Resistências à inclusão de gênero nas escolas francesas

Uma polêmica a respeito da adoção dos estudos de gênero nas escolas públicas francesas tem surgido e parece ser de difícil resolução, segundo informa o jornal francês Le Figaro.

A adoção das teorias de gênero nos livros didáticos causou desconforto por setores conservadores da sociedade francesa, sobretudo ligados a associações católicas. Alguns meses atrás, essas entidades enviaram petições de protestos, recomendando as escolas a não escolherem certos livros didáticos e criticaram, dentre outros, um capítulo do programa escolar de Ciências da Vida e da Terra cujo tema era “tornar-se um homem ou mulher”.

Luc Chatel, ministro da Educação da França.

Devido a pressões, o ministro da Educação Luc Chatel solicitou, no início de outubro, ao inspetor geral da educação uma análise do material entre o final deste ano e o início do próximo. Chatel destacou que “se, na França, a escolha do livro é uma liberdade pedagógica do professor, a importância dessa ferramenta e a implementação de programas requerem, naturalmente, a atenção do ministro” (tradução minha).

Ainda no começo deste mês e no tom da mesma mobilização, a filósofa estadunidense Judith Butler, grande nome do feminismo atualmente, ao comparecer à Universidade de Bordeaux-III (Michel-de-Montaigne) para receber o título de doutora Honoris Causa, foi vaiada por grupos de jovens nacionalistas e católicos, de acordo com o jornal Sud-Ouest.

Notícias mais recentes mostram que a reação ao gênero alcançou também os políticos franceses. Recentemente, 193 parlamentares enviaram uma carta a Chatel reivindicando a retirada dos livros didáticos nos quais figuram os estudos de gênero.

Protestos na Universidade de Bordeaux-III contra a gratificação da filósofa de gênero Judith Butler.

Todos esses fatos apontam para uma resistência muito grande à incorporação das temáticas feministas nas escolas. O que é surpreendente, dado que foi da França que importantes nomes do feminismo surgiram, da pioneira Simone de Beauvoir a Lucy Irigaray, passando por Pierre Bourdieu e uma série de outros autores que, se não levantaram diretamente bandeiras feministas, contribuíram com pensamentos que serviram de bases para as teorizações de gênero, como Michel Foucault e Jacques Derrida.

A polêmica, entretanto, não se restringe à França e nos remete às discussões acerca do kit Escola sem Homofobia no Brasil, as quais culminaram na proibição do material, voltado especialmente para a educação da diversidade sexual. Percebe-se que, se o Estado não tiver diretrizes claras e uma agenda política que inclua essas temáticas, qualquer reivindicação torna-se alvo fácil de grupos que pouco estão comprometidos com a justiça social.

No campo educacional, essa atestação se evidencia. A definição de um currículo ou adoção de certos materiais vão muito além de objetivos e metas pedagógicos. Refletem interesses políticos do Estado, que se não estiverem claros, soam pouco fundamentados e, consequentemente, frágeis às resistências que sempre existirão.

1 comentário

Ensaie um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: