Repetição e imanência: o lugar de encerramento da mulher

Uma sociedade machista, patriarcal, impõe uma fronteira entre os sexos, de um lado está o homem-público e do outro a mulher-privado, conforme nos esclarece Márcia Arán em seu artigo Os destinos da diferença sexual na cultura contemporânea. Aliada à justificante natureza feminina, esta fronteira impõe a seguinte organização da sociedade: a mulher está restrita de qualquer liberdade, sua prisão é a casa e os afazeres domésticos, ela deve criar os filhos, cuidar do marido, os filhos homens serão entregues em algum momento de suas vidas exclusivamente a seu pai, para que este os masculinize, a mulher não pode aspirar nenhuma atividade que seja no extra-lar, deve ser mantida a distância de qualquer dependência financeira, ela pertence ao campo privado (ARÁN, 2003).

Na sociedade patriarcal, a mulher fica presa ao lar, ao espaço privado e às tarefas reprodutivas.

Ademais, estabelece-se nessa sociedade também, que ela seja intelectualmente inferior ao homem, ela seja histérica, frágil, nervosa e seu corpo não funciona como nada mais do que um receptor de esperma. Já o homem, definitivamente não! É ele quem percorre o espaço público, é autosuficiente, a palavra “o homem” representa “a humanidade”, seu esperma, segundo Pierre Bourdieu (2010), leva o princípio fundador, ele domina, é o corpo livre no ato sexual, a mulher deve deixar-se dominar, suportar um casamento turbulento por causa dos filhos, silenciar-se. É nesse âmbito, do público e do privado, organização atemporal, que devemos enxergar uma das várias formas de dominação, é uma das formas a priori de dominar a mulher.

Devemos buscar alguns aspectos históricos. A mulher “primitiva”, nos diz a ilustre escritora e feminista Simone de Beauvoir em seu O segundo sexo, sai para as caças sangrentas, guerras, demonstram o mesmo nível de coragem e crueldades do que o homem, elas mordem ferozmente o fígado de seus inimigos. É nesses tempos que temos um problema, a mulher não consegue exercer autonomia sob seu corpo, existe uma desvantagem: as servidões às reproduções praticamente inesgotáveis; “a gravidez, o parto, a menstruação diminuíam sua capacidade de trabalho e condenavam-nas a longos períodos de impotência”, escreve Beauvoir (1980, p. 82).

Seguindo o pensamento da autora, com o descontrole dos nascimentos, a impossibilidade de períodos estéreis, a mulher precisa ser protegida, assim o homem toma a frente, a fêmea humana suporta passivamente o destino biológico, e como a espécie humana busca superar-se, transcender, a mulher não consegue fazer da maternidade um pedestal, sua tribo pouco se preocupa com sua posteridade. Dessa forma, ela se volta para o que conhecemos como “trabalhos domésticos”, já que somente eles são conciliáveis com a maternidade, encerradas, portanto, na repetição e na imanência, “reproduzem-se dia após dia sob uma forma idêntica que se perpetua quase sem modificação através dos séculos; não produzem nada de novo” (BEAUVOIR, 1980, p. 83).

O homem pertence ao espaço público e é próprio da dominação que ele permaneça assim.

A situação do homem é completamente diferente, ele não está preso ao corpo, suas atividades nunca o encerram, seu campo de atuação é o livre, o público, o homo faber, escreve Beauvoir (1980, p.84), “põe objetivos, projeta caminhos em direção a eles, realiza-se como existente. Para manter, cria; supera o presente, abre o futuro”.  Além disso, é também com a impossibilidade de participar das expedições guerreiras que as mulheres vão se tornando invisíveis. “Não é dando a vida, é arriscando-a que o homem se ergue acima do animal; eis por que, na humanidade, a superioridade é outorgada não ao sexo que engendra e sim ao que mata” (BEAUVOIR, 1980, p. 84).

Sendo assim, percebemos que o que essa organização da sociedade patriarcal, que é uma organização machista, androcêntrica, realiza, senão, uma das suas várias formas de dominação. Repetição e imanência são o que estão por trás do campo privado que circunscreve à mulher e a torna a “mulher-privado”, são os lugares de encerrá-las, de comprometê-las às tarefas reprodutivas, domésticas, adicionadas de uma pesada subserviência. Além disso, também podemos dizer que através dessas fronteiras, onde sujeitos são produzidos, os corpos são disciplinados, é que os deslocamentos são ilegítimos, isto é, não se aceita de forma alguma que a mulher desfrute do campo público, pois é um campo masculinizado, assim como não se aceita que ela concilie maternidade e trabalho, possa escolher entre ter filhos ou não, se vai se casar ou não, que se desloque de um sistema heterocentrado.

3 comentários
  1. Olá Lucas,

    Muito bom o seu artigo, mas queria comentar alguns pontos.

