Termina um ano, começa outro, e que década é esta?

Caras(os) leitoras(es),

“Estamos no início de uma década quente”, foi o que disse o professor de filosofia Paulo Arantes, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), em uma mesa redonda que aconteceu no contexto das manifestações estudantis contra a Reitoria e a Polícia Militar na Universidade. Penso: estaremos mesmo vivendo o início de uma década que marcará a história mundial?

As últimas “décadas quentes” talvez tenham parado, arrisco dizer, em 60 ou 70. Todos rememoram a data de 1968 como um ano absolutamente fervoroso, tanto no Brasil quanto fora dele.

A geração da década de 90 acompanhou o crescimento exponencial das tecnologias de comunicação.

Eu, por outro lado, nasci no fim da década de 80, ano em que o muro desceu e Collor subiu. Sou de uma geração, para se dizer, insossa. Crescemos juntos com as tecnologias de comunicação que foram progressivamente nos engolindo. Fomos a geração mais jovem a acessar Orkut, MSN ou ter um e-mail próprio. Hoje, as crianças de classe média com 5 anos de idade já tem celular, mas lavo as minhas mãos.

A década de 90 foi de uma morosidade que dói. No Brasil, praticamente se resumiu a tentativa de conter a inflação. Os anos 2000 esquentaram um pouco, mas não tanto quanto prometiam: o atentado às torres gêmeas, em 11 de setembro de 2001, deu um alô, mas a década não acompanhou à altura.

Desde a queda do socialismo soviético, vivemos, no mundo ocidental, na unanimidade (burra) de um discurso capitalista democrático. A impressão que fica é a de que vivemos no “melhor dos mundos possíveis”, como diria Pangloss em Cândido do Voltaire, e que os problemas atuais, que não são pequenos, poderão ser resolvidos com pequenos ajustes: uma lei aqui, uma fiscalização acolá.

A Revolução do Egito: no contexto das manifestações da Primavera Árabe, chacoalhou o ano de 2011 e aponta para mudanças futuras.

Isto é uma farsa. E 2011 a desmascarou com grande força: assistimos aos acampamentos de Wall St., à greve estudantil chilena, às revoluções árabes e às manifestações européias diante da crise que, em comum, diziam em uníssono: queremos uma democracia de verdade. Talvez por ser um tanto idealista, eu supervalorize esses eventos, entendendo-os como um sinal de que, a partir dos próximos anos, mudanças substanciais acontecerão. E quero continuar acreditando, ainda que me provem que eu esteja errado.

Aqui no blog, continuaremos escrevendo, principalmente sobre questões feministas – que ainda estão bastante vivas! – e os temas relacionados à educação e política, priorizando as relações de gênero. Há vários assuntos que da minha parte serão trabalhados neste próximo ano, alguns planos:

– estou montando um dossiê para analisar a política do Ensino Fundamental de 9 anos, discutindo o percurso de implantação dessa política, os conflitos dessa modalidade de ensino com a educação infantil, os impactos da antecipação da escolarização nas crianças, entre outros.

O ensino fundamental de 9 anos, que implica na antecipação da escolarização das crianças, será discutido neste blog no início de 2012.

– ainda no tema de Educação, vou escrever sobre outras questões que me parecem particularmente relevantes e que são pouco discutidas de forma séria e aprofundada: o ensino em ciclos e a progressão continuada, os impactos do trabalho infantil na escolarização de meninos e meninas, e a relação público-privado na educação básica e superior, que servirá de base para discutir a privatização da educação, já posta em andamento há uns bons anos. Para este último tema, os textos já escritos sobre a meritocracia e sobre o neoliberalismo serão bastante úteis.

– no que tange especificamente a gênero, pretendo me aprofundar em algumas autoras que gosto muito e que até agora negligenciei: a australiana Raewyn Connell, com seus estudos sobre masculinidades, e a norte-americana Barrie Thorne, com sua etnografia de gênero na educação básica. Tenho leituras programadas sobre bell hooks.

É mais ou menos sobre isso que pretendo escrever nos primeiros meses de 2012. Junto com Lucas Passos, procuraremos divulgar mais o blog, a fim de aumentar o nosso público, o que poderá render boas discussões nos comentários. Também vamos repensar algumas formas de organização dos textos, visando facilitar o acesso aos variados temas.

Por enquanto, apenas posso desejar que tenhamos um 2012 muito bom, com muitos ganhos, aprendizagens e descobertas. E espero (não no sentido de “aguardar”, mas de “esperançar”) que, de fato, estejamos no início de uma década quente. Quente a ponto de ferver as tensões caladas, a falsa unanimidade da democracia liberal e o puritanismo conservador sobre as relações raciais, geracionais, sexuais, de classe e de gênero.

Que venha 2012!

2 comentários
  1. Nossa! Fiquei empolgado com o seu post. Ele praticamente é um chamado para o engajamento no sentido sartriano.

    Quanto as últimas décadas, compartilho dessa impressão de que no sentido político, ela foi um tanto amorfa, com apenas algumas ressalvas já citadas ao longo do seu belo texto..

    No mais, também pretendo ajudar na divulgação desse blog, na medida do possível, fazendo trabalho de formiga.

    Uma outra coisa, na legenda da Primavera Árabe você colocou que a revolução do Egito chacoalhou o ano de 2012, sendo que obviamente foi o de 2011.

    Abraços e um ótimo começo de ano pra vocês.

    • Oi Inã,

      Bom saber que o texto tem um efeito estimulante para o engajamento. Obrigado!

      Sim, as décadas foram meio sem graça e eu espero muito que a coisa mude. Gostaria muito de ver o mundo chacoalhando mais. Se acompanharmos a história, veremos que as coisas são assim, não, por ondas, tendências, momentos. O século passado foi um século bem interessante, com mudanças essenciais para entender o mundo atual. Acho que está na hora do século XXI começar a aparecer.

      Aqui no Brasil, porém, acho que assistiremos às novidades no mundo anestesiados por sermos a “6ª maior economia do mundo”, numa versão moderna do desenvolvimentismo. Não vejo muitas perspectivas de mobilizações da sociedade brasileira.

      Valeu pela correção (já arrumado!) e pelo comentário!

      Abraços!

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