As tecnologias (hetero)sexuais: algumas considerações sobre as mesas de operações performativas

Quem são os transexuais e os intersexuais para o sistema heterocentrado? As cirurgias de mudança de sexo já foram pensadas a partir de uma dinâmica da tecnologia (hetero)sexual? O sexo também é performativo? Poderíamos dizer que a primeira designação do sexo é uma invocação performativa? O que há por trás de uma mesa de nascimento? Seria realmente uma cirurgia para haver concordância entre sexo, gênero?

O bebê recém-nascido ou ainda na barriga da mãe é invocado performativamente para sua designação sexual: "É um menino!" ou "é uma menina!"

Essas são questões que procuraremos abordar nesse texto, baseado, como sempre, no livro Manifiseto contra-sexual: prácticas subversivas de identidad (2002), da autora Beatriz Preciado. Em primeiro lugar, a mesa cirúrgica do nascimento não é simplesmente onde se nasce um bebê, para além disso ela é uma tecnologia (hetero)sexal onde acontece a primeira designação/atribuição do sexo, a primeira fragmentação do corpo, tratando-se de uma invocação performativa, que nenhum de nós deixamos de passar por essa interpelação, isto é, diz-se nessa mesa de operações performativas:  “é uma menina!” ou “é um menino!”.

Obviamente que esse processo pode ser adiantado, por exemplo, com a ultra-sonografia, mas em todo caso o que o ideal científico pretende coincidir é justamente o nascimento com a designação sexual e ademais sem ambigüidade alguma, ou seja, ou nasce um menino ou uma menina, tal como as definições heterocentradas. Este processo não se detém aí: “Seus efeitos”, escreve Preciado (2002, p. 105, tradução minha), “delimitam os órgãos e suas funções, sua utilização ‘normal’ ou ‘perversa’” e também por trás dessa designação do sexo, há também um designação sexual, ou seja, por trás do “é um menino!” e “é uma menina!” há também uma heteronormatividade condicionando um desejo único.

Mas e o corpo intersexual e o transexual? Onde ficam nesse processo de designação/atribuição do sexo? Para a autora deveríamos nos perguntar até quando as cirurgias para a mudança de sexo não são na verdade tecnologias médicas de censura sexual, isto é, esse “recorte” do corpo não seria também uma forma de adequar um corpo a uma lógica heterossexual? Se no nascimento há uma primeira designação/atribuição do sexo, então no caso das cirurgias transexuais eles retornam novamente a uma mesa de operações performativas, onde uma mudança de denominação e incoerência de gênero, exige um recorte físico do corpo, mas é justamente nessa cirurgia de mudança de sexo que ocorre uma segunda designação do sexo, uma re-designação. Esta re-designação situa o corpo em uma nova ordem de classificação e re-desenha literalmente os órgãos sem deixar é claro que o novo recém-nascido apresente ambigüidade; assim o corpo recortado e re-designado tem de ser tão heterossexual quanto na primeira designação.

Agora, se tratando dos corpos intersexuais, Preciado (2002, p. 106, tradução minha) escreve: “Os chamados corpos ‘intersexuais’ comprometem o trabalho mecânico da mesa de designação dos sexos, minam secretamente a regra segundo a qual a máquina sexual produz e reproduz os corpos”. O que a autora coloca em questão é que um corpo onde os limites do sexo se desfazem (não é homem, nem mulher) coloca em choque a mesa de operações performativas, por exemplo, no nascimento do bebê intersexual não é possível dizer “é um menino!” ou “é uma menina!”, tornando-se impossível designar/atribuir um sexo, além disso, se um corpo nasce sem sexo, onde fica a ordem compulsória do sexo/gênero/desejo? Como denominar o bebê intersexual? É um homem? Uma mulher? Que nome dar para ele? Desse modo, os intersexuais alteram uma fronteira que impõe uma diferença entre os corpos e uma certa identidade, pondo também clareza a lógica que somente o corpo sexuado faz sentido, é como dizer: “Se você tem um pênis ou uma vagina então você é humano!”. É órgão sexual a zona generativa do todo o resto do corpo, qualquer outro órgão é meramente periférico, não é através de um nariz, de uma boca, de um dedo, que todo o corpo se reconstrói, é através de um sexo definido.

