Sobre as origens do neoliberalismo

A recente e aguda crise européia tem levantado algumas questões a respeito do papel do Estado sobre a economia. As tais “medidas de austeridade” remontam às políticas neoliberais que tanto oneraram o mundo, principalmente em termos sociais, nas últimas décadas. Neste texto, vamos nos atentar às origens do neoliberalismo, para podermos entender melhor seus efeitos e resultados na atualidade. Para tanto, nos basearemos no texto Balanço do Neoliberalismo, de Perry Anderson (1995).

O liberalismo clássico caminhou, aos trancos e barrancos, até o início do século passado, quando faliu junto com a quebra da bolsa de Nova York, culminando na crise de 1929. A partir de então, a política mundial passou a ser orientada pelo keynesianismo; um exemplo é o pacote do New Deal, do presidente estadunidense Franklin Roosevelt.

Friedrich Hayek (1899-1992): criticando o intervencionismo estatal e o Estado de bem-estar social, tornou-se um dos idealizadores do neoliberalismo.

Em 1944, é lançada a obra – considerada o “manifesto do neoliberalismo” – O caminho da servidão, do austríaco Friedrich Hayek. Fazendo uma analogia entre a social-democracia inglesa e o nazismo alemão, Hayek defendia que limitações aos mecanismos de mercado por parte do Estado levavam ao cerceamento de liberdades, não só econômicas como também políticas.

Três anos depois, Hayek convocou uma reunião em Mont Pèlerin (Suíça), na qual participaram intelectuais contrários ao Estado de bem-estar europeu e também os inimigos do New Deal, entre eles o importante economista Milton Friedman. Da reunião, fundou-se a Sociedade de Mont Pèlerin, com o objetivo de difundir ideias que preparassem para um novo capitalismo, duro e livre de regras para o futuro. De início, os ideais neoliberais tiveram pouca repercussão, pois o capitalismo mundial vivia uma fase de auge sem precedentes, entre as décadas de 50 e 60. Foi a partir da Crise do Petróleo, em 1973, que o jogo virou.

Milton Friedman (1912-2006): um dos grandes nomes do neoliberalismo, assessorou as reformas neoliberais do Chile e Estados Unidos.

A cartilha neoliberal, pautada economicamente pela redução da participação do Estado, aumento do livre mercado e da concorrência, e socialmente pelo corte de gastos sociais, repressão às greves e sindicatos, aumento da desigualdade e do desemprego (entendidos como valores imprescindíveis), passou a ser aplicada no final dos anos 70, quando os governos europeus deixaram de tentar remediar a crise econômica por remédios keynesianos.

Os governos pioneiros foram, na Europa, Margaret Thatcher (Inglaterra), Helmut Khol (Alemanha) e Poul Schlüter (Dinamarca). Nas Américas, Augusto Pinochet (Chile) e Ronald Reagan (EUA). Em contextos de Guerra Fria, na qual o neoliberalismo trouxe também uma versão intransigente de anticomunismo, “a onda de direitização desses anos tinha um fundo político para além da crise econômica do período.” (ANDERSON, 1995, p. 11).

O que fizeram, na prática, esses governos neoliberais? O exemplo de Thatcher, além de pioneiro, é absolutamente didático. A chefa de Estado britânica contraiu a emissão monetária, elevou a taxa de juros, baixou os impostos sobre os mais ricos, aboliu controles sobre os fluxos financeiros, criou altos índices de desemprego, reprimiu greves trabalhistas, impôs uma nova legislação anti-sindical e cortou gastos sociais. Ainda, lançou um amplo programa de privatização, que começou com a habitação pública e passou ao aço, eletricidade, petróleo, gás e água.

A repressão às greves foi uma grande marca do governo inglês de Margaret Thatcher (1979-1990), que enfrentou ostensivamente o sindicato dos mineiros.

Nos Estados Unidos, onde não havia um Estado de bem-estar nos moldes europeus, Reagan (assessorado por Friedman) tomou como prioridade a competição com a União Soviética. Apesar de ter reduzido impostos aos ricos e reprimido a única greve série de sua gestão, o presidente não seguiu a contenção do orçamento e aumentou intensamente os gastos militares, criando um déficit público sem precedentes na história norte-americana.

Nos demais governos de direita da Europa, o neoliberalismo foi menos marcado pelos deliberados cortes de gastos sociais ou enfrentamentos aos sindicatos e mais pela disciplina orçamentária e reformas fiscais. Outros governos da Europa, como o francês (Miterrand), espanhol (González), português (Soares) e grego (Papandreou), procuraram seguir uma linha mais progressista. A França, apesar de num primeiro momento ter mantido um projeto social-democrata, entre 1982-83 teve de reorientar sua política pelo neoliberalismo.

Margaret Thatcher (1925-) e Ronald Reagan (1911-2004), à frente da Inglaterra e EUA (respectivamente), governaram de modo conservador pautados pela cartilha neoliberal.

Em terras mais remotas, na Austrália e Nova Zelândia o neoliberalismo tomou proporções dramáticas. Neste último, o desmonte do Estado de bem-estar foi ainda mais completo e feroz que o realizado por Thatcher na Inglaterra. Na América Latina, tem-se o exemplo de Pinochet (também assessorado por Friedman), cujas políticas foram rapidamente mencionadas em outro texto.

Além dessa distribuição global, o neoliberalismo tornou-se hegemônico enquanto um projeto político. Uma ideologia que se instalou na política mundial, cujas práticas eram aplicadas até pelos governos auto-proclamados de esquerda. Porém, nem todos os países aderiram completamente ao neoliberalismo: Suécia e Áustria, mesmo no final dos anos 1980, ainda resistiam, assim como o Japão.

No texto seguinte, vamos discutir os efeitos que o neoliberalismo teve no mundo. Quais foram os resultados dessa política? A ideologia neoliberal conseguiu resolver os problemas que se propôs a resolver? Que outros efeitos surtiram? Acompanhe no próximo texto!

1 comentário
  1. gustavo disse:

    a palavra NEOliberal demostra que o autor do texto foi mais uma vítima da revolução cultural gramscista, alunos são transformados em repetidores de ideologias, repare desde 1964 quando os comunistas tentaram implantar o socialismo no Brasil com ajuda de 100 soldados de Cuba eles já tinham um projeto de hegemonia de pensamento, aos moldes de Cuba em que metade da grade escolar é pregação ideológica e mentiras… Mas voltando ao texto lido, diferente do que está escrito (graça as mentiras do professor esquerdista a seus alunos) foram as reformas de livre mercado (ou neoliberal como comunista gosta de dizer) que transformaram países em potências econômicas, basta ver no site do “heritage foundation” repara que os países mais liberais são os mais ricos, e que justiça seja feita, Ronald Reagan aumentou os gastos militares PQ era necessário pois a URSS invadiu diversos países do leste europeu mas não esqueça que Ronald Reagan diminuiu impostos das empresas nos EUA, não é atoa que ele foi considerado uns dos maiores presidente dos EUA.

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