Um balanço dos efeitos do neoliberalismo

No texto anterior, discutimos brevemente as origens do neoliberalismo. Em poucas palavras, apesar de ter sido idealizado na década de 1940, como uma crítica ao Estado de bem-estar social, foi só a partir da Crise do Petróleo, em 1973, que o neoliberalismo passou a ser implementado em larga escala, de forma pioneira no Chile de Pinochet, na Inglaterra de Thatcher e nos Estados Unidos de Reagan. Qual foram os resultados dessa política? Quais foram seus efeitos positivos e negativos no mundo? Esta análise será realizada tendo como base o texto Balanço do Neoliberalismo, de Perry Anderson (1995).

Se considerarmos que a prioridade do neoliberalismo foi conter a crise da época, detendo a inflação, pode-se dizer que foi exitoso. No conjunto dos países da OCDE (Organização Européia para Comércio e Desenvolvimento), a taxa de inflação caiu, em uma década, de 8,8% para 5,2%. E se os lucros das indústrias caíram cerca de 4,2% nos anos 70, aumentaram 4,7% na década seguinte. Em parte, isso pode ser explicado pela derrota do movimento sindical e contenção dos salários.

Protestos na Grécia contra as "medidas de austeridade": redução de gastos e de benefícios sociais.

Ainda, levando em conta que o aumento do desemprego e da desigualdade é uma meta neoliberal, este projeto também foi exitoso: o desemprego, nesses mesmos países, que havia ficado em 4% nos anos 70, pelo menos duplicou na década de 80. Na Espanha, o desemprego chegou a 20% da população ativa. Quanto à desigualdade: nos países da OCDE, a tributação dos salários mais altos caiu em média 20% nos anos 80, ao passo que os valores das bolsas aumentaram quatro vezes mais rapidamente do que os salários.

Em contrapartida, Anderson (1995) destaca que “todas estas medidas haviam sido concebidas como meios para alcançar um fim histórico, ou seja, a reanimação do capitalismo avançado mundial, restaurando taxas altas de crescimento estáveis, como existiam antes da crise dos anos 70.” (p.15). Os resultados, nesses quesitos (reanimar o capitalismo e restaurar o crescimento), foram absolutamente decepcionantes.

As taxas de crescimento não foram retomadas após a crise, muito pelo contrário. Nos países da OCDE, as taxas de crescimento, na faixa dos 5,5% nos anos 60, caíram para 3,6% nos anos 70 e para 2,9% nos anos 80.

Anderson (1995) observa que as condições criadas pela desregulamentação financeira, elemento essencial para o neoliberalismo, foram muito mais propícias para a inversão especulativa do que produtiva, ou seja, houve uma “explosão dos mercados de câmbios internacionais, cujas transações, puramente monetárias, acabaram por diminuir o comércio mundial de mercadorias reais.” (p. 16).

Fila de desempregados na atual crise da Espanha: um desmonte ao Estado de bem estar social.

Por outro lado, o peso Estado de bem-estar social não diminui tanto, por dois motivos principais: o aumento dos gastos sociais com o desemprego, que custaram bilhões ao Estado por via do “seguro desemprego”, e o aumento demográfico dos aposentados na população, que trouxe custos ao Estado a respeito das pensões e aposentadorias.

Apesar desse cenário tenebroso para o neoliberalismo, ele se manteve exitoso em termos políticos. Nos anos 90, a Europa foi tomada por mais uma onda de direitização, com a continuidade das políticas thatcheristas, com a ascensão de governos conservadores em países até então resistentes (como a Suécia), o êxito de Berlusconi na Itália e assim por diante. Mesmo em governos ditos opositores, como o de Clinton ou de FHC (que não se diz neoliberal), vemos marcas dessas políticas.

Uma possível razão para esse segundo alento ao neoliberalismo deve-se ao colapso do socialismo soviético. Se os governos ocidentais, adversários do comunismo, obtiveram êxito com a queda do muro de Berlim, suas políticas permaneceram. O Leste europeu, antes engajado no projeto soviético, passou a aplicar as políticas neoliberais, rejeitando o keynesianismo ou o Estado de bem-estar social.

A ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990) é uma mostra de que a democracia não é um princípio do neoliberalismo.

Na América Latina, a experiência tardou um pouco a chegar. A exceção é Chile, quando Pinochet mesclou as reformas neoliberais com uma tenebrosa ditadura. O austríaco Friedrich Hayek, um dos idealizadores do neoliberalismo, já dizia que a democracia não era um valor central para esse sistema. E, de fato, se pensarmos que o desemprego, a desigualdade e o desmonte sindical são metas desse neoliberalismo austríaco, não é difícil imaginar que um sistema não democrático o beneficie. Assim, no plano político, o neoliberalismo esteve associado ao neoconservadorismo. Nesse sentido, Pinochet, Reagan e Thatcher são exemplos ricos dessa contradição.

Um balanço final diria que:

Economicamente, o neoliberalismo fracassou, não conseguindo nenhuma revitalização básica do capitalismo avançado. Socialmente, ao contrário, o neoliberalismo conseguiu muitos dos seus objetivos, criando sociedades marcadamente mais desiguais, embora não tão desestatizadas como queria. Política e ideologicamente, todavia, o neoliberalismo alcançou êxito num grau com o qual seus fundadores provavelmente jamais sonharam, disseminando a simples ideia de que não há alternativas para os seus princípios. (ANDERSON, 1995, p. 23)

Não é que as respostas já estão dadas – como diria Marília Carvalho –, é pior: são as perguntas que já estão dadas. A quebra da hegemonia cultural e política do neoliberalismo é essencial para vislumbrarmos maiores mudanças. No entanto, talvez ainda tenhamos muito que amargurar, assistindo ao continente europeu aplicando as tais “medidas de austeridade” e enfrentando manifestações populares nas ruas. Estaremos re-assistindo a essa fita?

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