Contra-sexualidade: começando a pensar sobre esse conceito

O conceito de contra-sexualidade é novo e aparece nos estudos da filósofa e teórica queer Beatriz Preciado. Mas, afinal, o que seria contra-sexualidade? Seria mais uma categoria sexual recentemente criada? Uma identidade?  Mas, se a teoria queer que tanto abalou e desconstruiu as categorias sexuais, estaria propondo uma nova categoria?

É no livro Manifiesto contra-sexual: prácticas subversivas de identidad sexual (2002) que a autora apresenta e explora seu conceito de contra-sexualidade (contra-sexualidad). Segundo Preciado, a contra-sexualidade não é a criação de uma nova natureza, mas o fim da Natureza (já tratada nesse blog) e, consequentemente, com a ordem que legitima um sistema de opressão, de sujeição de uns corpos a outros corpos. Essa Natureza estabeleceria uma verdade única sobre o sexo, ou em outras palavras, existe uma equação construída e normativa em que Natureza é igual à heterossexualidade e, portanto, trata-se de um dispositivo de poder heterocentrado de normatização e proibição.

Manifiesto contra-sexual (2002), onde a autora, Beatriz Preciado, apresenta, entre outros, o conceito de contra-sexualidade.

Além disso, essa Natureza implica no que Judith Butler chamou de a ordem compulsória do sexo/gênero/desejo em Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade (2008); três categorias heteronômicas, isto é, já estão definidas e devem ser impostas aos corpos, trata-se de uma obrigação, de verdades estabelecidas sobre materialidade dos órgãos sexuais, gênero e desejo e interligadas nessa ordem. Mas, ao perceber essa heteronomia é que Butler vai abalar esse sistema, a começar por gênero que, segundo ela, “não é um substantivo, mas tampouco é um conjunto de atributos flutuantes, […] seu efeito substantivo é performativamente produzido e imposto pelas práticas reguladoras da coerência do gênero” (2008, p. 48, grifo da autora).

Logo, por que não falar de performance de gênero ao invés de gênero simplesmente?! Butler mostra que essas identidades de gênero masculino e gênero feminino são tão coercitivas quanto possíveis, são unidades performativas, que são inscritas e mantidas nos corpos e sempre serão vistas como estarem numa ordem das coisas, numa ordem biológica, natural, numa Natureza, quando na verdade existem práticas reguladoras tanto do gênero quanto dos órgãos sexuais e do desejo.

E aí é que a contra-sexualidade, em primeiro lugar, mostra esse contrato social heterocentrado, em que essas performatividades normativas são escritas nos corpos como verdades biológicas, o que vem diretamente das análises de Butler, e analisa criticamente a diferença de gênero e sexo como produto desse contrato social. Em segundo lugar, sugere a troca deste contrato que denominamos Natureza por um contrato contra-sexual e por contrato contra-sexual, devemos entender que nele os corpos não se reconhecem mais como homens ou mulheres, mas como “corpos parlantes”, corpos que podem aceitar tantas sexualidades quanto possíveis, onde não há precisão de categorização e enumeração, práticas significantes, que também possibilitam a todas as posições que a história tem determinado como masculinas, femininas ou perversas. Dessa forma, os corpos se reconhecem como esses descritos “corpos parlantes” e reconhecem aos outros corpos também assim.

O nome contra-sexualidade, nos alerta Preciado, vem indiretamente de Michel Foucault, que tanto analisou os processos de disciplinar os corpos, os sistemas de investigações das sexualidades possíveis, a criação das categorias de identidade sexual, como há uma normatização de uma e como tornarmos patológicas as outras. Consoante a isso, a autora nos diz que para Foucault que resistir a esse processo de disciplinamento estaria muito mais ligado a formas de poder-saber alternativas a sexualidade moderna do que lutar contra a proibição. “As práticas contra-sexuais”, escreve Preciado, “[…] devem ser compreendidas como tecnologias de resistência, ou em outras palavras, como forma de contra-disciplina sexual” (2002, p. 19, tradução minha).

Voltando ao campo que conhecemos como Natureza, condição natural humana etc., campo instituído e mantido, em que a heterossexualidade é normatizada e as outras sexualidades são sempre colocadas no campo da “perversidade”, por tanto se trata de um dispositivo heterocentrado e que por pretender sujeitar corpos a outros corpos, estabelece relações oposicionais como homem/mulher, masculino/feminino, masculinidade/feminilidade, normal/perverso, heterossexualidade/homossexualidade, a contra-sexualidade também seria uma teoria do corpo que se situa fora dessas oposições.

Uma das imagens mais instigantes de Beatriz Preciado, certamente por romper com paradigmas estabelecidos.

