Quem sai perdendo no confronto entre PM e estudantes?

O recente confronto entre estudantes e a Polícia Militar (PM) na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP) levanta uma série de questões pertinentes à Universidade e os rumos do Movimento Estudantil.

A primeira diz respeito à atuação da PM no campus. É assustador saber que é a segunda vez na USP, em dois anos, que há um confronto deste naipe, envolvendo bombas de gás lacrimogêneo e pedradas. A PM já frequenta a Cidade Universitária há um bom tempo, mas foi a partir de maio deste ano, com a morte do estudante Felipe Ramos de Paiva após uma tentativa de assalto (na qual houve reação da vítima), o patrulhamento ficou ostensivo. Não houve plano nenhum para o patrulhamento policial, tampouco a PM tem preparo para lidar com civis de um modo geral, e aqueles que estariam lá para “garantir a segurança de todos” tem causado, no fundo, incômodo.

Momento do início do confronto físico entre estudantes e a Polícia Militar na USP, no último dia 27.

No entanto, não quero pautar minha análise entre a dicotomia “fica PM” x “fora PM”, pois acho que este não é o ponto. Embora eu não acredite que a presença da PM no campus faça tanta diferença, a não ser dar uma sensação de segurança para os alunos, não partilho do ponto de vista de que a USP seja uma espécie de consulado, detentora de uma autonomia única e indiscutível.

Gostaria de destacar que em acontecimentos como esse, independente da opinião de um ou de outro, os estudantes, enquanto conjunto, saem perdendo. Recentemente, nós acompanhamos a eleição de uma chapa conservadora, a única de direita, na Universidade de Brasília (UnB), chamada Aliança para Liberdade. Não é uma chapa na qual eu confiaria meu voto, mas acho perfeitamente compreensível sua vitória.

O Movimento Estudantil enfrenta uma crise de legitimidade. Sua representatividade é escassa e portas de diálogo não são abertas com os estudantes; pelo contrário. Ainda, a base do movimento está muito fraca e suas pautas estão extremamente vazias. Em âmbito nacional, vemos a insuficiente campanha dos 10% do PIB para Educação e, na USP, bandeiras como “Fora Rodas” (referência ao reitor João Grandino Rodas) e “Fora PM”. E parece que, a cada passo, o movimento se distancia ainda mais e se torna, de fato, uma representação de uma minoria.

Pois, após o conflito com a PM – que foi extremamente exagerado e houve provocação de ambos os lados (estudantes arremessaram um cavalete de trânsito, mas os PM retiraram ilegalmente as suas identificações porque deviam ter premeditado um confronto físico) – os estudantes decidiram, em uma rápida assembleia, ocupar o prédio de administração da FFLCH. Um ato que, a meu ver, não tem sentido, e ainda com reivindicações inadequadas: a saída do reitor, o fim do convênio com a PM e a proibição de sua entrada em qualquer circunstância, a descriminação das drogas e a retirada de todos os processos administrativos a funcionários e estudantes. Não se constrói nada, nesse caminho, e o movimento reforça seu caráter reativo: protesta contra o que é proposto pelos grupos dominantes, mas não oferece alternativas ou, se oferece, o faz com baixo grau de maturidade e aprofundamento.

Integrantes da chapa Aliança para Liberdade, da UnB, um sintoma do fracasso da articulação da esquerda estudantil.

Essa falta de diálogo assusta qualquer estudante, inclusive aqueles politizados que procuram se mobilizar. Nesse contexto, a vitória de uma chapa de direita – com seu programa pragmático e de tom privatista – é compreensível, diria até que é esperada. A direita vem crescendo também nas eleições da USP. Talvez, por estar fragmentada, não consiga vencer uma eleição. Mas, se reformulada, é possível que supere em votos as diversas outras chapas de esquerda, que muitas vezes servem apenas de aparelho político de partidos e movimentos.

Entra chapa, sai chapa, e a impressão que fica é: “o que mudou?”. Na prática, nada. E justamente por não mudar, insistindo em atitudes radicais e bandeiras dogmáticas, o movimento estudantil tende a ir perdendo cada vez mais seu apoio. Talvez esse fracasso seja um passo importante para que, no futuro, ele retorne com mais força. Talvez.

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