenciação sexual, e desse ponto em diante há um rompimento com os modelos políticos tradicionais que atribuem somente à palavra política ao campo público. Com isso, o feminismo questiona a hierarquização dos sexos, a condição subordinada da mulher tida como natural, espaços segregacionistas (profissões para homens, profissões para mulheres; lugar de homens, lugar de mulheres; coisas de homens, coisas de mulheres), tudo o que está em torno de ser homem e ser mulher, questões identitárias.

Michel Foucault, em seu O sujeito e o poder (1995), analisa o que há de comum entre vários movimentos, incluindo a oposição ao poder dos homens sobre as mulheres ao lado de oposições não tão distintas das apresentadas por Alves e Pitanguy, em suma, são oposições à administração do modo de vida das pessoas viverem, das relações interpessoais e a organização política e social. Assim, Foucault traça características comuns dessas lutas, das quais buscamos brevemente explorar as lutas feministas a partir de algumas delas.

Em primeiro lugar, Foucault considera que essas lutas são lutas transversais, elas não se limitam a um país especifico, nem a um tipo de particular de governo político ou econômico, mas são lutas globais. Inegavelmente, o feminismo é uma luta global, pois a gênese da relação de poder são as construções sociais feitas a partir da diferenciação sexual anatômica, exige-se que o macho humano performatize um gênero masculino e a fêmea humana um gênero feminino. Onde, na verdade, masculino reflete superior/opressor e feminino inferior/oprimido, além de estabelecer normas, verdades coercitivas sobre os corpos que não permitem com que as pessoas estejam além desses campos, entre eles ou que possam modificá-los.

Consoante a isso, é próprio da relação de poder entre os gêneros que se naturalize a condição subordinada/oprimida, logo, ser dominada está na natureza feminina, é um dado biológico. É aí que o feminismo e os estudos de gênero em geral, investigam essas estruturas e provam que não há nada de natural, de biológico, tudo se dá no âmbito cultural, isto é, não se trata de uma condição natural, mas uma condição naturalizada, nem da biologia, mas de uma biologia socializada, como se refere Pierre Bourdieu em A dominação masculina (2010). Assim, as finalidades destas lutas são analisar os efeitos do poder enquanto tais, os abusos sobre os corpos e a administração do modo de vida das pessoas.

As ideias de Michel Foucault (1926-1984) foram bastante apropriadas pelo feminismo

Outra característica importante das lutas feministas é a relação individuo/identidade, “são batalhas contra o ‘governo da individualização’”, da identidade da mulher, do que é ser mulher, que, na verdade, são campos coercitivos, opressivos, ou em outras palavras, das mulheres se esperam “que sejam ‘femininas’, isto é, sorridentes, simpáticas, atenciosas, submissas, discretas, contidas ou até mesmo apagadas” (BOURDIEU, 2010, p. 82). Dessa forma, a identidade do sexo que o feminismo repensa e recria não impõe leis sobre os corpos que permutam durante toda a vida de uma pessoa, que, desta forma, hierarquizam homens e mulheres, traduzindo essa hierarquia em várias esferas como a pública, familiar, política (ALVES e Pitanguy, 1985).

Foucault (1995) considera que o principal objetivo de lutas como as feministas seja realmente a questão da identidade pré-estabelecida, coercitiva, elemento que regula as vidas das pessoas, uma espécie de poder que cria sujeitos para se adequarem, se submeterem. Assim, através desse célebre filósofo, percebemos a coerção social sobre os corpos, que dentro de um estudo feminista, coloca o homem como soberano e a mulher como a inferior, a subordinada, à medida que o feminismo pretende atacar uma técnica, uma forma de poder, que é aplicada sobre a vida cotidiana das pessoas e as categorizam, impondo uma lei de verdade, uma identidade que elas devem reconhecer em si e os outros também.

2 comentários
  1. Texto de entrada do Lucas no blog!

    Como já disse, o texto está bem escrito e é bem interessante! Você optou por fazer um recorte focando no Foucault e no seu delicioso (e provocante) poder-saber. Acho que o texto mostra bem que discutir a questão de gênero é ir muito além de equiparar direitos legais ou condições sócio-econômicas. Existe toda uma outra esfera – dos discursos, das verdades e dos conhecimentos – que deve ser repensada e desconstruída.

    Aguardo ansiosamente por mais textos ricos para as próximas postagens!

    Abraços!

    • Muito obrigado Adriano!

      Com uma sociedade que nem essa, dai-nos Foucault nas veias, não é mesmo? E as pessoas não deveriam morrer antes de conhecer o delicioso, provocante e atraente poder-saber que certamente imortalizou Foucault.

      É nesse âmbito mesmo que creio que Foucault é essencial para os estudos de gênero, ele consegue estabelecer “verdades”, colocar em evidência toda uma coerção sobre os corpos, e então começamos a desconstruir muitas esferas, aliás, a majestosa teoria queer e suas desconstruções partem certamente de, entre outros, Foucault.

      Abraços!

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