A escola é hostil aos meninos?

As meninas obtêm os melhores resultados na escola: concluem em maior proporção o ensino fundamental, apresentam trajetórias escolares menos acidentadas e ingressam em maior número no ensino superior, se comparadas aos seus colegas do sexo oposto. Esse permanente insucesso do alunado masculino, sobretudo na educação básica, tem levado à explicação de que as meninas estariam mais bem adaptadas à escola por conta de uma socialização voltada para a passividade e obediência. Por outro lado, os meninos, que desde cedo aprendem a ser rebeldes e independentes, não se enquadrariam nas escolas atuais, de tão femininas que são. Será que essa análise procede?

De cara, Rosemeire Brito (2006), em sua pesquisa de mestrado, mostra que não é possível entender o desempenho escolar de meninas e meninos a partir de uma perspectiva extremamente binária, pois, desta forma, não se reconhece a diversidade existente entre os vários grupos de garotos e garotas. Ao descrevermos que os meninos vão pior na escola se comparados às meninas, a primeira pergunta que deve ser feita é: quem são os meninos que fracassam na escola? (CARVALHO, 2004). De forma simétrica, poderíamos questionar que meninas são essas que obtêm os melhores desempenhos.

Nem todos os meninos se enquadram no estereótipo do "bagunceiro" e, mais, não são todos os meninos que fracassam na escola.

Pesquisadoras de relevância, como a australiana Raewyn Connell (1997), vão desde cedo mostrar que não são todos os meninos que fracassam. O fracasso escolar (expressão problemática, mas tradicionalmente utilizada) está articulado a outros fatores, dentre raça/cor, etnia e renda. Meninos oriundos de setores médios, intelectualizados ou não, não colecionam fracassos tanto quanto os meninos de setores menos favorecidos.

Superada essa dicotomia entre dois grupos supostamente homogêneos – meninos rebeldes e meninas obedientes –, precisamos ter um olhar sobre as práticas escolares. Ao afirmarmos que a escola é hostil aos meninos por se apresentar enquanto um ambiente feminino, no qual características como a passividade e submissão são valorizadas, estamos jogando a responsabilidade pelo fracasso escolar nas causas extra-escolares. É como se estivéssemos dizendo que a sociedade “forma” meninos inadequados para os moldes escolares vigentes. Será que a escola não teria um papel, quiçá protagonista, na produção deste fracasso?

Por meio de entrevistas com jovens estudantes, Connell (1997) ilustra o papel ativo da escola na produção de múltiplos, e muitas vezes conflitantes, modelos de masculinidade. A escola contribui para a “produção” tanto do bom aluno quanto do mau aluno, cujas masculinidades devem ser pautadas, respectivamente, pela razão e pelo conflito. Essa contradição advém do princípio de que as masculinidades são arranjadas em meio às relações de poder, dispondo-se em uma hierarquia existente em dado contexto. Logo, não é o caso de se afirmar que os alunos com maiores dificuldades estariam sendo vítimas de uma escola despreparada, mas sim que, ao tratá-los de forma diferenciada, a escola empurraria esses alunos cada vez mais para a construção de uma trajetória de insucesso escolar (BRITO, 2006).

O modelo de alunos - e principalmente alunas - submissos e obedientes pode não ser aquele que a escola realmente valoriza.

Ainda, Marília Carvalho (2004) destaca que os alunos considerados “excelentes” ou “brilhantes” estavam longe de um modelo passivo ou submisso. Pelo contrário, esses alunos eram apontados pelas professoras como “agitados”, “críticos” e mesmo “indisciplinados”. Para as meninas, a afirmação também é válida: “aquelas que se comportavam de forma mais próxima da passividade e obediência”, escreve Brito (2006, p. 142), “tendiam a ser menos valorizadas pela professora quando necessitavam de sua ajuda para aprender”.

Muitas questões ainda ficam em aberto: como a escola contribui para a produção desses diferentes tipos de alunas e alunos? Como poderíamos atuar para reverter este problema? Afinal, quem é o “aluno ideal” das escolas contemporâneas? São pontos pertinentes, que devem ser estudados para que se possa complexificar as análises sobre a escolarização de meninas e meninos, a fim de não reproduzir estereótipos e visões mal fundamentadas.

2 comentários
  1. Adriano,

    O próprio Bordieu cita no seu documentário (Esporte do combate) sobre a docilidade, conformidade e obediência das meninas e que isso leva as mesmas a obterem certas vantagens sobre os meninos ao longo do seu percurso escolar. Contudo, o seu artigo conseguiu complexificar ainda mais essa questão, indo muito além dessa dicotomia.

    Ótimo post. Sempre que possível tenho acompanhado os textos e estou gostando bastante do blog.

    Um grande abraço pra vocês.

    • Oi Inã,

      A ideia de que as meninas vão melhor por causa da feminilidade marcada pela obediência e docilidade é absolutamente difundida. Talvez ela explique em parte, mas de maneira alguma é a única explicação. Pesquisas como as que eu mostrei – esse ponto dá muito pano pra manga, renderá mais textos (se ainda não leu, dá uma olhada nos outros da categoria “Cotidiano Escolar”) – fazem exatamente isso que você falou: complexificam. Como? Pensando o seguinte:

      Há meninos agitados e meninos quietos, assim como meninas agitadas e quietas. Ainda, essas crianças não são constantes. Na frente dos amigos, é baguceiro; na frente da família ou professora, quieto. Analisando o desempenho escolar, comparado ao comportamente na escola, vê-se que não existe um correlação tão grande. Há meninos que são agitados, que bagunçam, mas que são excelentes alunos, porque conseguem conciliar isso com o rendimento escolar; outros, não. E nas meninas, a passividade não é sinômino de aprendizado: há vários relatos de alunas quietas, mas que obtêm baixo desempenho. Como se não bastasse, entra em jogo o olhar que o professor terá sobre isso. E é mostrado que, ainda que a obediência seja um valor cultuado por famílias e crianças, os professores não gostam muito daqueles alunos extremamente quietos e passivos. Tem sido mostrado que eles apreciam algumas doses de iniciativa, pró-atividade.

      Outros pontos, que deverão ser levados na discussão, é que a avaliação do desempenho escolar é empreendida pelo professor. Porém, essa avaliação não é absolutamente criteriosa, e outros fatores, como o comportamente ou mesmo coisas mais complicadas como a cor de pele e a renda, podem influenciar nessa avaliação, por conta dos preconceitos e estereótipos que carregamos. Isso é falado brevemente em “Avaliação escolar e a trajetória dos alunos”, e tem um embasamento teórico no “Ensino, uma atividade relacional”.

      É um ponto riquíssimo. E longe de uma dicotomia simplista de “menina vai bem porque…” e “menino vai mal porque…”. Espero que acompanhe a discussão e contribua com seus comentários!

      Abraços!

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