    A dicotomia público-privado – e seus derivados, como a divisão entre trabalho produtivo e reprodutivo – é muito interessante e tem sido utilizada frequentemente. Porém, tal divisão já tem causado certo desconforto entre parte das teóricas do feminismo.

    O primeiro ponto é a necessidade de complexizar essa relação. Ao falarmos que as mulheres estão restritas ao privado e os homens, ao público, temos que pensar a que público e a que privado estamos nos referindo. Pelo seu texto, percebemos que o privado das mulheres é o ambiente doméstico, pois você menciona que elas estão reduzidas aos afazeres, ao cuidado. Perfeito. Mas que mulheres? De onde? Se formos destrinchar as relações de poder entre diferentes tipos de mulheres e diferentes tipos de homens, veremos que a dicotomia não é tão válida assim.

    Pois “a mulher” (se é que posso escrever no singular) de camada popular não ocupa – e tampouco está restrita – os mesmos espaços das mulheres elitizadas. Assim como os homens negros e brancos. Os espaços públicos e privados que esses diferentes sujeitos ocupam são diferentes.

    A mulher que não trabalha e é dona-de-casa, pelo seu texto, estaria restrita ao privado, correto? Mas se a mulher for empregada doméstica e trabalhar para outra mulher? Ela está trabalhando em um ambiente público (é fora da casa dela) mas fazendo serviços de ambiente privado (por estar relacionados à casa)? E se pensarmos nas mulheres de regiões rurais que ajudam intensamente seus maridos nas colheitas e plantios? E o nos homens pobres para os quais só existe o desemprego ou a informalidade. São bem diferentes das mulheres que ocupam 97% dos cargos de professoras primárias, não é?

    Por mais que a dicotomia público-privado seja bacana, ela não fornece um escopo de análise tão amplo para entender esses casos que mencionei. Isso não é para desvalorizar o seu texto, de maneira alguma. Acho que seu texto está ótimo e argumenta muito bem em cima desses conceitos. Porém, essa tradição (que vem também da Simone de Beauvoir e Pierre Bourdieu, que eu adoro!) está sendo repaginada atualmente. Faz parte, né?

    Rs! De toda forma, muito obrigado pelas suas colaborações!

    Abraços,

    Adriano

    • Ótimas colocações Adriano!

      Nós ainda vamos ver muitas dessas dicotomias nesse blog, como por exemplo, natureza/cultura, sexo/gênero, mas na medida em que nós formos avançando vamos apresentar novas linhas que discordam justamente dessas dicotomias, o pós-feminismo, a teoria queer… já que eu não posso falar de uma mulher no singular, mas sim de mulheres, cada uma num contexto diferente da outra.

      Logo, a dicotomia não é tão eficiente assim, válida. Mas o que poderíamos aproveitar disso? Ao falarmos de patriarcado, de sociedade machista, sexista, podemos pensar que esta sociedade ela cria entre outros campos dicotômicos o homem-público e mulher-privado, que na verdade, são campos onde se articula o poder, campos de coerção heterocentrados, que vão colocar as pessoas nesses dois campos segundo o sexo de cada um. Assim, o homem, no patriarcado detém a liberdade e a mulher não, mostrando que mantê-los assim é uma das várias estratégias dessa “dominação masculina”.

      Porém, isso seria apenas uma característica desse sistema, como essa organização pretende dispor os corpos, mas não são pontos de partida que permitem analisar a situação global da mulher, pois e se “a mulher for empregada doméstica e trabalhar para outra mulher? Ela está trabalhando em um ambiente público (é fora da casa dela) mas fazendo serviços de ambiente privado (por estar relacionados à casa)? E se pensarmos nas mulheres de regiões rurais que ajudam intensamente seus maridos nas colheitas e plantios?”, como você mesmo colocou.

      E é assim mesmo que nós vamos caminhando nos nossos estudos em gênero, desconstruindo, analisando, repaginando, o que têm tudo a ver com os aspectos históricos, com a evolução dos conceitos, com as linhas diferentes que vão surgindo não em rivalidade as outras, mas para preencher lacunas que uma anterior deixou. Não que Simone de Beauvoir esteja ultrapassada, não, de forma alguma, as ideias dela são extremamente atemporais, ela é sem dúvida um nome valioso nos estudos de gênero, pela sua teoria, pelo seu ativismo, sem ela como que a Butler ia desconstruir o gênero, não é? Sem ela, como que a gente ia começar a pensar em gênero, como que a gente analisa o patriarcado, as identidades impostas?

      Faz parte mesmo, Adriano! rs

      Abraços,

      Lucas.

  2. Ótimas colocações! Muito obrigado pela resposta!

    Concordo. Mas lembremos também que o patriarcado não pode ser tomado como universal, senão estaríamos incorrendo ao erro das antigas feministas, que buscavam uma origem única para um sistema opressivo, coerente, que era transcultural.

    Isso fica para depois!

    Abraços!

    Adriano

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