Os Artigos 10, 11 e 12 da sociedade contra-sexual

Para Beatriz Preciado, é preciso abolir a família nuclear como célula de produção, de reprodução e de consumo.

Para Beatriz Preciado em seu Manifiesto contra-sexual: prácticas subversivas de identidad sexual (2002), a prática da sexualidade entre casais (o que ela define como grupos discretos de pessoas de sexo diferentes, composto por um número de pessoas superior a um e inferior a três) está voltada para os fins reprodutivos e econômicos do sistema heterocentrado. Assim, pelo Artigo 10 da sociedade contra-sexual é reivindicado a abolição da família nuclear como célula de produção, de reprodução e de consumo. A respeito dessa família nuclear, são interessantes as colocações de Márcia Arán em seu artigo Os destinos da diferença sexual na cultura contemporânea (2003), que, segundo a autora, a família nuclear é herdeira da necessidade política da constituição do privado, surgindo no inicio da era moderna e vindo, sobretudo para garantir a “ordem social” e a formação do individuo adulto, através da função da afetividade e da educação. “A partir daí”, escreve Arán (2003, p. 401), “a organização pai-mãe-filho passa a ser naturalizada como o lugar originário, por excelência, da constituição do sujeito”.

Para Preciado se torna valioso a subversão da normalidade dessa família naturalizada e das relações que mantém, de modo que torna necessário colocar em marcha a subversão tanto qualitativa (hetero) e quantitativa (dois) das relações corporais pelas práticas de inversão contra-sexuais, pelas práticas individuais e em grupo, que trabalharão, ensinarão e promoverão essa subversão por meio da distribuição gratuita de imagens e textos contra-sexuais.

Pelo Artigo 11 da sociedade contra-sexual, uma das desconstruções a serem feitas entre o público e o privado é a desconstrução da casa como espaço privado de produção e de reprodução heterocentrada.

Pelo Artigo 11, a sociedade contra-sexual estabelecerá os princípios de uma arquitetura contra-sexual: “A concepção e a criação de espaços contra-sexuais”, escreve Preciado (2002, p. 35, tradução minha), “estarão baseadas na desconstrução e em uma re-negociação da fronteira entre a esfera pública e a esfera privada. Esta tarefa implica em desconstruir a casa como espaço privado de produção e reprodução heterocentrada”. Dessa forma, o que a arquitetura contra-sexual pretende é a desconstrução do público e do privado, onde a autora começa da casa como sinônimo do espaço da produção e reprodução heterocentrada, o que lembra muito as análises de Michel Foucault, para quem em determinado período a sexualidade foi encerrada, confiscada pela família conjugal e o sexo sai da esfera pública, é importada para o quarto do casal. Além disso, Salomé Coelho em Por um feminismo queer: Beatriz Preciado e a pornografia como pre-textos (2009) sugere que uma outra leitura possível seria a própria desconstrução do público/privado dentro do próprio privado, pois nesse campo certas partes são mais privatizadas do que outras, como é o caso do ânus.

Pelo Artigo 12, a sociedade contra-sexual provoca mudanças nas instituições educativas tradicionais e desenvolve uma pedagogia contra-sexual high-tech com objetivos de maximizar as superfícies eróticas, bem como diversificar e melhorar as práticas contra-sexuais. Para Preciado é obrigatório para a sociedade contra-sexual o desenvolvimento do saber-prazer e de todas as tecnologias que estão a favor de uma transformação radical dos corpos e da interrupção da história da humanidade como naturalização da opressão, como por exemplo, a naturalização da opressão que temos feito em torno da classe, da raça, do sexo, da espécie etc.

Bem, nesse post chegamos ao 12º segundo princípio da sociedade contra-sexual, restando apenas mais um para terminarmos nossa exposição. Não deixem de acompanhar!

4 comentários
  1. Oi Lucas,

    As colocações do Artigo 12º são interessantes, mas não as entendi muito bem. O que significa uma “pedagogia contra-sexual high-tech com objetivos de maximizar as superfícies eróticas”? E qual a relação disso com a interrupção da naturalização das opressões?

    Achei os artigos 10º e 11º muito radicais. Será mesmo necessário acabar com a família nuclear e com a casa? Abolindo-se a família, institui-se o quê? A Beatriz Preciado defende o poliamor? No fundo, não entendi muito bem o propósito desses dois artigos, pois não sei pelo que se substituiria. Não consigo vislumbrar, por exemplo, uma “arquitetura contra-sexual”…

    Queria saber sua opinião: você, particularmente, concorda com todos os pontos do Manifesto Contra-Sexual?

    Abraços!

    • Bem Adriano, a pedagogia contra-sexual high-tech com os objetivos de maximizar as superfícies eróticas significa que colocaremos em marcha a desconstrução do que a tecnologia (hetero)sexual da produção dos corpos reduz o corpo as “zonas erógenas”, onde se fragmenta e recorta o corpo, destacando certos órgãos e zonas de alta intensidade como significantes sexuais em oposição as outras, dessa forma torna-se necessário essa desconstrução heterosocial de dominação e uma re-significação onde todo o corpo é sexualizado. Isto remete as práticas contra-sexuais que já falamos: a masturbação do dildo-cabeça, do dildo-braço, do dildo-perna, a conversão de qualquer orifício em vagina, o trabalho em torno do ânus como centro contra-sexual universal, o dildo como desestabilizador dos limites natural/protético.

