Algumas considerações sobre os usos de “@” e “x” para desfazer marcas de gênero

Recentemente, observamos uma onda, principalmente em blogs, de uma mudança lingüística nas estruturas das palavras que exprimem uma posição de gênero feminino/masculino nas frases. Mas que problemas essa transformação gramatical pode ocasionar? Ela surte um efeito que realmente abala os sistemas de sexo/gênero? Assim, questionamos nesse texto a legitimidade nessa empreitada em prejudicar as marcas de gênero nas palavras e, consequentemente, frases.

Como pronunciar os resíduos linguísticos provocados por essa "gramática da neutralidade"?

Com o pressuposto de dar neutralidade sobre uma posição de um gênero aos textos, o uso de “@” e “x” são usados, assim, por exemplo, a frase “todos devem ser contemplados pelo direito a igualdade” é rescrita como “tod@s devem ser contemplado@s pelo direito a igualdade”/“todxs devem ser contempladoxs pelo direito a igualdade”. O uso pode causar uma mudança gramatical, alcançado, em um primeiro instante, a neutralidade pretendida, isto é, do ponto de vista estético da frase, da escrita, mas a leitura se torna impossível. Além disso, em frases como “seus professor@s/professorxs”, a concordância entre “seus” e “professores” parece inquebrável, logo, pelo primeiro momento, a neutralidade gramatical não é possível nesse caso, uma vez que “seus” denota já o gênero masculino na frase e, supondo, que pelo contrário a frase fosse “suas professor@s/professorxs”, o mesmo acontece, dado que “suas” denota uma posição de gênero masculino. “Seus” e “suas” se tornam, portanto, impossíveis de serem reescritos (até o momento), nessa nova forma de tentar neutralizar as frases e mesmo que “seu(s)/sua(s) e meu(s)/minha(s)” fossem rescritos como “s@u(s)/su@(s) – m@u(s)/minh@s” ou empregando o “x”, “seu, seus, meu, minhas” não desfazem as marcas de gênero. Já na frase “el@s/elxs são pesquisador@s/pesquisadorxs dos estudos de gênero”, o efeito gramatical de escrita surte o efeito pretendido, mas já na frase “meu companheir@ é machista”, implica na dedução de que estamos falando de um companheiro, no sentido do gênero linguístico masculino, uma vez que “meu”, e também caso fosse o emprego de “minha”, fogem da neutralidade.

Para casos como os pronomes "meu(s)/seu(s) - minha(s)/sua(s), mesmo que fosse pensada uma substituição por "@" ou "x", ainda essa substituição não desfaz as marcas de gênero de substantivos que fazem concordância com eles, uma vez que rescrita nessa nova proposta, os símbolos não ocultam a posição masculina/feminina desses pronomes e, portanto, da frase.

As discussões em torno do uso desses símbolos são bastante divergentes, mas, do ponto de vista de Beatriz Preciado em Manifiesto contra-sexual: prácticas de subversivas de identidad sexual (2002), mesmo que essas novas propostas consigam, esteticamente, erradicar marcas de gênero em substantivos, adjetivos, pronomes, desfazer os traços em que se torna possível reinscrever posições masculinas e femininas, a questão não é privilegiar uma marca linguística, nesse caso neutra, para provocar uma transformação social. Do ponto de vista contra-sexual, quando a autora afirma que o corpo é um texto socialmente construído e o sistema de sexo/gênero é um sistema de escritura, não está propondo intervenções que se reduziriam ao campo das variações da linguagem, para ela, mesmo que seja desempenhada uma escritura da neutralidade com pronomes neutros e demais variações, o que temos que colocar em evidência e abalar são as tecnologias da escritura do sexo e gênero, bem como suas instituições. 

Preciado (2002, p. 23-24, tradução minha) escreve: “Não se trata de substituir alguns termos por outros. Não se trata tampouco de desfazer das marcas de gênero ou das referencias a heterossexualidade, mas sim de modificar as posições de enunciação”. Dessa forma, por exemplo, quando pensamos no próprio termo “queer” que antes era pronunciado para indicar pessoas que rompiam com normas de gênero, sexualidade, um insulto de um “normal” em relação a um “perverso”, os corpos abjetos, o termo é descontextualizado e se torna campo de luta dos próprios “queers” que conseguem inverter a enunciação hegemônica. Também, mais significativo do que esta troca gramatical, seria, segundo a autora, a percepção de frases performativas como “é um menino/é uma menina” pronunciada no nascimento ou através da ecografia, que já forma tratadas em outro texto, tratando de evocações performativas, também o “sim, aceito” na hora do matrimônio; para Preciado, essas evocações performativas tratam-se de fragmentos linguísticos que estão historicamente carregados do poder de investir um corpo como masculino ou feminino, bem como segregar corpos que ameaçam a coerência da lógica de sexo/gênero, catalogá-los, chegando ao ponto de submetê-los a processos cirúrgicos da “cosmética sexual”. 

Enfim, em todo caso, mesmo que uma teoria da pronúncia seja colocada em marcha para a leitura dos “@” e “x” (e similares), temos que questionar que se por um lado eles reduzem as palavras a resíduos linguísticos, por outro lado, o que temos que atacar realmente são as tecnologias da escritura do sexo e do gênero, as instituições que fazem essas escrituras possíveis, bem como o corpo que é socialmente escrito, o arquivo orgânico da historia da humanidade de produção e reprodução sexual.

4 comentários
  1. Oi Lucas!

