A feminização do magistério: considerações iniciais

No decorrer do século passado, a docência passou a adquirir um caráter eminentemente feminino, chegando ao ponto de ser, hoje, uma profissão expressivamente de mulheres. De acordo com os dados do Censo do Professor, de 2007 (gráfico abaixo), 97,9% das professoras da creche são mulheres, índice que cai para 74,4% nos anos finais do ensino fundamental, para 64,4% no ensino médio. No ensino superior (não consta no gráfico), temos em torno de 45% de mulheres docentes.

Presença feminina na educação básica: nota-se um declínio conforme avançam as etapas de ensino. (Fonte: Censo do Professor, 2007/INEP) - clique na imagem para ampliar.

Paralelamente, essa tendência decrescente da presença de mulheres nas distintas etapas do ensino é inversa à valorização do profissional dessas etapas. Enquanto as tias da educação infantil são as menos valorizadas, detendo baixa formação, salários precários e pouco reconhecimento, os professores-pesquisadores do ensino superior, titulados com mestrado e doutorado, recebem os maiores salários e detêm maior prestígio social. As duas tendências, por sua vez, caminham juntas.

No Brasil, as mulheres só adquiriram o direito à educação em 1827, por meio de escolas segregadas que apresentavam currículos distintos de acordo com o sexo. Para as moças, para quem o ensino superior era proibido, restava um ensino menos aprofundado nas ciências e voltado às “prendas domésticas”. Durante o Império, a única oportunidade de a mulher prosseguir seus estudos era através da Escola Normal, que permitia o exercício da atividade docente. A partir de 1895, o número de moças suplantou o número de rapazes formados nessas escolas de São Paulo (DEMARTINI & ANTUNES, 1996).

Escola Normal localizada em Taubaté (SP), em 1962: presença expressiva de mulheres.

É incorreto dizer que foi a progressiva entrada de mulheres na carreira docente que levou à sua precarização. Na realidade, segundo as autoras citadas, eram os baixos salários já existentes que afastavam os homens dessa profissão, uma vez que, a eles, havia outras oportunidades. Não existiu esse “eldorado” da educação, de que tanto se fala. Por outro lado, é possível dizer que a presença feminina apenas reforçou a imagem da docência enquanto uma profissão secundária. Nos moldes familiares tradicionais, nos quais os homens assumem o papel de provedores, parece coerente sobrar, às mulheres, as migalhas de uma profissão pouco remunerada e reconhecida.

No entanto, ainda estamos falando de uma educação elitista, cuja abertura para a população era extremamente restrita. Foi só a partir dos anos 1940 que a educação brasileira iniciou um intenso processo de universalização, alcançando quase a totalidade de crianças no ensino fundamental atualmente. A expansão do ensino projetou a feminização do magistério a proporções nacionais. Todavia, as diferenças de acesso das mulheres aos diferentes níveis de ensino perpetuam até hoje: continuamos tendo a diretora da escola, seguindo as diretrizes do ministro da educação.

Entre as explicações para a feminização do magistério, existem as concepções conservadoras pautadas pela ideia de “vocação”. As mulheres, portanto, seriam levadas à profissão docente por conta da sua “natureza”, propensa à manutenção das relações humanas e as práticas do cuidado. São explanações naturalistas, fundamentadas no determinismo biólogo que tanto contribui para retrocessos sociais.

A feminização do magistério não se refere apenas à presença de mulheres, mas principalmente à associação da escola a símbolos da feminilidade.

A pesquisadora Cláudia Vianna (2001/02, p. 90) desconstrói essa ideia, afirmando que “nossa socialização interfere na forma como nós – homens e mulheres – nos relacionamos, interfere nas profissões que escolhemos e na maneira como atuamos. Não se trata de afirmar que sempre foi assim ou que é inerente à nossa ‘natureza’.” Para a autora, trata-se de dizer que tanto as feminilidades quanto as masculinidades são historicamente construídas. Tem-se, portanto, uma referência “aos símbolos culturalmente disponíveis em uma dada organização social, às normas expressas em suas doutrinas e instituições, à subjetividade e às relações de poder estabelecidas nesse contexto.”

Ao entrarmos nesse ponto, que aborda uma dimensão simbólica, devemos entender que a feminização do magistério não se refere única e exclusivamente à presença massiva de mulheres na profissão docente, mas também à associação das práticas, atividades e significados desta profissão ao universo feminino, independente de quem os corporifica, conforme nos ilustra Marília Carvalho (1999).

A presença, em si, de mulheres ou de homens exercendo tal profissão diz pouco perto dos símbolos que atravessam essas instituições. Um professor do sexo masculino na educação infantil, por exemplo, poderia muito bem reproduzir as prescrições da feminilidade, praticando o cuidado, a ligação emocional e as relações humanas. Com efeito, esse professor estaria exercendo uma feminilidade, isto é, um conjunto de práticas que, no contexto atual, são associadas ao gênero feminino.

Não apenas as professoras trazem concepções de feminilidade, como a própria escola atua ativamente nesses modelos.

Essas práticas, por sua vez, não são trazidas de fora para dentro da escola, como se os significados tradicionais de masculinidade e feminilidade “invadissem” o ambiente escolar. Pelo contrário, deve-se reconhecer o papel ativo da escola na produção desses significados (CARVALHO, 1999). A própria cultura escolar produz uma lógica do cuidado, sobretudo no ensino infantil, a qual vai se reduzindo com o passar dos anos, chegando à conduta da independência no ensino superior. Como já dissemos, essa tendência acompanha a presença feminina no magistério.

A partir de então, cabe aos docentes – não necessariamente de forma consciente – reproduzirem ou negarem as concepções tradicionais. São processos contraditórios, como mostra a pesquisa de Vianna (2001/02), que expõem os conflitos e tensões vividos por professoras e professores, porque ora referendem papéis tradicionais associados às mulheres e homens, ora imprimem relações mais igualitárias. Constroem, pois, uma identidade docente marcada por contradições.

As análises a respeito da feminização do magistério, para se concluir, não devem parar nos dados estatísticos. Se não entendermos os sentidos e significados relacionados ao trabalho docente, não conseguiremos avançar visando à compreensão da precarização deste tipo desta carreira. O baixo reconhecimento, arriscamos, deve estar relacionado à feminização e, portanto, afeta tanto as mulheres quanto os homens professores.

6 comentários
  1. Bem legal esse post, principalmente por você trazer dados para analisar a questão sobre educação e gênero. De certa forma, tenho uma noção desse assunto em função de minha mãe ter sido professora do primário por mais de duas décadas..

    Além disso, adicionei o blog de vocês lá no Trama Social.

    Valeu!

    • Oi Inã,

      Obrigado! Você se refere aos dados do Censo do Professor, né, aquele gráfico? Sim, são muito bons. Estou com uns dados super recentes de educação formal, gênero e mulheres, informando a presença de homens e mulheres do primário ao pós-doutorado. Mas foi obtido em off e as autoras nem publicaram o artigo ainda. Estou me remoendo aqui, mas vou aguardar sair na revista antes, para poder utilizar-los.

      Além disso, costumo lançar mão das pesquisas qualitativas que vão mais a fundo para compreender os significados, os símbolos e as práticas do cotidiano. Por isso tento mesclar dados estatísticos com resultados dessas pesquisas.

      Abraços!

  2. Adriano, com todo respeito tenho que dizer que te achei uma graça, fofo, principalmente por ser um feminista, um homem que reflete sobre o “mundo feminino”. Ótimo post! Abraço e boa sorte em sua caminhada!

Ensaie um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: