Meritocracia: críticas e dificuldades

No texto introdutório sobre a meritocracia, definimos este conceito que é largamente aplicado nas sociedades democráticas ocidentais. A justiça meritocrática, baseada na capacidade e esforço de cada um, é um princípio que orienta o sistema educacional dessas sociedades, incluindo a brasileira.

Dissemos que a meritocracia na educação depende da igualdade de oportunidades. Oportunidades iguais, por sua vez, supõem igualdade de acesso, segundo análise do sociólogo francês François Dubet (2004). No Brasil, a universalização do acesso ao ensino caminhou a largos passos a partir da década de 40 do século passado. Hoje, quase 100% das crianças em idade escolar acessam ao ensino fundamental. Em etapas posteriores, como o ensino médio e principalmente o ensino superior, a realidade é outra.

A universalização do acesso ao ensino não elimina a meritocracia da educação.

É evidente que a ampliação do acesso ao ensino deve ser comemorada, mas ainda é uma meta limitada se estamos procurando uma educação justa – isto é, que não perpetue injustiças e desigualdades – e de qualidade. Pois, em resposta à escola que se expandiu, Dubet afirma que “essa escola não se tornou mais justa porque reduziu a diferença quanto aos resultados favoráveis entre as categorias sociais e sim porque permitiu que todos os alunos entrassem na mesma competição” (2004, p. 541).

Há de se pensar que uma concepção puramente meritocrática da justiça escolar traz imensas dificuldades. Antes de procurarmos modificar esse princípio, é necessário entender que dificuldades são essas. Dubet (2004) destaca cinco:

Os alunos apresentam base e formação distintas, decorrentes das condições sociais dos pais e das suas possibilidades e capacidades em acompanhar a educação dos filhos. Aqui há dois problemas: as desigualdades entre pessoas, pois mesmo nos alunos de camadas sociais semelhantes o desempenho escolar pode variar bastante; e as desigualdades entre as classes, pois as desigualdades sociais pesam muito nas desigualdades escolares. As “bagagens” distintas desses alunos fazem com que uns tenham vantagens sobre os outros na escola. Valorizar essa diferença significa reproduzir desigualdades;

As desigualdades sociais se refletem na escola, contribuindo para a produção de desigualdades escolares, nas quais o mérito atua ao reproduzí-las e legitimá-las.

A oferta do ensino é desigual, pois não só as famílias e os alunos são diferentes, como ainda o sistema educacional não é homogêneo entre si, sobretudo em países de dimensões continentais como o Brasil. Escolas de bairros periféricos geralmente sofrem mais dos problemas existentes naquela comunidade. Tem-se uma menor estabilidade do corpo docente, maiores entraves etc; tampouco as famílias são escolarizadas a ponto de engajarem-se em mudanças na escola. Logo, a competição que serve de pressuposto à meritocracia não é perfeitamente justa e tende a valorizar estudantes e escolas de meios mais favorecidos;

O modelo meritocrático apresenta certa crueldade, à medida que os “vencidos”, os alunos que fracassam, não são mais vistos como vítimas de uma injustiça social e sim como responsáveis pelo seu fracasso, uma vez que a escola lhes deu, a priori, todas as chances de obter sucesso. A justiça meritocrática, dessa forma, reduz a escola a uma competição na qual boa parte do alunado é excluída. Alunos responsabilizados pelo seu fracasso tendem a construir uma imagem de “maus alunos”, sofrerem de baixa auto-estima, desmotivação e violência. Quando o fracasso é visto não mais como um produto da condição social e sim como fruto de uma competição justa entre os indivíduos, estamos diante da legitimação das desigualdades sociais.

O modelo de igualdade de oportunidades acarreta sérios problemas pedagógicos. Se for pressuposto que todos os alunos estejam envolvidos na mesma competição e sejam submetidos às mesmas provas, as diferenças se aprofundam rapidamente. Em pouco tempo, nota-se que alguns alunos são incapazes de competir. Mas a competição continua. Gradativamente cria-se um abismo entre os “alunos bons” e os “alunos ruins”. Ao assumirmos que essa desigualdade é produto de toda e qualquer competição – que se deu sob as mesmas condições, logo, justa –, admitimos a falência da escola na educação de todos.

