Dicotomia sexo x gênero

A noção da dicotomia sexo x gênero não é predominante apenas no senso comum, como também em uma série de correntes teóricas de gênero. Décadas atrás, a título de exemplo, a feminista Gayle Rubin teorizou o que ela chamou de “sistema sexo/gênero”, fornecendo subsídios para se compreender essa dicotomia. Uma compreensão profunda das relações de gênero deve ir além, desnaturalizando diversos aspectos da vida social que hoje são jogados no corpo, na biologia ou na “natureza”. Esse deslocamento, todavia, não é simples.

Fato é que gênero, hoje, já não é mais um palavrão. Partir do pressuposto de que as noções de masculino e feminino são construídas historicamente não chega a assustar os mais desavisados. Hoje, o surgimento das identidades LGBT, do “homem do século XXI”, da mulher independente, tem demonstrado que aquilo que usualmente entendíamos por mulheres e homens é absolutamente variável. Entretanto, muitos aspectos ainda descansam em uma caixa preta.

Apresentando a dicotomia

Ao trazermos, em outro texto, as contribuições da estadunidense Joan Scott (1995), vimos que gênero é uma organização social, construída sobre a percepção das diferenças sexuais imbricadas a relações desiguais de poder. Por esse ponto de vista, os corpos não podem mais ser tomados fora da cultura, do discurso ou das construções de significado.

Um porta-casaco como uma métafora do corpo que suporta diferentes construções sociais, mas permanece sempre um porta-casaco.

A norte-americana Linda Nicholson (2000) nos oferece uma metáfora muito oportuna: imaginemos um cabide, um porta-casaco, no qual podemos pendurar uma camisa, uma saia ou um cachecol. Cada um pendura, no seu cabide, aquilo que for da sua preferência. Homens penduram suas gravatas; mulheres, seus vestidos. Imaginemos toda a humanidade: teremos os mais diferentes acessórios, dos coletes aos cocares. Nessa metáfora, a cultura são esses acessórios, absolutamente variáveis no tempo e no espaço. Já o cabide representa o nosso corpo, isto é, invariável, atemporal, a-histórico.

Se por um lado temos o determinismo biólogo, o qual prega que os aspectos sociais derivam de características biológicas, e, por outro, o construcionismo social, que procura entender como os diferentes aspectos, inclusive os biológicos, são fruto de construções históricas e sociais, entre esses dois extremos temos um dégradé que varia em função do maior ou menor peso que a cultura e a biologia terão. A metáfora do corpo como um cabide transita nesse meio de campo: há aspectos construídos socialmente (as vestimentas) e outros determinados biologicamente (o corpo). Estamos falando, portanto, da dicotomia sexo x gênero.

Superando a dicotomia

Até aqui, assumimos a noção de que o corpo é uma superfície fora da cultura, sobre a qual podemos imprimir novos significados (do âmbito sócio-cultural), mas nunca ressignificá-lo. Parte das correntes feministas procurou “desconstruir” o próprio corpo, mostrando que em diferentes culturas ou momentos da história o corpo não é/foi lido de forma similar.

Subsumir o conceito de sexo dentro de gênero demanda a aceitação de que corpo é também uma construção social.

Superar a concepção que toma o corpo como invariável é o primeiro passo para quebrar a dicotomia sexo x gênero, pois “se o próprio corpo é sempre visto através de uma interpretação social”, conclui Nicholson (2000), “então o ‘sexo’ não pode ser independente do ‘gênero’; antes, sexo nesse sentido deve ser algo que possa subsumido pelo gênero.” A autora propõe, portanto, que o conceito de gênero já inclua o conceito de sexo, uma vez que gênero está atento às construções sócio-culturais, nas quais o corpo se inclui.

Esse ponto é bastante complexo e merece análises mais aprofundadas, pois não é fácil, na nossa visão dicotomizada e naturalizante, compreender o corpo – justo o corpo! – como uma construção social, datada historicamente. Por enquanto, fica a provocação.

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