Tentando analisar o discurso do silêncio de “Eufrásia Meneses”

Livro dos Homens (2005) de Ronaldo Correia de Brito, onde o autor conta as sagas dos nordestinos.

Eufrásia Meneses é o nome do segundo conto do Livros dos Homens (2005), de Ronaldo Correia de Brito, onde a protagonista, Eufrásia, reflete sobre sua vida, sua relação com seu marido opressor, seu filho, suas angústias e sobre a seca do sertão nordestino. O autor do conto, Ronaldo Correia de Brito, nasceu no Ceará, em 1950, além de escritor, é crítico, jornalista e autor de várias peças de teatro. Para Carlos Santana, no seu artigo publicado em 2010, Introdução à leitura de Livros dos Homens (2005), de Ronaldo Correia de Brito (1950 -), os contos de Brito neste livro se tratam de um sertão nordestino atemporal, cruel, onde quase sempre aparecerá um corpo imolado, machucado; as mulheres na literatura de Brito são marcadas ou pela submissão ou pela revolta, aceitando ou rompendo seus destinos.

Assim, o monólogo realizado pela protagonista em Eufrásia Meneses pode ser analisado como um monólogo sobre sua prisão enquanto mulher frente a um homem agressivo, rude, a uma casa que lhe impõe uma moral, a um destino que lhe parece imutável. Já é fim de tarde e Eufrásia está sentada, como faz sempre, pensando sobre sua vida e ao mesmo tempo capturando elementos exteriores, é o cheiro de carne apodrecida do gado morto, é o bater de portas se fechando, o balido das ovelhas, a magreza dos animais, a fome, o sol escaldante etc. Brito parece fazer de propósito essa visibilidade de um contraste entre o ambiente exterior e o interior da personagem, sua “vida seca”, a habitação de um mundo de ausências, de mutilações, de rudeza.

Ronaldo Correia de Brito (1950 - ) mostra em seus contos um sertão nordestino atemporal e cruel, onde as personagens estão carregadas de dureza ou em contato com ela.

Eufrásia descreve a casa em que mora, é imensa, branca e alberga a alegria dos seus antigos donos, carregada com os retratos deles nas paredes. Segundo a protagonista, a casa os julga por seus atos, os vigiam, os condenam, defendem a moral dos antigos senhores, de quem seu marido é herdeiro. Desse modo, a casa cheia de lembranças se mostra como símbolo de violência, de perpetuação de uma certa moral, segundo a narração da protagonista, a casa guarda o peso cruel da presença dos antigos donos que a abandonaram e cabem a eles agora perpetuar uma herança de estirpe e quando ela pensa em outro homem a casa a reprime e Eufrásia, segundo seu discurso, é escrava dessa casa, é prisioneira dessas pessoas mortas que se nutrem dela. A casa, portanto, vigia e pune ao mesmo tempo seus moradores atuais, quando Eufrásia pensa no “outro”, ela está desfazendo a herança moralista dos antepassados e por isso é punida tão severamente, é interferindo em seus sonhos e gritando com todas as suas vozes que os antepassados castigam Eufrásia, eles precisam lembrar que agora ela é Eufrásia Meneses, casada com um Meneses, tem que manter seu compromisso para com ele, moralidade e fidelidade.

Ela fala sobre ser o objeto de prazer do marido: “Minhas veias guardam um resto de vida, alimento do meu marido. Ele deita sobre mim, funga, rosna, machuca-me sem me olhar no rosto. Depois cai para o lado. Contemplo o telhado e toco, com as pontas dos dedos, o sêmen morno que molha o lençol” (BRITO, 2005, p. 19). Pelo excerto fica claro que Eufrásia não é mais que um objeto nas mãos do marido, é a escrava e o objeto sexual, é onde ele realiza sua posse plena, sua dominação, seu poder. Pierre Bourdieu em A dominação masculina (2010) esclarece que a relação sexual é em si uma relação social de dominação, tornando-se o sexo, para os homens e sua construção da virilidade, um ato agressivo, de posse, de apropriação, de conquista orientada para a penetração e o orgasmo. Assim, o marido de Eufrásia deita sobre ela, fica por cima, numa oposição entre ativo/passivo, que segundo Bourdieu, é a posição considerada normal, onde a vagina não vista somente como “vazia”, é também o inverso, o negativo do falo.

