O corpo hetero-partido

O que é um corpo? o que é um sexo?

Poderíamos perguntar para começar a pensar os limites sexuais do corpo: O que é um corpo? O que é um sexo? Quantos são os sexos? Quantos são os gêneros, as categorias sexuais? O que é um pênis, uma vagina?  Se partirmos da hipótese de que os sexos sejam macho e fêmea, onde se encaixa o hermafrodita? Por que não é outorgado a ninguém a possibilidade de portar um órgão sexual diferente do pênis e da vagina? Por que não é possível ter os dois sexos? Por que o hermafrodita tem de escolher entre um sexo? Para considerarmos uma mulher legitima, ela tem de ter vagina, mas por que mesmo assim a transexual operada é criticada e não é considerada uma mulher legítima? Nesta sociedade é possível fazer uma cirurgia de forma que se porte não um pênis nem uma vagina, mas apenas uma forma de canal, de forma que a uretra não se feche, para as necessidades fisiológicas? Por que a conversão do pênis em vagina, vista sob o ponto cientifico e médico, está muito mais avançada do que a conversão da vagina em pênis?

Em Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade (2008), Judith Butler se questiona e nos questiona: “E o que é, afinal? o “sexo”? É ele natural, anatômico, cromossômico ou hormonal […]? Teria o sexo uma história? Possuiria cada sexo uma história ou histórias diferentes?” (p. 25) e mais adiante “Como e onde ocorre a construção do gênero?” (p. 26). Para a autora, o corpo não é um meio passivo por onde age uma cultura, a velha dicotomia sexo x gênero, ele é em si uma construção, o corpo é um texto socialmente construído, e os órgãos sexuais tais quais conhecemos também o são.

Dos textos Contra-sexualidade: começando a pensar sobre esse conceito e Contra-sexualidade: no principio era… vimos que existe uma equação em que Natureza é igual a heterossexualidade e que o próprio corpo é em si fragmentado e divido onde vamos priorizar zonas de alta intensidade sensitiva, motriz, reprodutiva, e depois vamos identificá-los como centro naturais e anatômicos de uma diferença sexual. Ao continuar a analisar essa construção dos corpos é que Beatriz Preciado (2002, p.22) nos esclarece que o sexo não é, como órgão e prática, um lugar biológico nem um impulso natural; “o sexo”, ela escreve, “é uma tecnologia de dominação heterosocial que reduz o corpo a zonas erógenas [zonas de excitação] em função de uma distribuição assimétrica do poder entre os gêneros (feminino/masculino), fazendo coincidir certos afetos com determinados órgãos, certas sensações com determinadas reações anatômicas”.

A redução a essas zonas erógenas, que vamos justamente determinar de pênis ou vagina e manter essas duas verdades materiais sobre a anatomia dos sexos, vamos denominar como órgãos sexuais,é  que, fazendo intertextualidade com Butler, vamos perceber que o próprio sexo é heteronômico, ou seja, existe uma norma sobre sua materialidade e sobre sua “naturalidade”, ele emana (ou deveria emanar) naturalmente dos corpos. O hermafrodita nesse cenário nunca ficará com seus dois sexos, ou com sua materialidade que necessariamente não está definida nesses “dois sexos”, mesmo que em alguns não haja possibilidade de procriação, é preciso sexualizá-los, é preciso definir um pênis ou uma vagina, mas de forma que depois de definidos (e o mesmo acontece com as cirurgias para conversão do pênis em vagina e vice-versa), assumindo uma posição de homem ou mulher, sejam heterossexuais; reprodutivos ou não, mas heterossexuais. Daí, a autora também esclarece que é o sexo quem (re)constrói toda a totalidade do corpo, não é um outro órgão, como o nariz, a língua, mas o que denominamos como órgão sexual, é como se somente como humano sexuado que uma pessoa pudesse possuir sentimento, dignidade; o corpo sem sexo seria (e é, nesta relação de poder) monstruoso.

O fato é que voltamos a Natureza, onde um corpo se sujeita a outro nesse sistema heterocentrado, onde também por causa de uma série de tecnologias como o sexo, a redução dos corpos, significação sexual, estamos obrigados a assinar este contrato social, assumindo as enunciações de masculino, feminino ou, se resistirmos a heteronormatividade, de “perverso”. Nesse sentido, se o próprio sexo é uma tecnologia de dominação hetesocial, as funções e as práticas sexuais também são, uma vez que atribuídas naturalmente ao gênero masculino e ao gênero feminino, elas são na verdade práticas reguladoras que garantem justamente a exploração material de um sexo sobre o outro.

A diferença sexual assim como a própria validação do que seja realmente um órgão sexual são formas de poder inscritas no corpos, onde para as duas verdades únicas significantes, a mulher se submete ao homem.

Enfim, é do corpo hetero-partido que nasce a diferença sexual, onde não é possível a simetria. Para Preciado (2002) esse processo da criação da diferença sexual se dá através de uma operação tecnológica de redução, extraindo determinadas partes de todo o corpo e isolando-as para torná-las significantes sexuais, as verdades da materialidade anatômica sexual, o pênis e a vagina, onde o ânus não entra nesse jogo, aliás, é o primeiro órgão a ser retirado do campo social, tornando-se um órgão não-sexual.  O homem e a mulher não seriam mais que construções metonímicas desse sistema heterossexual de produção e reprodução, onde fica autorizado a submissão da mulher como força de trabalho sexual e também como meio de reprodução. Logo é dessa relação que o pênis sai privilegiado, ele se torna o único centro mecânico de produção do impulso sexual.

E é assim que damos um passo no que primeiro propõe a contra-sexualidade: a análise critica da diferença de sexo e gênero (embora aqui façamos apenas do sexo), produto de um contrato social heterocentrado, a Natureza, e que são inscritos nos corpos como verdades biológicas.

2 comentários
  1. marinho disse:

    Nem sempre a mulher se submete ao homem. Ainda mais nos dias de hoje.

  2. Nayara disse:

    nao é porque estejamos nos “dias de hoje” que significa que nós mulheres nao sejamos muito bem colonizadas pelo patriarcado ou submetidas ao homem. há muito o que se desconstruir nos nossos corpos, mentes, sexos… gostei muito lucas do teu texto. nunca tinha lido algo do tipo °séries de tecnologias° quando trata dessas categorias relacionadas ao sexo… vou ler mais sobre! um abraco!

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