      Também, para a autora a pornografia funciona na normalização e produção dos corpos, uma espécie de pedagogia naturalizando as relações entre esses corpos, como usar os órgãos e que órgãos usar, onde usar, em que situações, contribuindo assim para um desenvolvimento performático das relações sexuais. Para Preciado, não se trata de forma alguma impor uma censura para essa tecnologia sexual, mas sim usar uma contra-pornografia, uma espécie de pornografia que vai contra a dominante, que apresenta práticas contra-sexuais, o uso de partes do corpo privatizadas, perversas, abjetas, a alteração do número de pessoas, a alteração que o discurso burguês colocou como lugar de “fazer sexo” e apropriar-se de um mutismo hipócrita, que desestruturam a pornografia performática tradicional. Assim, acontece toda uma reconfiguração dessa tecnologia sexual, tanto que partimos dela mesma para desconstruí-la e usar nessa empreita das tecnologias contra-sexuais.

      Não é que para Preciado vamos acabar com a família nuclear e com a casa, mas é que vamos re-configurar esses campos e se tratando da família nuclear vamos deslocá-la (e não instituir nenhuma outra) como célula de produção, reprodução e consumo, desconstruindo a ideia de uma família legítima e fundadora que confisca a sexualidade, dita as normas, segrega o legítimo do ilegítimo, participa da função única do sexo, a função procriativa. Para a autora o que entendemos como casal legítimo está condicionado pelos objetivos reprodutivos e econômicos do sistema heterocentrado. Logo, na sociedade contra sexual, as práticas contra-sexuais serão realizadas individualmente ou em grupos com contratos assinados, que quebram toda essa ordem da família nuclear, por exemplo, tem uma prática contra-sexual que ela propõe 3 sujeitos “parlantes” participam, onde, a grosso modo, dois masturbam o dildo-cabeça de um terceiro que vai simular um orgasmo. Entende? São práticas que não precisam de um casal fundador ou que aquelas três pessoas tenham uma relação amorosa.

      E aí entra sim o poliamor em seus vários desdobramentos e eu acho que o que é importante é esses desdobramentos, essa pluralidade, essa configuração de várias maneiras, que quebram com a monogamia, um casal legítimo, produzindo e reproduzindo, dessa e daquela outra maneira. Não é uma substituição, a arquitetura contra-sexual é a arquitetura da desconstrução, onde o sistema heterocentrado de sexo/gênero se desfaz, a começar pela própria questão de ser um sujeito “parlante”.

      Para a era do pós-corpo, da mudança radical dos corpos, dos ciborgues nada inocentes e perversos, Preciado reivindica que a história da humanidade seja interrompida como a história da opressão, das naturalizações construídas, catalogadas.

      Bom, acho que isso né… rs!

      E quanto eu concordar, concordo com todos os pontos, tinha um que eu estava achando muito radical, mas depois que fui entender a jogada dela, rs. É uma proposta desafiadora, mas esse ativismo queer deve ser colocado em marcha logo de forma intensa, vamos desestabilizar os sujeitos! E a contra-sexualidade está aí para ser desenvolvida.

      Abraços!

  2. Realmente, eu também não consegui vislumbrar a conclusão da autora e sim apenas algumas hipóteses a parte. Ela realmente defende o poliamor atacando a monogamia em sua raiz ? Como será feito a desconstrução da família no espaço privado estando a sociedade presa a uma lógica liberal ?

    Não entendi alguns dos conceitos utilizados ao longo do post como o tal do pedagogia contra-sexual high-teach, e isso ocorre talvez por não estar ainda muito familiarizado com a teoria queer..

    Mesmo assim, o texto está bem sugestivo, dá pra trabalhar muitas questões através dessa temática sobre a família nuclear.

    Abraços.

    • Certamente que ela defende o poliamor, na verdade, o poliamor é um tipo de prática contra-sexual, mas nem toda prática contra-sexual é poliamor. Mas o poliamor ataca sim a monogamia em sua raiz, faz parte das multidões queer, dos desviantes, fora do heterocentrismo e parece que está bem caloroso na nossa época, onde agrupamentos de pessoas se amam, ou entre algumas delas há amor e não necessariamente entre todas, mas constituem um agrupamento, eu acho que um método bom e não deixarem serem catalogados como “agrupamento …”, não, o poliamor me parecer tão baseado em alternativas quanto possível. Mas outras práticas contra-sexuais desestruturam o sistema heterocentrado, como falei em resposta ao comentário do Adriano, você mesmo pode pensar em práticas individuais ou praticadas por agrupamentos que as formas heterosocias naturalizadas se desfazem, eu acho muito interessante isso.

      Agora sobre como se faz essa desconstrução entre o público e o privado, o tempo é crucial e eu acho que vai sim levar muito tempo, mas essas próprias multidões queer que se levantam vão minando essas lógicas normativas, vão desconstruindo, até a teoria LGBT mesmo provoca isso, mas contribuem para essa desconstrução também são os textos contra-sexuais, as propostas de análise crítica dos sujeitos produzidos, da teoria, do ativismo.

      Sobre a pedagogia contra-sexual high-tech tentei explicar pro Adriano, não sei se irá servir pra vocês, se realmente era isso que você e ele queriam se esclarecer.

      Obrigado pelo comentário!
      Abraços,
      Lucas.

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