“O Status Intelectual da Mulher”: uma discussão entre Virginia Woolf, Arnold Bennett, Desmond MacCarthy e a atualidade

É possível que o tamanho do cérebro de uma pessoa determine se ela é mais inteligente do que outra?  A intelectualidade estaria ligada ao sexo? E o apreço por ser dominado também estaria relacionado ao sexo? 

A escritora Virginia Woolf (1882 - 1941) também contribui muito para a luta feminista.

Em 1920, Desmond MacCarthy, sob o pseudônimo de Falcão Afável, publica uma resenha na revista New Statesman sobre o livro Our Womem: Chapters on the Sexdisvord, coleção de ensaios do romancista Arnold Bennett, onde este aponta que as mulheres são intelectualmente inferiores aos homens e gostam de ser dominadas por eles. Virginia Woolf, famosa escritora inglesa, imortalizada principalmente por seus livros Mrs. Dalloway (1925) e Orlando – uma biografia (1928), também pela sua luta feminista e sua obra tão citada nesse campo, Um teto todo seu (1929), não deixou de lado a resenha do Falcão Afável e resolveu respondê-lo, culminado assim em várias respostas um para com o outro, onde vemos uma discussão atemporal que encerra a mulher numa condição inferior e que Virginia Woolf consegue “reduzir ao absurdo” essa verdade fabricada, como diria Foucault.

Ao descrever o livro de Arnold Bennett e a partir de suas ideias, Falcão Afável acirra uma discussão e mostra seu lado machista, androcêntrico e sexista. Ele considera que, embora, “seja verdade que uma pequena porcentagem das mulheres seja tão inteligente quanto os homens inteligentes, o intelecto é uma especialidade masculina” (WOOLF, 1996, p. 22), ou seja, a intelectualidade é uma característica inata ao sexo masculino, como se estivesse numa “ordem das coisas”, numa “ordem natural”, o homem ser mais inteligente do que a mulher. Além disso, citando Arnold Bennet, o Falcão Afável transcreve que: “não apenas que atualmente as mulheres como um sexo adoram ser dominadas, mas que por séculos, se não sempre elas continuarão ser dominadas” (p. 23).

Para a feminista Simone de Beauvoir (1908 - 1986) mesmo que o corpo da mulher seja biologicamente mais fraco em relação ao corpo do homem, isso não afirma um destino imutável nem tampouco justifica condições de subordinação.

O grifo é meu! E ao lermos a frase percebemos que uma naturalização de uma condição sob um aspecto biológico, em primeiro lugar repousaria, nesse contexto, sobre a fêmea humana a inferioridade intelectual e também o desejo de ser dominada. Não obstante a isso, vamos observar uma análise da famosa escritora e feminista Simone de Beauvoir em seu ilustre O Segundo Sexo (1980), em que sábios materialistas “imbuídos da teoria do paralelismo psico-fisiológico, procuraram estabelecer comparações matemáticas entre organismos masculinos e femininos e imaginavam que essas medidas definiam imediatamente suas capacidades funcionais”. Beauvoir cita um exemplo em que pesquisas foram feitas para se saber o peso médio do encéfalo feminino em relação ao masculino e essa verificação comprovar a hipótese de que o homem seria superior intelectualmente em relação a mulher, dessa forma os resultados e as “discussões engenhosas” validam a hipótese.

Mas é claro, esse resultado não comprova nada, poderíamos chamá-lo como sendo parte de uma biologia socializada como coloca Pierre Bourdieu em A dominação masculina (2010), onde uma matematização do corpo é feita para se naturalizarem certas opressões, são feitas construções sociais naturalizadas e não só nesse caso é que vamos assistir o seu uso, e sim em diversos outros. A fisiologia não responde, portanto à questão da diferença intelectual entre o homem e a mulher e para Beauvoir esse paralelismo psico-fisiológico já foi há muito tempo vencido; “o homem”, ela escreve citando Merleau-Ponty, “não é uma espécie natural: é uma idéia histórica”.

Assim, Virginia Woolf, ao responder ao Falcão Afável, o interroga como ele explicaria então a produção, no século dezessete, de mais mulheres notáveis do que no século dezesseis, o dezoito mais que o dezessete e o dezenove mais do que os outros três juntos. Para a escritora não há nada em suas colocações que legitime a condição em que ele descreve a mulher e tão pouco os dados da própria história estão em seu favor. A autora ainda cita nomes como Jane Austen, Emily Brontë e Safo.

São naturalizadas as condições de frágil, histérica, incapacidade intelectual, o prazer por ser dominada, sob a mulher.

O que torna interessante nessa primeira discussão entre os dois é justamente essa condição naturalizada já mencionada; para Beauvoir (1980) os “dados da biologia” devem ser lidos à luz de um contexto ontológico, econômico, social e psicológico, a mulher é direcionada à categoria do “Outro”, o homem do “Sujeito”. Sendo o Outro, o inessencial, é colocada como mais fraca e para isso cria-se um destino biológico subserviente e inferior, onde a opressão é naturalizada. Se é que podemos ignorar o dinamismo biológico entre os corpos de diferentes homens e diferentes mulheres e partimos da premissa de que a mulher é mais fraca biologicamente do que o homem, em razão de possuir menos força muscular, glóbulos vermelhos e capacidade respiratória, recusamos, como estabelece Beauvoir, que isso seja capaz de criar um destino imutável para ela, não são o suficiente para definir uma hierarquia entre os sexos, mantê-la como o Outro. O que acontece é que a essa “fraqueza” lhe adicionam a histeria, a incapacidade, a instabilidade, a subserviência.

2 comentários
  1. Oi Lucas,

    Interessante esse embate, não conhecia. Sei que a Virginia Woolf tinha alguma coisa relacionada ao feminismo, mas não sabia em muitos detalhes. Vou procurar saber mais sobre esse livro que costuma ser citado. Gostei dela ter se chocado contra esses autores. A opressão da mulher era muito mais naturalizada do que é hoje, chegando a ponto de ser assustador quando lemos alguma coisa daquela época e nos depararmos com as afirmações mais machistas e misóginas possíveis.

    No filme “As Horas”, a Virginia Woolf apresenta uma postura e atitude questionadora perante às regras da época, criticando os médicos (“um bando de vitorianos”), as convenções. Era uma mulher de força, sem dúvida, que até teve a coragem de tirar a própria vida quando a viu insuportável.

    Valeu pelo texto!

    • Oi Adriano,

      a literatura realmente é uma arma muito forte para se discutir vários aspectos da sociedade, não é mesmo?

      Se você ainda não tiver conseguido, eu te mando o livro por e-mail; na verdade, nunca li ele completo, só umas olhadas rápidas. Mas a Virginia Woolf era realmente uma mulher de força e no filme “As horas” fica comprovado isso. Tem outros textos dela que quero também analisar nesse blog, tem um discurso dela sobre profissões para mulheres, maravilhoso, bem no estilo woolfiano.

      Agradeço pelo comentário!

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