Os artigos 4, 5 e 6 da sociedade contra-sexual

Vamos continuar a exposição dos princípios da sociedade contra-sexual, proposta pela teórica queer Beatriz Preciado em seu Manifiesto contra-sexual: prácticas subversivas de idenditad sexual (2002). Mas antes vamos fazer algumas considerações, principalmente baseadas no artigo Por um feminismo queer: Beatriz Preciado e a pornografia como pre-textos (2008) de Salomé Coelho.

De textos anteriores nesse blog sobre contra-sexualidade vem que: (i) os órgãos sexuais assim como as práticas sexuais são na verdade já o produto de uma tecnologia que constrói socialmente o corpo; (ii) se estes órgãos sexuais são também resultado de um processo em que certas partes se destacam e outras não, então é preciso sexualizar todo o corpo e distanciar-se de uma prática heteronormativa; (iii) nesse deslocamento, tantas práticas significantes aparecem para desconstruir uma máquina da produção dos corpos: é a masturbação dos braços, das pernas, do pescoço, dos dedos, do nariz, dos peitos, é o uso do dildo, o ânus como centro contra-sexual do prazer, os homens sem pênis, as mulheres sem vagina, as pessoas sem um sexo anatômico tal qual conhecemos, são as mulheres de barba, os homens sem pêlos, o uso a um nome que desfaz as marcas de gênero e tantas outras.

As zonas orgásticas são a redução a zonas sexuais como resultado de definições disciplinárias dos supostos órgãos sexuais.

Nesse sentido o Artigo 4 da sociedade contra-sexual valoriza, conforme a autora, a re-significação sexual de todo corpo, mas esta re-significação trata-se de um processo que se faz com um introdução gradual de determinadas políticas contra-sexuais. Em primeiro lugar, temos que universalizar as práticas que foram estereotipadas como abjetas no sistema heterocentrado, uma vez que se eu quero minar o que é normativo eu começo pelo o que esse sistema desviou para um campo “perverso”, temos então de falar de multidões queer (COELHO, 2008), uma multidão de corpos desviantes, fora do padrão, de partes que foram excluídas no sistema heterocentrado, partes que foram ocultadas, de um corpo que não é nosso, mas que podemos reivindicá-lo, desfazendo o sistema de escritura que inscreve em nós o sistema sexo/gênero/desejo. Em segundo lugar: para essa universalização será necessário equipes de investigação contra-sexuais que ao mesmo tempo possam encontrar e propor novas formas de sensibilidade e de afeto.

Umas das práticas contra-sexuais sugeridas por Beatriz Preciado, provocando o orgasmo no dildo-cabeça.

Dessa forma, as práticas contra-sexuais que terão que ser postas socialmente em práticas para que o sistema contra-sexual tenha efeito são: (i) resexualização do ânus como centro contra-sexual universal, já que o ânus é um dos primeiros órgãos a ser retirado do campo social; (ii) é preciso difundir, distribuir e por em prática a circulação das práticas subversivas onde se re-significa também a masculinidade e a feminilidade naturalizadas no âmbito do sistema heterocentrado. Consoante a esse sistema heterocentrado, o processo de desconstrução do pênis como centro de poder requer um imenso trabalho de re-significação, então o dildo e todas as suas variações sintáticas e semânticas serão utilizadas pelos sujeitos “parlantes”; (iii) também será preciso parodiar e simular os efeitos associados ao orgasmo, para assim subverter e transformar uma reação natural ideologicamente construída, onde pênis e vagina são transformados em centros orgásticos, de fácil acesso ao homem, porém de difícil na mulher. Na sociedade contra-sexual, analisa-se o orgasmo como um efeito de “produção-repressão heteronormativa que fragmenta o corpo e localiza o prazer” (PRECIADO, 2002, p. 31, tradução minha), e na busca dessa desconstrução de poder ele será parodiado em outras partes do corpo, descentralizando dos órgãos sexuais.

O Artigo 5 estabelece que toda relação contra-sexual será o resultado de um contrato consensualmente firmado por todos os participantes, de forma que as relações sexuais sem contrato serão consideradas violações e, ademais, “a relação contra-sexual”, escreve Preciado (2002, p. 32, tradução minha), “será válida e efetiva por um período de temo limitado (contrato temporal) que nunca poderá corresponder a vida toda dos corpos ou sujeitos […] A relação contra-sexual se funda na equivalência e não na igualdade”. Assim fica firmado todo um processo de práticas subversivas, isto é, práticas contra-sexuais, mas de forma que nunca seja provocadas relações de poder assimétricas e naturalizadas. Já pelo Artigo 6, a sociedade contra-sexual declara e exige a separação absoluta das atividades sexuais e das atividades de reprodução, assim nenhum contrato contra-sexual direcionará para o ato da reprodução. Porém, fica claro que todo corpo recém nascido também terá uma educação contra-sexual.

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