No caminho das revoluções fundamentalistas

Em 1979, uma ampla mobilização popular, que aliava setores liberais, de esquerda e também religiosos, enfraquece a monarquia autocrática do xá Reza Pahlevi, levando-o à sua deposição. Após poucos dias de suspiro, o líder religioso, aiatolá Khomeini, volta do seu exílio da França e proclama uma república fundamentalista, na qual ele se torna o líder.

O acontecimento descrito acima se refere à Revolução Iraniana, que substituiu um governo monárquico autoritário por um fundamentalista, igualmente autoritário, que perpetua até os dias de hoje. Embora esse seja um episódio da história do Irã, não parece que as revoluções do Oriente Médio e dos países com predominância muçulmana estejam muito longe disso.

Líbia

Revolução na Líbia: o país nas mãos do CNT seguirá com constituição baseada na lei islâmica.

Três dias após a morte do ditador Muammar Gaddafi, fruto de uma revolta civil que durou sete meses, a “libertação” do país foi declarada pelo Conselho Nacional de Transição (CNT). Após 42 anos com Gaddafi no poder, a Líbia fará uma transição para um governo democrático em cinco etapas. Entre elas, o estabelecimento de um governo provisório, a realização de eleições presidenciais em até oito meses e a criação de uma nova Constituição.

No entanto, já está claro que a nova Constituição seguirá a lei islâmica, legitimando, portanto, um Estado fundamentalista. Ainda que haja um regime de feições democráticas, o que inclui a alternância de poder por meio de eleições diretas, a seguinte dúvida permanece: o quanto os direitos sociais serão alcançados? Lembrando que, no Irã, há eleições presidenciais, mas garantia nenhuma de cidadania plena para mulheres e homossexuais, por exemplo. Partir de um governo autoritário para uma teocracia não soa, em nenhuma hipótese, um avanço.

Tunísia

Eleições na Tunísia: tudo aponta para o partido islâmico Ennahda estar a frente.

Nove meses após a queda do ex-presidente Zinedine el Abidine Ben Ali, os tunisianos foram às urnas, na primeira eleição livre da Primavera Árabe, neste último domingo. Os eleitores escolheram 217 representantes para uma assembleia encarregada de redigir uma nova constituição e nomear um governo interino, que deve governar o país até as eleições presidenciais.

O partido islâmico Ennahda claramente ocupa uma posição de liderança, elegendo a maior parcela de representadas se comparadas aos demais partidos (em segundo e terceiro lugar, devem vir os partidos de esquerda e de esquerda nacionalista). Tentando amenizar as preocupações secularistas, Ennahda vem declarando seu comprometimento com a democracia e os direitos das mulheres. Não que as democracias liberais do Ocidente tenham garantido tantos avanços, mas é de deixar qualquer um apreensivo a redação de uma constituição com muitas mãos fundamentalistas. Lembrando que a população muçulmana é maioria absoluta na Tunísia: 98%.

Egito

Revolução no Egito: uma revolta popular a caminho de um Estado fundamentalista.

Após a revolução que tirou Hosni Mubarak do poder, em fevereiro deste ano, ainda ficam algumas tensões a respeito do futuro do país. A recente notícia de que egípcio foi condenado a três anos de prisão por insultar islã no Facebook aumenta as dúvidas sobre a transição democrática e mostra que ainda há espaço para medidas alinhadas a um regime autoritário de cunho fundamentalista. Veremos…

Conclusão

A intenção, com esse texto, não é contrapor os regimes ocidentais aos orientais, com o intuito de mostrar “o quão nós somos modernos”. Se adentrarmos na história dos governos islâmicos, veremos que o véu imposto às mulheres, por exemplo, não se trata de uma medida arcaica ou tradicional. Pelo contrário, é bastante recente, sendo uma resposta ao “risco” de ocidentalização do Oriente, isto é, como uma forma de se diferenciar dos regimes ocidentais (SCOTT, 2007).

É curioso notar, entretanto, que revoluções apoiadas por setores populares – se é que todas as mobilizações descritas acima foram realmente de base popular, se é que o CNT tem realmente respaldo popular – nem sempre levam a regimes progressistas do ponto de vista social. Ao invés de nós ficarmos alardeando para esse fato, talvez seja mais interessante entender por que, diante das urnas, o povo elege um partido islâmico a um secular, por que uma república fundamentalista a uma democracia liberal.

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