Gênero enquanto categoria analítica

Historiadora norte-americana, estudiosa das lutas operárias e feministas da França, especialmente no século XIX, Joan Scott argumenta, em seu clássico artigo Gênero: uma categoria útil de análise histórica (1995), datado originalmente de 1985, que embora a postura descritiva de gênero tenha inaugurada uma história das mulheres, pouco alterou os conceitos dominantes da disciplina, conforme comentamos em texto anterior.

A historiadora Joan Scott (1941-), autora de um clássico artigo para entender o gênero enquanto uma categoria analítica.

Um dos grandes problemas para essa incorporação é a persistência do gênero em ser entendido como imutável, a-histórico e, no limite, “natural”, partindo-se do pressuposto de que os homens sempre dominaram as mulheres, nos diferentes espaços e tempos. Entre as abordagens atuais que caminham nesse sentido, existem duas principais: a postura naturalizante, assentadas em explicações biológicas (dentre o determinismo biológico), e a postura essencializante que, embora assuma a construção social do gênero, enfatiza em demasia as constâncias e permanências (CARVALHO, 2011).

O corpo como uma construção social

A grande sacada de Scott (1995) foi evidenciar que não se pode compreender o corpo fora da cultura, pois nenhuma experiência corporal existe fora dos processos sociais e históricos de construção de significados. Fato é que diversos domínios da vida social – a infância, a família e a sexualidade são alguns exemplos – tem sido associados à natureza e retirados da ação humana, bem como tratados como se fossem únicos, no singular. O esforço de Scott e de outras teóricas tem sido justamente de tomar o sentido oposto: desnaturalizar esses domínios.

Ainda, a autora retoma as ideias de Michel Foucault e afirma que

“Gênero é a organização social da diferença sexual percebida. O que não significa que gênero reflita ou implemente diferenças físicas e naturais entre homens e mulheres, mas sim que gênero é o saber que estabelece significados para as diferenças corporais.” (SCOTT, 1994, p. 13)

Uma vez que gênero é um saber e, entendendo que saber e poder nunca estão dissociados, gênero tem um sentido eminentemente político. Nesse ponto, chegamos à definição mais precisa da autora: (1) gênero é construído sobre a base da percepção da diferença sexual e (2) gênero é uma forma primária de dar sentido às relações de poder (SCOTT, 1995).

Gênero enquanto um sistema de relações de poder organizado em torno da percepção das diferenças sexuais.

Dizer que gênero está baseado em diferenças corporais não é recair na dicotomia sexo x gênero. Para Scott (1995), o gênero não é uma mera decorrência dos corpos, mas parte das diferenças que nós percebemos e, ao percebê-las, hierarquizamos. Pensar relações de gênero sem discutir o corpo é como pensar relações raciais sem discutir a cor de pele. Se perdermos o referencial no corpo, por mais variável que esse corpo seja, criamos um conceito frouxo, inespecífico, o qual poderia ser utilizado para qualquer relação de poder.

Do mesmo modo, enfatizamos que essas diferenças precisam ser percebidas e significadas. São diferenças que vêm à tona por se desenvolverem em desigualdades. Por que não paramos para discutir os diferentes formatos de dedos ou tamanhos da cavidade pulmonar? Porque não são diferenças que se exprimam em relações desiguais de poder. Gênero só adquire seu estatuto ao partir dessas desigualdades. Consequentemente, são apenas algumas partes do corpo que são evidenciadas na construção do gênero.

No rosado quarto acima, vê-se que não é necessário haver sequer uma pessoa para que o caráter generificado das relações sociais apareça.

Além disso, autoras como Scott permitiram que novos caminhos fossem abertos ao se entender gênero, pois esta categoria não se resume a homens e mulheres. Três elementos ou planos de análise surgem: (1) gênero é uma categoria fundamental por meio da qual se atribui sentido a tudo (azul é masculino e rosa, feminino); (2) gênero é uma maneira de organizar as relações sociais (roupas, profissões e até banheiros separados por sexo) e (3) gênero é também uma estrutura de identidade pessoal (meninos, homens, meninas, mulheres) (CARVALHO, 2011).

O pulo do gato de toda essa contribuição, riquíssima para quebrarmos diversos paradigmas, foi transformar homens e mulheres em perguntas, ao invés de serem tomados como categorias fixas. Da mesma forma, o corpo não é mais uma constante, e sim uma variável. Essas implicações da abordagem analítica inaugurada por Joan Scott serão trabalhadas nos próximos textos. O primeiro passo já está dado: não podemos utilizar gênero apenas para descrever as relações que enxergamos, mas transcender, adotando outro referencial que nos permita esmiuçar as desigualdades e os significados construídos sobre esse universo complexo do masculino e feminino.

4 comentários
  1. Hérica disse:

    Gente, muito legal o blog de vocês, está me ajudando muito com meus trabalhos acadêmicos. Mas seria interessante se ao final de cada post vocês colocassem as referências, isso nos ajudaria na busca da biografia.

    • Oi Hérica,
      Obrigado pela mensagem. Todas as referências bilbiográficas estão disponíveis na aba Bibliografia, localizada acima da foto de capa. Lá colocamos tudo que citamos no blog.
      Abraços!

  2. Hérica disse:

    bibliografia, desculpe.

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