Ensino, uma atividade relacional

O retrato da educação tem sido frequentemente veiculado à imagem de uma atividade essencialmente intelectual, na qual a formação de professores ganha uma enorme importância. Pouco se fala, no entanto, da dimensão emotiva e relacional do ensino. Torna-se comum a descrição de uma escola composta de “classes enfadonhas, em que atividades reduzidas a rotinas levam a um vazio emocional, a uma sucessão mecânica de atos sem significado para os sujeitos envolvidos”, segundo Marília Carvalho (1999, p. 17), em artigo homônimo a este texto.

O que constitui um grave engano, pois o ensino é um trabalho que envolve relações pessoais. Tanto os alunos quanto os professores estão lá por inteiro, são todos sujeitos interagindo entre si. Preocupar-se com questões afetivas resultantes dessas relações (professor-aluno; aluno-escola; entre os próprios alunos) é ignorar uma dimensão que, para além de ser um “algo a mais”, é o que possibilita o próprio trabalho docente (CONNELL, 1985).

O trabalho docente é indissociável de uma relação entre educador e educando, seja para que lado este envolvimento se dará.

Ao defendermos que esse caráter relacional é protagonista, não estamos falando de professores ou professoras militantes, assistencialistas ou missionários, dispostos a dedicarem-se 24 horas por dia para mudar a realidade social do aluno, interferir na vida pessoal da classe e compartilhar questões familiares com o ofício docente. Não é preciso ir tão longe, basta pensarmos na sensação de esgotamento ou prazer que atinge os docentes no fim do dia, a sensação de culpa ou receio que recai na hora das grandes decisões, o uso de descontração ou, do contrário, o distanciamento, como instrumento pedagógico.

Tudo isso remete à noção de cuidado. Se nos pautarmos pela dicotomia entre educação e cuidado, teríamos que definir até que ponto a escola é responsável pela educação (conteúdo? aprendizagem? avaliações?) ou pelo cuidado (interações? relacionamentos? assistência?). Especialista em educação infantil, Lenira Haddad (2006) defende que educação e cuidado não podem estar separados, mesmo para o ensino fundamental e médio. Esse ponto de vista não é recente, pelo contrário, está amparado em trabalhos de importantes estudiosos da educação do século XIX-XX, dentre Maria Montessori e Henri Wallon.

No entanto, parece que a dimensão relacional do ensino tem perdido terreno em um tempo no qual a educação é vista quase que sob uma lógica empresarial, pautada pelos resultados nas avaliações externas, métodos e apostilas didáticas e inclusive pela escolarização do ensino infantil; a tendência é tratar como futilidade a construção de uma relação de confiança e afeto entre o educador e o educando, na medida em que esta não refletiria em resultados estatísticos.

A dimensão emotiva, relacional, afetiva do ensino não é um "algo a mais"; é a própria base sobre a qual o processo de ensino-aprendizagem se constroi.

Envolver-se ou não com os alunos não se trata, portanto, de uma escolha. A variável é em que grau e de que forma esse envolvimento se dará. Há desde aquela “professora sensível” às necessidades dos alunos, quanto aquele “professor autoritário” que procura manter a frieza e seriedade, para fazer uso de imagens do senso comum. Ambas as atitudes, as quais representam os pólos de uma situação que é muito mais matizada, demandam um custo emocional.

É por isso que dizemos que o ensino é muito mais uma atividade relacional a uma prática racional. O que não significa que um “professor autoritário” não consiga ensinar. Mesmo que fria, é muito provável que uma relação ao menos de confiança tenha sido criada. Caso contrário, veremos professores bem formados em situação caótica na sala de aula ou classes que se comportam de uma maneira diante de um docente e de forma oposta diante de outro. Se alguma relação não é construída entre as partes, o processo de ensino-aprendizagem não se viabilizará.

2 comentários
  1. Bela análise, Adriano. Preocupo-me por demais com essa relação professor/aluno. Tento construir um canal direto não só para discutirmos o conteúdo em si, mas para analisarmos o cotidiano como um todo. Nem sempre é fácil e em alguns casos quase impossível. Mas não vejo caminho melhor.

  2. Oi Ítalo,

    Obrigado pelo comentário. É muito bom receber o respaldo de um professor experiente. Espero que, quando eu me tornar professor, possa colocar em prática esses pontos, e valorizar o caráter relacional do ensino.

    Abraços,

    Adriano

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