“Natureza”: o dispositivo da normatização da heterossexualidade

Beatriz Preciado é filosofa e destaca-se principalmente nos estudos de gênero, especificamente na teoria queer, pelo seu pensamento instigante. Ela é autora, dentre outros, do livro Manifesto Contra-sexual (2002), que até agora parece ser aquele que imortaliza seu nome. Neste livro, Preciado trata de vários conceitos como contra-sexualidade, o sexo como tecnologia de dominação, a natureza humana como tecnologia social, os “postcuerpos” (“pós-corpos”), entre outros que trataremos mais tarde nesse blog. Primeiramente, devemos entender tudo o que está relacionado à Natureza, teorizá-la e desconstruí-la, perceber o poder e abalá-lo.

Beatriz Preciado (1970 - ): na teoria dessa autora encontramos um pensamento inovador no que diz respeito aos estudos de gênero.

Para Preciado, é o que entendemos como Natureza que legitima a sujeição de uns corpos a outros corpos, isto é, a Natureza é uma ordem de como organizar os corpos e as relações de poder entre esses corpos, numa verdade única heterocentrada. Então, essa ordem estabelece que: em primeiro lugar, a materialidade sexual é apenas macho e fêmea, não é possível portar outra materialidade, nem modificar anatomicamente cada sexo, um pênis não se converte em vagina e vice-versa; em segundo lugar, se existem apenas duas verdades sobre os corpos, então existem duas verdades sobre os gêneros, ou seja, é obrigatório que o macho humano performatize aquilo que conhecemos como gênero masculino e a fêmea humana performatize o gênero feminino, nunca é alterado essa relação e não existem outras identidades, nem é possível modificar cada categoria em sim e, muito menos, transitar entre as duas.

Em terceiro lugar: o desejo é um único apenas, o desejo heterossexual, a heterossexualidade é obrigatória para todos os corpos. Esses três aspectos são o que Judith Butler denominou como ordem compulsória do sexo/gênero/desejo, em seu Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade (2008), logo a Natureza implica na ordem compulsória. De forma que se teria uma organização dos corpos na sociedade bem específica, homem heterossexual/mulher heterossexual, e nesse binário um assumiria uma condição superior e outro uma condição inferior, se alguém subverte, desestabiliza essa ordem compulsória, a Natureza, ele será determinado como “perverso”.

A Natureza não seria mais do um dispositivo de poder, uma ordem que sujeita corpos a outros corpos e estabelece a equação Natureza=heterossexualidade.

Dessa maneira, a natureza humana, o mesmo que Natureza, designado acima, seria um efeito de tecnologia social que reproduz sob os corpos a equação natureza é igual a heterossexualidade. “O corpo”, escreve Preciado, “é um texto socialmente construído, um arquivo orgânico da história da humanidade como história da produção-reprodução sexual, em que certos códigos se naturalizam, outros ficam ocultos e outros são sistematicamente eliminados ou tachados” (2002, p. 23, tradução minha). Assim o corpo, lugar da própria construção social e cultural, é adequado a verdade única, a lei que denomina a heterossexualidade a única possibilidade do desejo, de forma que a sexualidade nunca é polimorfa aqui, transgredir esses limites sempre será problemático. A heterossexualidade deve ser reafirmada sempre sob os corpos, através de códigos, da lembrança que existe uma lei única, entendidas sempre como Natureza, natural, natureza humana, etc. estando do outro lado o “perverso”, a “subversão” dessa naturalidade, o ilegítimo, que não deixa também de considerar o heterossexual que não é economicamente útil.

Enfim, é no campo de poder Natureza que se estabelece a coerção dos corpos, implicando num contrato sexual, numa ordem compulsória a ser obrigatoriamente seguida, a começar pela própria materialidade do sexo. Porém, muitas pessoas nem conseguem enxergam que essa Natureza é em si um campo de se articular o poder, de administrar o modo de vida das pessoas, de maneira que essa ordem colocaria a relação masculino/feminino como única, verdadeira e legitima, criando sujeições entre esses dois pólos impossíveis de serem re-significados. A não-adequação a essa norma implica nos estereótipos de “perverso”, “doente”, “anormal”, “contra-natural”, tecnologia para outra vez sujeitarem corpos a outros corpos, ao sistema heterocentrado.

1 comentário
  1. Fantástico!

    Já li Butler, mas nunca Preciado. As ideias de ambas dialogam bastante. Enfim, essa ordem compulsória, o contrato, do sexo/gênero/desejo é muito instigante. Já me deparei, não me lembro onde, com mais um componente: a prática. Não é um componente essencial para a análise, mas é interessante pensar como a prática sexual pode também influenciar nessa ordem. Pense o seguinte: um homem fazendo sexo com uma mulher, mas é a mulher que penetra o homem utilizando um instrumento. Veja, é uma relação heterossexual, porém, fazendo uso de uma prática (o sexo anal) que não é esperada de ocorrer em homens heterossexuais. Esse homem poderia ser rotulado de afeminado ou de gay, ainda que seja homem, ainda que esteja com uma mulher. Isso porque, na nossa sociedade, a posição na cama é um fator que influencia na definição social (e sempre arbitrária) da sexualidade. Da mesma forma que acontecia com os gregos: homem com homem, tudo bem, apenas para o ativo. Ser passivo com outros homens, e principalmente com escravos, era péssimo para a afirmação da sua masculinidade. Interessante, não?

    Gostei bastante do seu texto!

    Parabéns!

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