Outro aspecto importante no conto é o casamento, se torna evidente pela narrativa da protagonista, que certas tarefas se naturalizam, certos benefícios cobrem o homem, ela cuida do filho ensina o “pranto e a saudade” e ele a “dureza e coragem”, também é obrigação dela acompanhá-lo, assim como fez quando se casaram. A escritora e feminista francesa Simone de Beauvoir em seu O Segundo Sexo (1980) nos diz que o destino socialmente proposto à mulher é o casamento, é através dele que a mulher passará a integrar a coletividade, se não se casa, transforma-se socialmente em resíduo, o casamento, portanto (antes, durante e depois) é radicalmente diferente para os dois sexos, a mulher se torna praticamente a vassala do homem, é ele o “chefe da família”, é dele que ela recebe um nome e é encarnada aos olhos da sociedade. Beauvoir escreve:

Ela toma-lhe o nome, associa-se a seu culto, integra-se em sua classe, em seu meio; pertence à família dele, fica sendo sua ‘metade’. Segue para onde o trabalho dele a chama, é essencialmente de acordo com o lugar em que ele trabalha que se fixa o domicilio conjugal; mais ou menos brutalmente ela rompe com o passado, é anexada ao universo do esposo, dá-lhe sua pessoa, deve-lhe a virgindade e uma fidelidade rigorosa. (1980, p. 169)

Para Simone de Beauvoir (1908 - 1986) o destino que a sociedade propõe tradicionalmente à mulher é o casamento e, ainda hoje, o casamento se apresenta de maneira radicalmente diferente para o homem e para a mulher.

Adiante, Beauvoir (1980) dirá que o casamento outorga ao homem a síntese feliz, e pela sua percepção de repetição, imanência e transcendência, o homem transcende, a mulher fica sob a repetição e a imanência, o homem conhece o progresso, a mudança, tem uma vida política, casa-se quando se cansa de dispersar através do tempo e do universo, é ele quem funda um lar e quando chega a noite do serviço, como é o caso descrito por Eufrásia, retorna a sua casa onde sua mulher cuida da limpeza dos móveis e dos filhos. Assim, o destino da mulher torna-se repetitivo e imanente, longe de qualquer transcendência, ela mantém e sustenta a vida em sua pura e idêntica generalidade, perpetuando a espécie imutável, a passiva, a reprodutora, a receptora de sêmen, o objeto sexual, assim seus dias asseguram essa mesmice, no seu lar, com as portas fechadas, ela só alcança a coletividade através do esposo.

Eufrásia continua sentada ainda refletindo, o filho que está deitado dormindo em uma rede, é ao mesmo tempo o que ameniza sua dor e será também sua vingança contra esse marido bruto, ela vai educá-lo do jeito dela. Um dos vaqueiros vem lhe avisar que seu marido não retornará esta noite, há uma festa perto dali, onde, segundo ela própria, se ouvirão até de madrugada os gritos de prazer e a música. Eufrásia continua seu monólogo, seu discurso psicológico, discurso do silêncio, do fluxo de consciência, assim conforme nos esclarece Santana (2010), a voz audível da protagonista não está presente em nenhum momento do conto, ela não questiona verbalmente sua condição, apenas vai remoendo seus pensamentos pelas tardes quentes e fatigantes do sertão. Ela é sem dúvida mais um corpo mutilado exposto pelos contos de Brito, não fisicamente, mas sem dúvida, psicologicamente.

1 comentário
  1. Parabéns pelo texto, Lucas. Não tive ainda a oportunidade de ler o livro de Ronaldo Brito, mas fiquei muito interessada na leitura depois de ler essa análise. Abraços e Sucesso.

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