O parodoxo da representação política das mulheres

No pensamento liberal, predominante em sociedades democráticas burguesas como a nossa, existe a noção de um sujeito social que é universal, livre e autônomo, de acordo com Silvana Mariano (2005). Isto é, as leis prescrevem uma igualdade, na qual todos os indivíduos são iguais, e impera a visão de uma universalidade: o que é vale para um, vale para todos. Não por menos, políticas que enfocam nas diferenças, como a implantação de um sistema de cotas raciais ou um dia internacional da mulher, são frequentemente atacadas por supostamente ferirem essa igualdade.

Apesar de existir no ideário liberal, a noção de universalidade não encontra completo respaldo na sociedade. Caso contrário, não estaríamos criticando as desigualdades sociais que, no bojo das teorias marxistas, evidenciam que os sujeitos possuem uma classe social como seu fundamento. Ainda, a própria ideia de um indivíduo universal é criticada, em célebre obra publicada originalmente em 1949, por Simone de Beauvoir (2002), para quem o universal é sempre um universo masculino.

Famoso slogan do feminismo: a mulher da ilustração é realmente um ícone da identidade feminina?

Fica evidenciado, então, que o sujeito do liberalismo não há de ser universal, a não ser por um esforço imenso de silenciar todas as diferenças que existem nos múltiplos sujeitos presentes na sociedade. Porém, ao dar esse passo, novos questionamentos surgem: se não podemos falar de um sujeito universal para todos os indivíduos da sociedade, será que poderíamos falar de uma “mulher” que se aplique a todas as mulheres?

O problema é relevante, pois está no âmago do movimento feminista. Não seria um paradoxo evidenciar as desigualdades entre homens e mulheres e, ao mesmo tempo, ocultar as desigualdades dentro da categoria “mulheres”? A historiadora norte-americana Joan Scott (2002) chama a atenção para esse paradoxo, ao defender que a necessidade de organização política das mulheres demanda uma identidade feminina, para fortalecer e unificar sua busca pela igualdade. Por outro lado, essa luta pela igualdade implica na demarcação de uma diferença.

Nas palavras da autora, o “feminismo era um projeto contra a exclusão política da mulher: seu objetivo era eliminar as ‘diferenças sexuais’ na política, mas a reivindicação tinha de ser feita em nome das ‘mulheres’ (um produto do próprio discurso da ‘diferença sexual’). Na medida em que o feminismo defendia as ‘mulheres’, acabava por alimentar a ‘diferença sexual’ que procurava eliminar” (SCOTT, 2002, p. 27).

Será que todas as mulheres sentem-se representadas pela identidade feminina que o movimento feminista reforça?

A filósofa estadunidense Judith Butler (2010) destaca que o paradoxo da representação política das mulheres reside sobre outro ponto: para a mulher se fazer representar, ela deve se sujeitar a um movimento que se constrói sobre uma identidade da “mulher”, que não necessariamente é a identidade de cada mulher que se engaja no movimento.

Para a filósofa, a crítica feminista deve se esforçar também para compreender como “a categoria das ‘mulheres’, o sujeito do feminismo, é produzida e reprimida pelas mesmas estruturas de poder por intermédio das quais busca-se a emancipação” (BUTLER, 2010, p. 19). Dessa citação, deriva-se a ideia de que as mulheres são “produzidas” e “reprimidas” pela mesma estrutura que possibilita sua agenda de lutas políticas, ou seja, o movimento feminista.

Ambas as interpretações acima derivam do pensamento de Michel Foucault. Segundo a lógica foucaultiana, os sujeitos são produzidos pelos discursos que buscam os representar. Logo, a reiteração de uma “mulher”, por parte do feminismo, investe na criação de um discurso, uma ideia e uma noção a respeito da “mulher”.

Os paradoxos da representação política de mulheres, negros e operários reforça a necessidade de se compreender essas diferenças na agenda de lutas sociais.

Ainda que os movimentos sociais – sejam eles feministas, negros ou operários – obtiveram uma série de avanços, é o momento de se reconhecer que os avanços podem não ter vindo para todos e todas que neles participaram ou creditaram suas esperanças. Um exercício de desconstrução da ideia de uma “mulher”, de um “negro” ou de um “trabalhador”, talvez seja necessário, em vista de se ampliar a luta contra as desigualdades. Porém, é importante reconhecer que tal exercício demandaria um esforço analítico imenso.

Em um primeiro momento, é válido nos adentrarmos nos debates a respeito da igualdade e da diferença. Será impossível haver igualdade sem que haja eliminação das diferenças? Ou será que é possível haver diferenças sem que elas se tornem desigualdades? Esses questionamentos ficarão para um próximo texto.

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