Meninas e meninos na escola: juntos ou separados?

Podemos não saber classificar uma pessoa racialmente, apresentar dúvidas quanto à sua idade, desconfiar da sua nacionalidade ou mesmo não saber seu estrato social. Não temos dúvidas, entretanto, sobre o sexo de um indivíduo (salvo raras exceções, dentre andróginos e transexuais). Com as crianças, desde o nascimento educadas em um mundo altamente generificado, o qual segrega lugares diferentes para mulheres e homens na sociedade, o panorama não é diferente.

Na escola, instituição na qual a maioria das crianças passa boa parte dos seus dois primeiros decênios de vida, essas fronteiras de gênero se perpetuam, como também podem ser amplificadas ou minimizadas. Na maior parte do tempo, todavia, as meninas e meninos estão separados, como mostram as pesquisas que estudam as relações de gênero na educação escolar (CONNELL, 2000).

Barrie Thorne (1942-), autora de uma clássica etnografia escolar sob a ótica das relações de gênero.

A socióloga estadunidense Barrie Thorne, em conhecida etnografia intitulada Gender play: girls and boys in school (1993), procura dissecar as relações entre as crianças com o intuito de entender o papel da escola na construção ou dissolução de diferenças de gênero, bem como compreender como se dão as próprias interações entre meninas e meninos.

De pronta mão, a autora mostra que a idade é o fator de maior peso na segregação das crianças. É mais fácil meninas e meninos da quarta série se misturarem entre si do que se juntarem às crianças das séries iniciais. A importância das relações de gênero, entretanto, está longe de ser reduzida.

Thorne se incomoda com a relevância de gênero até nas coisas mais banais, tal qual a formação de uma fila ou a organização da lista de chamada, a ponto da autora se questionar “como, quando e por que gênero faz uma diferença – ou não faz uma diferença nas interações cotidianas nas escolas? E quando gênero faz uma diferença, que tipo de diferença faz?” (1993, p.35-36, tradução minha).

Filas de crianças separadas por sexo em uma escola norte-americana nos moldes estudados por Barrie Thorne.

As crianças não se separam a todo momento. Nos jogos que demandam múltiplas habilidades, nas comparações de altura e peso, nas salas de leituras, a questão de gênero está menos diluída. Por outro lado, nos grupos (“as panelinhas”), na hora do refeitório, em muitas brincadeiras, essas diferenças se acentuam. Quando não, são incentivadas ou mesmo forjadas pela equipe escolar, na organização de competições entre os sexos. Seria inaceitável, atualmente, criar uma disputa motivada por raça (negros x brancos) ou religião (judeus x cristãos). Com o sexo, no entanto, não se pode afirmar o mesmo.

Para aqueles que defendem que as diferenças entre as meninas e meninos são “naturais” e, portanto, não devem ser foco de atenção, vale a observação de que nas vizinhanças e bairros as segregações por sexo podem ser muito mais minimizadas. A evidência de que a segregação, na escola, é maior do que nas vizinhanças, indica que a escola possui suas particularidades na socialização de gênero.

Nas suas observações, Thorne (1993) mostra que quanto mais semelhantes as idades entre as crianças, maior é a segregação por gênero. Uma vez que a escola organiza as turmas de acordo com a idade, legitima a separação dos sexos. Da mesma forma, a elevada densidade de crianças do mesmo sexo na escola favorece a separação, fenômeno que não se vê nas vizinhanças, onde a heterogeneidade é maior.

Para além da descrição minuciosa dessa segregação, a autora adentra nos seus porquês. Será que as explicações para a tendência de separar os meninos das meninas advêm da psicologia? Ou será que estarão fundadas na sociologia? É necessário maior nível de aprofundamento para escapar das explicações de senso comum. Isto será feito nos próximos textos.

2 comentários
  1. Adriano.

    Os dois últimos posts, foram bem esclarecedores.

    Quanto a essa dicotomia gênero e sexo, ela é um tanto desafiadora de se compreender, pois envolve diversos assuntos relacionados a ciências sociais, filosofia, biologia e outros…

    Sobre a analogia do cabide ela foi importante para se ter uma noção sobre esse hibridismo entre natureza e cultura.

    Além disso, é um tanto interessante refletir sobre como essa divisão dos gêneros vai sendo construída desde o início da vida, como na separação e personalização dos quartos dos recém-nascidos, dando continuidade na escola, sobre diversas formas. Outro aspecto fundamental é a minha familiarização com os diversos autores responsáveis por essa temática, que você vai expondo e jogando ao longo dos posts.

    Estou aprendendo muito sobre esse assunto e espero ansiosamente por novos novos posts.

    Até mais.!

    • Que bom, Inã!

      A sua familiarização com as Ciências Sociais certamente é um facilitador.

      A dicotomia sexo x gênero é complexa. É um ponto de discussões intensas ainda hoje, e evidentemente o que eu escrevi reflete a opinião tenho construído com base nas leituras do grupo o qual faço parte. São escolhas.

      Bom saber que está gostando dos textos!

      Abraços!

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