Os Artigos 8 e 9 da sociedade contra-sexual

O conceito de ciborgue vem de Donna J. Haraway (1944 - ), importante filosofa, feminista e bióloga.

O Artigo 8 da sociedade contra-sexual retoma brevemente parte dos estudos da feminista e bióloga Donna J. Haraway sobre as cibertecnologias e os ciborgues (cyborgs). Haraway em seu Ciencia, cyborgs y mujeres: la reinvención de la naturaleza (1991) enfatiza os deslocamentos dos limites homem/máquina assim como Beatriz Preciado, em seu Manifiesto contra-sexual: prácticas subversivas de identidad (2002), faz com o dildo e o pênis, onde os traços físicos e não físicos se tornam muito imprecisos, o que se aproxima do conceito de ciborgue, um organismo que ao mesmo tempo apresenta partes orgânicas e mecânicas, um organismo cibernético, de realidade social e ficcional.

Para a contra-sexualidade, se torna essencial a análise de sexo e gênero como aparatos que são inscritos em um sistema tecnológico complexo, uma cibertecnologia. Assim através do Artigo 8, a contra-sexualidade reivindica essa compressão e a partir de Haraway considera que as substâncias que temos chamadas de naturais (a testosterona, o estrógeno, a progesterona), os órgãos sexuais do macho e da fêmea e as reações físicas (a ereção, a ejaculação, o orgasmo, etc.) deveriam ser compreendidas como metáforas políticas cuja definição e controle não podem estar na mão do Estado, das instituições médicas e nem das farmacêuticas heteronormativas. Na verdade, o que Preciado pretende mostrar é que essas instituições regulam essa tríade substancias/órgãos/reações físicas e, por exemplo, vamos pensar nas substâncias naturais, especificamente na testosterona, em torno desse hormônio existe um tabu, que para Preciado devemos parar de entender as coisas como estranhas tal como os médicos nos explicam e desse modo a testosterona, o chamado hormônio masculino, deve ser utilizada como uma droga política, uma substância pela qual podem ser experimentadas transformações no próprio corpo (o corpo como lugar de luta política).

Para Beatriz Preciado, a testosterona é a metáfora bio-social que permite um corpo denominado feminino ascender a masculinidade. Nesse sentido, para a autora, devemos considerar os hormônios sexuais como drogas políticas e sociais.

Nesse sentido, a luta consiste em desmistificar o que a medicina tem dito a respeito desses hormônios e tirá-las das mãos das instituições; em uma sociedade contra-sexual, uma mulher (o que a produção heteronormativa do corpo designa mulher) pode facilmente ir a uma farmácia, comprar um pacotinho de testosterona e se auto-administrar, além de perceber que a testosterona se trata de um hormônio incolor e inodoro, mostrando também que entre determinada idade a ciência vai estabelecer que ela use uma quantidade delirante de estrógenos como meios contraceptivos e quando colocada diante de um simples pacotinho do hormônio masculino fique aterrorizada.

Voltando as cibertecnologias, a autora nos diz que estas quando comparadas as tecnologias de mudança de sexo e as mudanças das práticas sexuais, vemos um subdesenvolvimento dessas últimas, clareando um limite entre tecnologias tão avançadas, os ciborgues, e do outro lado impossibilidades, por exemplo, a mudança do preservativo nos últimos 2000 anos, os resultados nada tão significantes da faloplastia etc.. Devemos começar a questionar as instituições que detém as biotecnologias sobre esse impasse, vendo que assim como para Preciado (2002, p. 34, tradução minha): “A meta das atuais biotecnologias é a estabilização das categorias heteronormativas de sexo e gênero (que vai da erradicação das anormalidades sexuais, consideradas como monstruosidades no nascimento ou antes do nascimento, às operações no caso das pessoas transexuais”.

Já o Artigo 9 firma que as atividades contra-sexuais para o sujeito “parlante” devem ser consideradas como um trabalho social que será ao mesmo tempo direito e obrigação e que as atividades contra-sexuais serão praticadas regularmente em um certo número de horas por dia, dependendo do contexto. Ainda sim, o Artigo 9 ressalta a importância do tempo na concepção e melhoras das práticas contra-sexuais.

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