A sexualidade é definida, segundo Preciado, na contra-sexualidade, como tecnologia e “os diferentes elementos do sistema sexo/gênero denominados ‘homem’, ‘mulher’, ‘homossexual’, ‘heterossexual’, ‘transexual’, assim como suas práticas e identidades sexuais não são senão máquinas, produtos, instrumentos, aparatos, truques, próteses, redes, aplicações, programas, conexões, fluxos de energia e de informação, interrupção e interruptores, chaves, leis de circulação, fronteiras, constrangimentos, marcas, lógicas, equipamentos, formatos, acidentes, detritos, mecanismos, usos, desvios…” (2002, p. 19, tradução minha), ou seja, são tecnologias outra vez da Natureza, formas de sujeição de corpos a outros corpos e de construção coercitiva de campos, a base de um sistema heterocentrado.

Então, esses são esclarecimentos iniciais para que comecemos a pensar sobre contra-sexualidade, que Beatriz Preciado propôs. Nos próximos textos terminaremos a análise desse termo e falaremos também dos Princípios da sociedade contra-sexual.

2 comentários
  1. Mais uma vez, um belo texto!

    A teoria Queer, não se pode questionar, é bem sofisticada. E vai na raiz de muitas das questões das relações de gênero. Porém, tem algumas coisas na abordagem da Butler e Preciado que me incomodam.

    Apesar de trabalhar com uma teorização muito interessante em “Problemas de Gênero”, a Butler enfatiza demais uma noção de gênero ligada ao corpo. Gênero, para ela, diz respeito essencialmente a identidades, a formas de se entender o corpo. Dado que ela partilha da ideia de que as noções sobre o corpo e gênero são absolutamente históricas, para ela faz completo sentido pensar no gênero enquanto uma performance. Ninguém é, pertence ou se torna homem ou mulher, mas simplesmente performatiza um gênero, possivelmente por meio da expressão de masculinidades e feminilidades, embora ela não explicite o uso desses conceitos. Ela repete essa fórmula quando diz que as travestis copiam o gênero feminino assim como as mulheres o fazem, sendo o gênero uma cópia de uma cópia, da qual nunca se retorna ao original, pois este não existe. Ótimo, porém, dá para darmos outros passos.

    Eu vou na linha da Joan Scott, para quem gênero vai além dos corpos. Gênero está em símbolos que em última análise não tem absoluta relação com corpos ou características reprodutivas dos mesmos. Em muitos casos, não é necessário falar de quais “corpos que importam”. É óbvio que gênero é um conceito que parte dos corpos e de diferenças entre eles. Negar isso é como tentar entender relações raciais sem pensar na cor de pele. Mas uma vez prescrita, o gênero vai além (pense na associação de características empresariais aos homens, ou de docência e enfermagem às mulheres). Não vejo a Butler executando essa passagem. Me corrija, se estiver errado.

    E, veja que manobra clara que você mesmo deixa transparecer no texto. A saída de uma performance de gênero inscrita na “Natureza” é a contra-sexualidade. Isto é, a forma de ruptura tão destacada por Butler e Preciado a uma ordem de gênero disciplinadora, que cria dois pólos (homens x mulheres) tão distintos, são as formas de sexualidades “desviantes”. Perceba: estou querendo subverter gênero fazendo uso da sexualidade. Essa mistura está clara no seguinte trecho: “os corpos não se reconhecem mais como homens ou mulheres, mas como ‘corpos parlantes’, corpos que podem aceitar tantas sexualidades quanto possíveis”. Espera lá! Estamos discutindo gênero (homens, mulheres) ou sexualidades (gay, lésbicas, héteros)? Ainda, estamos discutindo identidades de gênero (trans, travesti)?

    Vejo uma confusão que me aponta para a seguinte ideia. Butler, assim como qualquer outra pós-estruturalista, dentre Preciado, Scott e Nicholson, prevê que devemos romper com a “ordem compulsória” do sexo/gênero/desejo. Não podemos mais aceitar que um gênero seja determinado pelo sexo, ou que determine uma sexualidade. No entanto, qual a forma de ruptura proposta por Butler e Preciado? Fazer uso da sexualidade para subverter gênero. Isso me parece uma contradição: se quero minar a ordem compulsória, por que retomo à associação entre gênero e sexualidade que acabei de denunciar?

    As rupturas de uma travesti, de uma transexual, são óbvias, de tão evidentes. Não há dúvidas de que as lésbicas pervertem muitos aspectos atribuídos às mulheres, bem como os gays em relação aos homens (até porque as masculinidades também estão relacionadas às sexualidades: ser hétero influencia no “ser homem”; não são conceitos isolados). Mas a única saída que vejo Butler e Preciado propondo é essa. Será que não podemos pensar em outras formas de ruptura das identidades de gênero sem fazer uso de uma contra-sexualidade? A maior implicação disso para os estudos de gênero é que discutir gênero está virando cada vez mais sinônimo de discutir sexualidade, por sua vez homossexualidade, por sua vez homossexualidade masculina. E o gênero? Perde seu estatuto? Vira um subproduto da perversão que se dá no campo da sexualidade?

    Enfim, espero que tenha entendido minhas colocações. Essas discussões são riquíssimas e muito atuais. Aguardo sua resposta.

    E aguardo também pelos novos textos sobre contra-sexualidade, ansiosamente.

    Abraços,

    Adriano

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