Não se pode pensar mais a educação nos moldes das escolas tradicionais, onde o ideal de um ensino de qualidade para as elites perpetuava a meritocracia em todos os níveis escolares.

– Finalmente, podemos questionar a própria noção do mérito. Ao darmos relevo àqueles poucos alunos de melhor desempenho, visto que há a necessidade de se premiar os melhores, justificamos a maior produção de “vencidos” que de “vencedores”. É válido pensar: o que é o mérito? Mérito é transformar herança em virtude? Mérito é legitimar desigualdades e o poder dos dirigentes? Mérito existe e pode ser medido? Se não somos responsáveis por nosso nascimento, como sê-lo por nossas aptidões?

As dificuldades de uma noção de justiça pautada pelo mérito são tantas que fica evidente a importância de se procurar outros conceitos de justiça. Enquanto as sociedades democráticas liberais fazem uso da meritocracia como um pilar fundamental, vemos que uma escola puramente meritocrática atua na contramão de um sistema justo e democrático. É um impasse sobre o qual deve ser refletido, afinal, qual seria o papel da escola em uma sociedade desigual como a nossa? Reproduzir e legitimar a realidade? Ou transformá-la?

15 comentários
  1. Adriano,

    Você está repassando os artigos sobre meritocracia que estavam no Letras Despidas e dando uma aperfeiçoado neles, não é ?

    Você poderia me indicar alguns dos principais livros do François Dubet ?

    Abraços.

    • Inã,

      Correto. Estou me baseando naqueles textos, mas aprofundando um pouco mais e retrabalhando-os.

      Não leio tanto o Dubet por meio dos livros. Eu li um dele, mais teórico sobre a sociologia contemporânea, chamado “Sociologia da Experiência”, que se dedica bastante à escola. Um bem famoso dele é “À l’École: sociologie de l’experiènce escolaire”, não sei se tem tradução e nunca li. Para ler Dubet, tem que ler francês.

      Tenho utilizado mais os artigos deles, que são facilmente encontrados na Internet (procure na base Scielo): “A escola e a exclusão”, “O que é uma escola justa” (base para os textos de meritocracia) e “Desigualdades multiplicadas”.

      Para entender onde se insere a obra do Dubet, recomendo a leitura de um artigo bem fácil de ler da Maria da Graça Jacintho Setton, chamado “As particularidades do processo de socialização contemporâneo”, algo assim. Posso te mandar por e-mail tudo que tenho. Só não tenho seu e-mail, rs.

      Abraços!

  2. Obrigado pelas indicações. Dubet é um autor realmente bem interessante, pois eu tenho a impressão que ele dá continuidade a teoria sobre os mecanismos de poder e desigualdade perpetuado através da educação, proposto inicialmente por autores como o próprio Bourdieu.

    Por enquanto eu estou utilizando esse e-mail: inam_after@hotmail.com

    Abraços.

    • Pois então,

      Acho que em parte ele trabalha com o tal reprodutivismo que o Bourdieu tão bem se debruçou. Mas acho que são referências bem diferentes. O Dubet está mais na linha da sociologia contemporâneo, um pouco afinado com aquela coisa do “indivíduo líquido”, identidades fluidas etc.

      Abraços!

  3. Um texto ótimo. Na verdade, @s governantes brasileir@s tentam minimizar o problema da educação tentando implantar coisas da gestão privada. Educação não é mercadoria. O pior é quando essa meritocracia é aplicada aos profissionais da educação, como acontece em São Paulo, em outros estados brasileiros e agora na Paraíba. É mais fácil jogar a culpa do sucesso ou do fracasso escola no professor do que investir, de fato, em políticas públicas educacionais.

    • Exatamente, Joel!

