Gênero em seus usos descritivos

Conforme esboçamos no primeiro texto, De onde surgiu gênero? (11/10/2011), gênero é um termo originário da gramática e diz respeito, grosso modo, às qualidades fundamentalmente sociais das distinções baseadas no sexo. Em um primeiro momento, foi um conceito utilizado por psicólogos norte-americanos que diferenciavam, em seus pacientes, o sexo (aspectos biológicos e naturais) e o gênero (aspectos sócio-culturais).

Essa conceituação foi apropriada, de forma acrítica, por feministas estadunidenses que fortaleceram a dicotomia sexo x gênero, ainda hoje adotada por muitas correntes do movimento. Antes de desconstruir essa dicotomia, é necessário entender como se chegou a tal, observando os usos de gênero na história.

Gênero e a história das mulheres

Joan Scott (1941-), para quem os usos descritivos de gênero pouco contribuem para a historia.

O primeiro passo dado pelas historiadoras feministas foi garantir às mulheres o estatuto de sujeitos da história, em outras palavras, “dar voz” às mulheres. No entanto, como destaca Joan Scott (1995), as limitações de uma história das mulheres sempre se mostraram evidentes. Em primeiro lugar, porque os/as historiadores não feministas tratavam a história das mulheres como um domínio à parte, algo como “deixe que as mulheres escrevam a história delas que isso não nos concerne”.

Quando as historiadoras feministas procuraram evidenciar a participação das mulheres em momentos importantes da história, a reação foi, no melhor dos casos, de um interesse mínimo. Louise Tilly (1994) conta que, após um seminário que ilustrava o engajamento de mulheres na Revolução Francesa, um historiador velho e rude se levanta e diz: “agora que eu sei que as mulheres participaram da Revolução, que diferença isto faz?” (p. 29).

Essa crítica aponta para duas necessidades: produzir não somente estudos descritivos – que narram fenômenos, mas não os explicam ou os interpretam –, como também estudos que resolvam problemas analíticos, e vincular as descobertas desses estudos a questões gerais que há muito estão postas à história. As respostas para esses problemas, segundo Scott (1995), dependem do gênero enquanto categoria de análise, e não meramente de descrição. É importante, antes, saber como esse caráter descritivo se transparece.

O gênero enquanto categoria descritiva

Gênero enquanto categoria de análise, para que a participação das mulheres na Revolução Francesa não seja apenas um dado a mais.

Podemos destacar três usos descritivos do gênero, segundo Scott (1995). O mais simples é tratar “gênero” como sinônimo de “mulheres”, uso que poderia ter surgido para amenizar os efeitos, no meio acadêmico, do termo “mulher”, tão carregado de sentidos políticos que vieram à tona com o feminismo. Seria um uso, portanto, eufemístico, uma terminologia não associada à política intencionalmente escandalosa do movimento.

Um passo é dado, embora ainda muito limitado, quando o gênero incorpora também os homens, e torna-se sinônimo da relação entre mulheres e homens. Nesse caso, gênero adquire um caráter relacional e quebra com a ideia de que estudar mulher é se adentrar em uma esfera separada. Pelo contrário, só faz sentido falar em mulher se falarmos em homem e vice-versa.

Em seguida, o uso descritivo mais forte de gênero, mencionado no início do texto: a noção de uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado, em outras palavras, a diferenciação entre o corpo, o “sexo biológico”, e os aspectos sócio-culturais e a historicidade do gênero. Essa definição é exatamente o ponto central da dicotomia sexo x gênero.

Fazer uso de qualquer uma das três abordagens acima para entender a história nos fornece um escopo de análise muito limitado. É necessário entender o gênero enquanto uma categoria de análise, relativizando o que entendemos por homens e mulheres (e não só inserindo-os como categorias já dadas) e nos aprofundando nas maneiras como o corpo, o sexo e a biologia são “generificados”, ou seja, trazidos para a prática social, para a história, ao invés de permanecerem intocáveis na natureza, que nos é apresentada como a-histórica, essencial e imutável. Faremos esse exercício nos próximos textos.

4 comentários
  1. Muito interessante.

    A minha concepção ainda está muito presa a dicotomia sexo X genêro, contudo o artigo deu uma boa esclarecida para que eu possa complexificar minha reflexão. Como análisa Marcel Mauss, é incrível como em muitos casos temos uma forte tendência em pensar através de símbolos relacionados a polos opostos.

    No mais estou gostando dessa temática e para complementar, espero ansiosamente “pagar” uma cadeira de Antropologia e Gênero no próximo período do curso.

    Um grande abraço.

    • Oi Inã,

      É normal. A dicotomia sexo x gênero é muito forte no nosso pensamento. Interessante esse ponto que você levantou sobre Marcel Mauss. Não conhecia. Outros autores, como Pierre Bourdieu e Jacques Derrida vão também chamar a atenção para as bipolaridades tão presentes no nosso pensamento.

      Abraços!

      Adriano

  2. Olá Adriano! Acabo de conhecer o seu blog e acredito que aprenderei contigo sobre a temática sobre a qual se propõe a estudar. Estarei sempre por aqui. Acredito que poderá contribuir com as minhas pesquisas na área dos direitos fundamentais.
    Aproveito para lhe fazer um convite. Mantenho o blog “Dissencialistas” desde julho deste ano. Faça-me uma visita: http://dissencialistas.wordpress.com/

    Grande abraço,
    Stanley

    • Oi Stanley,

      Que bom saber que o blog será útil! Espero que contribua para suas pesquisas, mas também gostaria que você deixasse alguns comentários dando colaborações também. Quem sabe não sai uma troca interessante?

      Obrigado pelo contato, vou dar uma checada no seu blog,

      Abraços,

      Adriano

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