Avaliação escolar e trajetória dos alunos

No contexto escolar, uma das atividades mais importantes é a avaliação. Por mais que nos recusemos a transformar a avaliação no centro de toda aprendizagem, isto é, fazer do “tirar notas” o sentido da escolarização, devemos concordar que a avaliação do aprendizado é essencial para diagnosticar dificuldades do educando e pode, sim, marcar intensamente a trajetória escolar dos mesmos. Porém, a avaliação pode ser entendida e aplicada de formas muito distintas, quando não contraditórias.

Em um estudo com professoras alfabetizadoras que lecionavam para a 1ª série do Ensino Fundamental, a pesquisadora Marília Carvalho (2009) procurou entender como os diferentes critérios de avaliação poderiam influenciar na trajetória escolar de meninos e meninas, brancos e negros, de escolas públicas.

Essa indagação surgiu das seguintes problemáticas: (1) constatou-se uma dificuldade da equipe pedagógica em definir, com clareza, os critérios de avaliação; algumas das escolas adotavam o sistema PS (plenamente satisfatório), S (satisfatório) e NS (não satisfatório), e via-se que havia alunos classificados como S indicados para o reforço, outros não. E mesmo por meio de depoimentos, as professoras se mostraram perdidas quanto a esses conceitos.

Avaliação escolar: os critérios nem sempre são claros.

Além disso, partiu-se do pressuposto de que (2) a falta de critérios de avaliação poderia potencializar a reprodução das desigualdades sociais, pois uma vez que não sabemos, exatamente, o que avaliar, abrimos um espaço enorme para que todos os nossos preconceitos e concepções sobre os alunos venham à tona.

Ao entrar em campo, Carvalho encontrou um grupo de professoras que tinham critérios bem definidos. Em se tratando de professoras da 1ª série, cujo objetivo fundamental é alfabetizar os alunos, tais professoras selecionariam seus alunos para o reforço caso eles não alcançassem as expectativas no que diz respeito à alfabetização.

Por outro lado, outro grupo de professoras afirmava “avaliar o aluno como um todo”: seus comportamentos e atitudes, o que traziam de casa, seus “valores”. Fazendo uso de critérios vagos de avaliação, muitas vezes nem os estágios de alfabetização eram mencionados.

Tais professoras (nove, ao todo), foram entrevistadas continuamente e os resultados dessa pesquisa são incríveis. As professoras do segundo grupo, sem critérios definidos, frequentemente atribuíam às famílias ou à “questão social” das crianças a sua dificuldade em aprender: cobravam a participação das mães, mencionavam o desinteresse familiar, a falta de “bagagem” e “repertório” das crianças. O que se via, portanto, era uma sensação de impotência.

O que se esperaria de fato de um aluno em alfabetização?

As professoras do primeiro grupo, pelo contrário, diziam dar maior atenção às crianças com maior dificuldade, percebiam as arbitrariedades do sistema de avaliação escolar, questionavam a necessidade de classificar seus alunos. Nessas professoras, suas atitudes se aproximavam do modelo de ação afirmativa: contribuir com aqueles que estão desvantagem.

Por fim, com relação à avaliação escolar, o que se conclui? Com critérios de avaliação pouco claros, uma proporção muito maior de meninos, principalmente negros e de baixa renda, foi indicada para o reforço, justamente os grupos que são frequentemente vistos como os mais “bagunceiros”, “complicados” e “difíceis” (Carvalho, 2001).

Portanto, é válido questionar se os alunos eram indicados para o reforço não por problemas de aprendizagem e sim por não corresponderem aos comportamentos esperados pela escola. É de se esperar que, nesse contexto, muitos meninos construam, desde cedo, uma imagem de maus alunos, enquanto meninas com dificuldades de aprendizagem passem invisíveis por serem disciplinadas.

Menino negro: será que sua avaliação não é afetada por preconceitos?

Ainda, é interessante pensar qual a relação entre um menino negro e a indisciplina. Será que aquele aluno é visto como indisciplinado por ser negro ou será que é visto como negro por ser indisciplinado? Dado que tanto a percepção de “mau aluno” quanto de negro e branco é bastante subjetiva, espera-se que essas categorias se cruzem estigmatizando tanto alunos indisciplinados quanto negros.

Esses pontos mostram a necessidade da escola refletir as relações raciais e de gênero, procurando amenizar a reprodução das desigualdades sociais que ocorre ao institucionalizar preconceitos. No caso, critérios de avaliação bem definidos – isto é, saber exatamente o que estou esperando dos alunos e para o que estou olhando – parecem ser etapas essenciais desse esforço.

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