      A implantação de políticas meritocráticas para os/as profissionais da educação é cruel. Parte do pressuposto de que cada indivíduo vai fazer a sua microrrevolução e melhorar a educação brasileira. Isto é um princípio falso. A educação é sempre um processo coletivo, depende da equipe da escola. O que se faz é criar um enorme aparato de avaliação sem que haja investimento na formação e na qualidade do trabalho docente. Cobra-se mais, investe-se menos. Esse é um paradoxo que tal tendência insiste em repetir. O interesse está em individualizar a responsabilidade pela educação brasileira. Lamentável…

      Obrigado pelo comentário!

  4. T-ara disse:

    Se os menos favorecidos não tem escola de qualidade, cabe ao governo fazer que ela seja de mesma qualidade como as outras. Mérito tem que ser premiado sim. Um aluno é bom porque se esforça, e o maior problema das escolas não é dificuldade de aprender mas sim preguiça dos alunos de pegar o caderno, um livro e estudar e aqueles que fazem isso não merecem mais valor que aqueles preguiçoso que não fazem? Vamos tratar o aluno bom igual ao aluno preguiçoso?
    E o pior de tudo que esses alunos preguiçosos recebem mais atenção do professor do que aquele que estuda e faz tudo para ser um bom aluno. Ridículo quem escreveu essa matéria.

    • Olá T-ara,

      Obrigado pela parte que me toca.

      Olhe, em uma sociedade extremamente desigual, “premiar” o prêmio, apenas, é legitimar de cabo a rabo as desigualdades, pois as desigualdades sócio-econômicas seriam respaldas pela desculpa da “diferença individual”. Uma questão de esforço, e não de contexto. É claro que há alunos que se esforçam e superam muitas dificuldades. Em nenhum momento falei que deve se ignorar essas pessoas. O mérito é parte da nossa sociedade e não pode ser abolido. Só que não podemos usá-lo como um propósito prejudicial, de culpabilização, de ocultação política e social dos problemas enfrentados pela, digamos, MAIORIA da sociedade brasileira.

      Abraços!

  5. Antonio Almeida disse:

    Adriano, você é uma pessoa linda e está se tornando um intelectual engajado na erradicação das desigualdades sociais. Isso é fundamental. Meus parabéns!

    Antonio Alves de Almeida

    • Prof. Antonio,

      Fico lisonjeado! Obrigado, querido! Pode ter certeza que você foi e ainda é uma inspiração para mim nesta infindável caminhada!

      Abração!

  6. sociedadepoderedireito disse:

    Li os artigos conexos sobre meritocracia. Perfeito. Acertou em cheio. Em uma sociedade que tem por regra a desigualdade, o acesso aos bens materiais e culturais reflete muito mais a falta de oportunidades do que a incapacidade. Escrevi algo nesse rumo também.

  7. Mateus disse:

    O texto já começa meio errado, o sistema de cotas tira todo o primiero parágrafo.

  8. Wagnerluizj10 disse:

    E como seria o ensino se não meritocrático? Veja o ensino no Brasil atualmente e tire suas próprias conclusões, a verdade é que tudo que é público é ruim, mas nem todos têm as mesmas condições de acesso ao bom , pois então não seria mais ético e decente todos terem acesso ao bom ? Ao invés de termos escolas públicas que só servem para aprofundar ainda mais a desigualdade, porque não temos um programa onde todos têm acesso à boas escolas? Não critico seu ponto de vista,porém o ensino deve sim ser meritocrático pois se tivermos um ensino democrático onde todos são iguais não dá certo, uso como prova a escola pública no Brasil, lá todos são iguais até quando tiram notas ruins, mas, isso contribuiu pra todos os alunos se esforçarem e na próxima serem melhores? Não! Oque você percebe hoje é que todos não estão nem aí,pois, mesmo se não conseguirem atingir a meta sabem que vão ter a mesma igualdade de quem conseguiu, e no final todos estão burros, sim burros, pois os que tinham possibilidade de através da meritocracia atingir um melhor plano de vida não querem mais isso porque mesmo se ele for ruim ele está na média então pra que estudar né?!

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