Tornando-se homem

Dado que partilhamos da máxima de Simone de Beauvoir para quem “não se nasce mulher, torna-se mulher”, podemos com facilidade estender essa noção para os demais grupos, como homens e meninos. Nesse caso, nosso objetivo seria entender que práticas e processos levariam à construção de uma identidade de gênero masculino, como o gênero seria moldado e re-moldado.

Existe uma narrativa convencional das masculinidades, segundo Raewyn Connell (1995), que explicaria como que uma criança do sexo masculina viria a se tornar, gradativamente, um menino e como este se tornaria homem. É uma estória já bem conhecida no senso comum de todos, mas é válido recapitular.

Nessa narrativa, existe uma definição das condutas e sentimentos apropriados para os homens. Os rapazes são pressionados, por meio das famílias, das escolas, dos grupos de pares, da mídia e dos empregadores, a agir e a sentir de uma determinada forma, distanciando-se dos comportamentos das mulheres, das garotas e da feminilidade que são entendidas como o oposto. A maior parte dos rapazes internaliza essa norma social e adota maneiras e interesses masculinos, tendo como custo a repressão dos sentimentos. Esse custo é alto e mantê-lo é uma tarefa árdua, o que eventualmente pode levar os rapazes a praticar a violência ou à crise pessoal e a dificuldade nas relações com as mulheres.

A ideia da masculinidade como algo único, imposto, individual e doloroso.

Ainda que essa narrativa pareça interessante, – talvez muitos possam se identificar com ela, mais porque ela figura o nosso imaginário da construção de masculinidade – ela é drasticamente incompleta. Por três motivos principais:

Primeiramente, a narrativa convencional adota apenas um modelo de masculinidade e o define como o único. Não faz sentido falar em masculinidades se não estivermos nos referindo às diferentes e até contraditórias formas de ser homem. Há múltiplas masculinidades, as quais são construídas umas em relações às outras. Apenas para fins ilustrativos: existem homens violentos, skinheads, intelectuais, geeks, gays, empresários etc, sem contar nas masculinidades que as próprias mulheres manifestam. Talvez, a narrativa convencional se refira a uma masculinidade hegemônica, mas jamais a única. Na obra The men and the boys (2000), Connell nos apresenta estudos sobre variados tipos de masculinidades.

Em segundo lugar, a narrativa convencional vê o gênero como um molde inicial cuja marca é estampada na criança, como se a construção do masculino se equivalesse a um processo fabril: começa numa ponta e termina na outra. As masculinidades não são nem construídas pontualmente (em apenas uma etapa da vida), tampouco passivamente (é necessário entender que os sujeitos ativamente constroem suas masculinidades, em práticas que também envolvem prazeres).

Desfiles militares: masculinidades que só fazem sentido em um ambiente coletivo.

Por fim, a terceira colocação é que a narrativa convencional apenas enxerga as masculinidades como um projeto individual, sem que seja levado em conta o caráter coletivo das masculinidades. As práticas de um homem, sozinho, podem ser bastante diferentes dos homens organizados em torcidas de futebol, desfiles militares, gangues de moto ou grupos neonazistas. Em outros casos, pode ser muito mais sutil, como a cultura empresarial que é eminentemente masculinizada, embora não faça menções diretas a seu caráter generificado, falando apenas em nome dos indivíduos (ainda que esse reflita sempre o homem branco de classe média dos países centrais).

Uma abordagem aprofundada como a proposta por Connell (1995) demanda uma maior definição de conceitos. Falamos aqui de masculinidades sem, no entanto, defini-la. Acompanhe os textos da categoria “Masculinidades”, com vista de nos adentrarmos cada vez mais no que é o masculino e como as masculinidades são construídas. O senso comum costuma dizer que o universo das mulheres é complicado. Talvez porque, ao silenciarmos sobre o grupo dominante, nunca tenhamos parado para vislumbrar as complexidades que existem nos homens também.

5 comentários
  1. Leandro disse:

    Adriano, vc poderia fazer uma postagem sobre as masculinidades que Connell classificou, acho que no livro The men and the Boys, como a subordinada, marginalizada… são poucos os textos em português que trazem esta definição… obrigado, Leandro.

    • Oi Leandro!

      A Connell faz essa classificação primeiramente no seu livro “Masculinities”. No “The Men and the Boys”, ela aplica os conceitos, mas a conceituação mesmo é feita anteriormente.

      Agradeço pelo seu pedido. É uma ótima sugestão. Posso, sim, escrever sobre isso. Acredito que até o final de semana, já tenho escrito. Acompanhe o blog e aguardo um retorno seu depois.

      Aliás, de onde você conhece a Connell? Estuda masculinidades? Faz pós em gênero?

      Abraços!

  2. Oi, Adriano

    Em primeiro lugar obrigado pelo retorno, que foi quase que imediato!

    Eu sou formado em Educação Fisica, aluno do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRJ à nivel de Mestrado. Está em andamento a minha pesquisa de dissertação em cima dos processos de Inclusão/Exclusão e as questões de gênero no contexto escolar. Pretendo direcionar meu projeto de Doutorado para a temática da construção da(s) identidade(s) masculina(s) por meio da Educação Física escolar e da prática esportiva na escola, por isso meu interesse. Fiz uma pequena pesquisa – um estudo de caso – sobre essa temática, em artigo que possivelmente deverá ser publicado na Revista Estudos Feministas, e constatei pouca coisa traduzida sobre a Connell.

    Desde já agradeço a sua ajuda e interesse.

    Vamos nos falando!

    Um abraço,
    Leandro

    • Olá, Leandro,

      Muito interessante o seu mestrado e a sua ideia de projeto de doutorado. Creio que o segundo tem absolutamente tudo a ver com as produções da Connell. Mas, para quem gosta de ler sobre as masculinidades, como eu, o jeito é ir para as leituras em inglês. No “The Men and The Boys” tem uns exemplos bem legais, incluindo o caso do “Iron Man”. A questão dos esportes, por estar intimamente ligado ao corpo, é central para toda essa discussão. Acredito que o seu doutorado poderá render muitos e bons frutos.

      Quando seu estudo de caso estiver publicado, peço que me envie. Meu e-mail está no “Quem somos nós”.

      A respeito do texto que você me pediu, garanto-o para a próxima semana. Eu ia publicar hoje, mas um amigo já publicou, e a gente tem um acordo de não publicar no mesmo dia, risos. Segunda-feira, vou escrever sobre o conceito de gênero por Joan Scott, sucintamente.

      Espero te ver mais vezes por aqui!

      Abraços!

      • Obrigado, Adriano. Seu Blog é ótimo e já está entre os meus favoritos. Estarei aqui sempre, com certeza. Grande abraço e obrigado mais uma vez pela atenção.🙂

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