    Adorei! Você tocou nos pontos principais: a impossibilidade de ser ler “@ pesquisador@” e a impossibilidade de ser usar os “seus”, “suas”, “meus”, “minhas” com essas grafias alternativas. Usualmente, vejo as pessoas usarem “os e as professores e professoras” ou “as(os) professoras(es)”, o que é legível, mas polui bastante o texto. Ler um texto todo com essas marcas é bem complicado. O que eu tento fazer é alternar. Às vezes, privilegiar o feminino, em outras o masculino. Colocar “as meninas e meninos”, com o feminino na frente e com o artigo no feminino, tentando quebrar um pouco a ordem dita natural.

    Mas, o que o seu artigo traz é bem interessante, dizendo que, independentemente das manobras linguísticas que escolhemos, o ponto é outro. E o ponto que você aponta (com o perdão do trocadilho) é queer. Acho que a Joan Scott pode contribuir para o debate, procure o texto “Igualdad vs. Diferencia” (algo assim, em espanhol). Ela vai discutir a desconstrução de termos usando a teoria pós-estruturalista. Você precisar ler mais Scott (!), ela é muito boa e dialoga com a sua querida Preciado.

    Um grande abraço! E um Feliz Natal heteronormativo, familialista e anti-laico.

    • Oi Adriano, fico muito grato pelo comentário.

      Sua sugestão foi ótima, usar “as meninas e meninos”. Na verdade, e como em me baseio em Preciado, a questão mesmos seria usar essa alternância, chamar os dois sexos nos textos, nas falas, mas não seria uma questão de privilegiar só o feminino ou o neutro isso levaria a uma afirmação (lingüística) positiva em relação às mulheres, mas essa transformação gramatical parece não produzir efeitos consistentes. Também, ela ainda questiona que se a partir de uso de uma marca neutra, não iríamos assistir a posições de enunciações inocentes, uma voz política imaculada — ela ironiza, ela sempre ironiza, rs.

      E aí o ponto realmente é outro, são os sistemas de escritura de sexo e gênero, a política de analise critica de perceber que são sistemas de escrituras, a análise desse sistema, levando a níveis bem críticos de interpretação, o que caracteriza, numa primeiro momento, a contra-sexualidade.
      Quanto a sua exaltada Scott, já baixei o texto, vou procurá-lo ler sim, e o natal — é, ele realmente foi assim — tão performativo, igual gênero, dá até pra propor umas análises bem boas em Adriano, imagina, a performance em Butler, a paródia,… (rs., adoro!)

      Abraços,
      Lucas.

  2. Parabéns pelo texto, concordo em gênero (rs), número e grau!

    Penso humildemente que a grande questão é que a sexualidade não cabe em gênero, mas nesta relação de não pertencimento, também não existe “o neutro”! O “não gênero” não é o neutro, ao contrário ele se afirma em práticas além das gramaticais. E penso: o que é o neutro gramatica? Na língua alemã, p.ex. ele indica simplesmente um “algo” que não se deve flexionar gramaticalmente como feminino, nem como masculino!
    E o que é @? Um simples símbolo linguístico provindo do árabe que indica uma medida de peso e que é muito usado na era virtual ! Mas está longe de neutralizar o gênero, na minha opinião.

    A critica às formas linguísticas, se fossem possíveis em sua estrutura inflexível, deveriam tocar em um cerne ainda mais profundo e bizarro, o binarismo linguístico procede da metafísica original dos gregos (da estrutura do pensamento ocidental) que supunha poder dividir o mundo num sistema de pensamento único, que o cindia entre o “ser” e “não ser”, entre o falso e o verdadeiro, dentro dessa cisão, surge a maior das leis normativas linguísticas e lógicas da história da humanidade ocidental: O PRINCÍPIO DA IDENTIDADE (o que se enuncia não pode ser e não ser ao mesmo tempo). Tal princípio proibia a palavra poética e a palavra sofística e pretendia instituir a “ordem” no falar, era uma questão política.

    O neutro ainda é algo!! Ele precisa ser dito e não pode ser desdito; o neutro ainda contém marcas de uma cisão estranha, o imperativo de que algo deve ter um gênero mesmo q indeterminado. Como prega a fenomenologia é preciso velar e desvelar a linguagem, poetizar e insultar a lógica.

    Penso que neste momento deveríamos ainda direcionar para quem estamos falando, pois ainda estamos falando para “marcas de gênero” bem delimitadas; ou então deveríamos subverter total: falar no feminino com homens e no masculino com mulheres, penso que deveríamos ser mais subversivos ……mais poéticos..mas humorados …..agora eu falo pra todos! Agora falo para as homens, certos momentos para meus alunas. kekekkekeke

    Na verdade, penso mais q isso, penso q os enunciados, devem ser feitos sempre na intenção de atingir a quem escuta, mesmo que perpetue uma distinção linguística eles devem direcionar a mensagem, para ser decodificado pelos que ainda precisam decodificar suas diferenças e suas similitudes

    Adorei o texto, pois vejo q muitas blogueiras femininas (q usam “pin ups” para se identificarem e chamam o marido de “maridão”) usarem a marcação neutra, qd na verdade estão falando diretamente e muito especificamente sobre e para as mulheres em primeiro lugar e depois para todos: homens, lésbicas, trans, e simpatizantes.

    Abraços
    Érica

  3. Douglas disse:

    Com relação ao pronome possessivo SEUS, nessa caso deverá respeitar o gênero. Por exemplo: Seus e suas professores e professoras. Semples

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