O modelo de John Money: entre o cromossômico e o estético

O método mais usado para definir o sexo de um corpo intersexual vem da teoria de John Money (professor de psicopediatria do hospital universitário John Hopkins de Nova Iorque), um modelo de definição, que segundo Beatriz Preciado em seu Manifiesto contra-sexual: prácticas subversivas de identidad (2002), poderíamos chamar de Moneísmo (Moneysmo) e que com seu êxito desde quase cinqüenta anos não levantou nenhuma reação crítica no seio da comunidade científica.

As teorias de John Money (1921 - 2006) foram bastante usadas (e ainda são atualmente) para a designação do sexo nos corpos intersexuais.

O médico, designador sexual, deve estar atento as seguintes definições: (i) XX, segundo a medicina atual, é geneticamente feminino; (ii) XY, na mesma concepção medicinal, é geneticamente masculino; (ii) clito-pênis (clito-pene): pequeno órgão semelhante ao clitóris, mas com o potencial de ser convertido em pênis; (iv) micro-pênis (micro-pene): pequeno pênis, porém bem formado; (v) micro-falo: pequeno pênis mal formado de difícil reconhecimento com pênis, mas que não deve ser confundido com um clitóris; (vi) pênis-clitóris (pene-clitóris): grande clitóris, mas que não deve ser confundido com um pequeno pênis. Uma consideração geral que podemos fazer também sobre os corpos que são visualmente reconhecidos como intersexuais é que as cirurgias por uma definição dos dois sexos, são um série longa de operações genitais que duram até a pré-adolescência.

Se o recém nascido, depois da análise cromossômica, é considerado geneticamente feminino (XX), é feita uma intervenção cirúrgica para minar os tecidos genitais que podem sem confundidos com um pênis, assim a reconstrução da vulva, juntamente com a redução do clitóris, começa, geralmente aos três meses. Mas, se o órgão visível se assemelha a um pênis-clitóris, então esta operação implica, na maioria dos casos, a mutilação do clitóris. A reconstrução se completa, mais tarde, com uma operação de formação do canal vaginal, que é heterossexualmente definido, ou seja, a abertura de um orifício que será capaz de receber no futuro um pênis durante o coito. Nos casos que esse canal vaginal não se encontra longe do seu lugar habitual, a vaginoplastia é realizada entre as idades de um e quatro anos. Assim, geralmente, o canal vaginal se completa definitivamente quando o crescimento se finaliza, depois de uma feminização do corpo na puberdade, hormonalmente provocada com a ajuda de estrógenos.

Segundo o moneísmo, o bebê cromossomicamente feminino (XX) sem apresentar um pênis de "tamanho normal" e "bem formado", seria submetido a uma cirurgia inicial da reconstrução da vulva (junto com a redução do clitóris) e mais tarde uma operação para formação do "canal vaginal".

O que é interessante analisar nesta construção vaginal nas meninas intersexuais é que não estão simplesmente relacionados com a produção de um órgão, Preciado (2002, p. 109, tradução minha) escreve que: “Se dirigem sobre tudo a prescrição das práticas sexuais, uma vez que a vagina é definida única e exclusivamente como aquele orifício que pode receber um pênis adulto”. O que ilumina a afirmação que ela cita de Monique Wittig, que pensada dentro das normas heterossexuais da construção do corpo as lésbicas não teriam vagina, na verdade, a lésbica deveria adequar seu corpo, já que agora seu desejo corresponde, o que é pensando dentro da heterormatividade, o de um homem por uma mulher, assim a transformação radical das atividades sexuais exigiria uma mutação do órgão sexual e a produção de uma nova ordem anatômica e política.

Agora, se o recém nascido intersexual dispõe de uma configuração cromossômica onde tenha ao menos um cromossomo Y, então esse recém nascido será considerado como geneticamente masculino. “Neste caso”, escreve Preciado (2002, p. 110, tradução minha), “o problema consiste em saber se o chamado ‘tecido fálico’ é suscetível ou não de re-acionar positivamente a um tratamento hormonal a base de andrógenos que aumente o tamanho do micro-falo ou do micro pênis”. Porém, ainda, segundo a autora, o corpo do bebê enfrentará um juízo visual que deixará de lado as análises cromossômicas, desse modo critérios de “comprimento”, “tamanho” e de “aparência normal” dos órgãos genitais substituirão os critérios que regem as provas cromossômicas, esperando que se possa tornar a substituir um suposto momento original do reconhecimento em que a nominação do corpo como masculino ou feminino coincide com a primeira imagem de que se faz do bebê, seja por recursos como a ultra-sonografia ou o momento do nascimento. A cirurgia que a princípio quer estabelecer uma concordância entre a combinação cromossômica e a aparência do tecido genital não é mais do um modelo de análise fundamentalmente visual e não cromossômica, tornando-se os olhos os encarregados de estabelecer a verdade do gênero verificando a correspondência entre os órgãos anatômicos e uma ordem sexual ideológica binária.

Para o moneísmo, o corpo intersexual é uma falha pensada em frente a relação binária dos sexos, seus órgãos são os "subdesenvolvidos", ou "mal-formados", nunca órgãos verdadeiros; por isso sua teoria propôs uma "adequação", segundo critérios específicos.

O corpo intersexual é para o moneísmo uma patologia que acomete o feto, seus órgãos sexuais são os “feios”, “estragados”, “mal-formados”, “inacabados”, “subdesenvolvidos”, mas nunca um verdadeiro órgão, nunca a ambigüidade que expõe com clareza a lógica da ordem sexual; longe de serem científicos, os critérios de designação/atribuição do sexo são estéticos: é a visão que faz a diferença sexual. À medida que para Preciado (2002, p. 111, tradução minha) “critério científico e critério estético trabalham num único sentido material da designação de sexo a partir do momento que dependem de uma única ordem político-visual: qualquer corpo sem partes genitais externas suficientemente desenvolvidas, ou que não podem ser reconhecidas como um pênis, será admitido e identificado como feminino”. Consoante a isso, os recém nascidos com um pênis excessivamente pequeno, a verdade do sexo se decide a adequação a critérios heterosociais normativos, segundo a qual, pelo moneísmo, a produção de um indivíduo incapaz de ter relações (hetero)sexuais genitais seria o pior erro se tratando de designação e re-designação do sexo.

Logo, se o recém nascido apresenta a combinação cromossômica XY, geneticamente masculino, com tecidos genitais micro-falo, micro pênis ou clito-pênis (apresentado potencial em ser transformado em pênis), uma série avaliações médicas dirão se os órgãos sexuais têm ou podem adquirir a aparência de um pênis “normal” e que poderá ter ereções. Se o recém-nascido responde positivamente a esta prova hormonal, isto é, se seu órgão apresentou algum desenvolvimento, então será utilizado um tratamento local a base de testosterona que desenvolverá um pequeno pênis, caso contrário, se o recém-nascido não apresenta nenhum sinal diante da prova hormonal, ele será designado ao gênero feminino, onde mais tarde passará por uma vaginoplastia completa. Preciado desvenda mais uma vez o jogo de Money onde o “masculino” não estaria definido pelo critério genético ou pela produção de esperma, mas sim por um critério estético, em que o corpo intersexual apresenta a possibilidade de desenvolver um pênis do tamanho “apropriado”.

No caso do recém nascido geneticamente feminino que apresenta um pênis de tamanho “normal” e bem formado, a medicina vai considerar a possibilidade de uma designação ao sexo masculino, onde o moneísmo se entrega a capacidade de um pênis provocar uma identidade masculina, mesmo se tratando de um corpo cromossomicamente feminino.

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