Na cirurgia da mudança do sexo masculino para o feminino, o próprio pênis se converte em vagina, tratando-se mais bem de uma transformação, uma "invaginação". Mas já no contrário a vagina não se converte tão facilmente em pênis, é preciso buscar, como enxertos, outras partes do corpo e passar por muitas cirurgias complexas. Esse fato seria apenas uma impossibilidade científica?

Consoante a isso, vamos ver desde a década de 80 cirurgias da mudança do sexo masculino para o feminino, a vaginoplastia, onde se busca obsessivamente uma vagina através do pênis dado, não se tratando de uma cirurgia da construção dos órgãos femininos, mas sim a cirurgia que permite transformar um pênis numa vagina, como nos esclarece Salomé Coelho em Por um feminismo queer: Beatriz Preciado e a pornografia como pre-textos (2009), ocorrendo então o que Preciado chama de invaginação. Nesse sentido, esse processo de invaginação reforça a visão médica desde o século XVIII onde o corpo da mulher é o inverso do homem (tal como podemos ver essas análises na A Dominação Masculina de Pierre Bourdieu, em algumas partes de O Segundo Sexo de Simone de Beauvoir) ou que o a biologia feminina seria a biologia do masculino só que não desenvolvida (SALOMÉ, 2009), assim basta encontrar uma vagina que está no interior de um pênis.

Mas, se o pênis se converte em vagina, a vagina se converte em pênis? É claro que o mesmo não acontece; a cirurgia da mudança do sexo feminino para o masculino, a faloplastia, não se trata de uma conversão da vagina em pênis. No discurso médico, a reconstrução cirúrgica do pênis se dá com a ajuda de um enxerto de outra parte que provem do mesmo corpo, o antebraço ou a coxa, necessitando de, pelo menos, quatro intervenções cirúrgicas complexas.

O corpo intersexual desestabiliza a ordem sexual hegemônica, bem como as concepções de diferença e identidade sexual, por isso são catalogados como "subdesenvolvidos", "mal-formados", "inacabados", etc.

Para os corpos intersexuais, as tecnologias médicas também foram postas em marcha e os intersexos vão responder a mesma lógica que se utiliza nas cirurgias transexuais. Preciado (2002, p. 106, tradução minha) escreve que diante “de uma incompletude […] ou um excesso […] a mesa de designação do sexo vai funcionar novamente, mas dessa vez como uma verdadeira […] mesa de operações […], por meio de implantações, enxertos, mutilações que podem acontecer até a adolescência”. Dessa forma, assim como nos esclarece Salomé (2009) ao lado do “perigoso” e “ameaçador” corpo intersexual que desequilibra uma ordem sexual hegemônica, os corpos e órgãos intersexuais são categorizados como “subdesenvolvidos”, “mal-formados”, “inacabados”, mas nunca como verdadeiros órgãos sexuais, precisando de uma série de desenhos e recortes corporais para que assumam no final um pênis ou uma vagina, verdades exclusivas e que excluem. Os métodos cirúrgicos dos bebês intersexuais se baseiam completamente nas teorias de John Money, professor de pscopediatria do Hospital universitário John Hopkins de Nova Iorque, onde se faz uma análise cromossômica e estética.

Bem, falaremos sobre o modelo de Money no próximo texto e depois, no texto posterior, sobre os artigos 7 e 8 da sociedade contra-sexual, que necessitam dessas análises antes, mas o que cabe ressaltar aqui: as tecnologias (hetero)sexuais de designação do sexo, as invocações performativas, em que se baseiam as cirurgias transexuais, o que os intersexuais representam nesse sistema heterocentrado.

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