Alguns problemas da dicotomia sexo/gênero em Beauvoir

Minha leitura foi interrompida (eu era jovem então) pela expressão “torna-se”. Um mundo inteiro se abriu diante de mim, indicava-se uma distinção entre sexo e gênero, sugeria que não havia nenhuma obrigação de passar do estado de fêmea para o estado de mulher. (Um dos depoimentos de Judith Butler para o documentário “Simone de Beauvoir: one ne nait femme…”, realizado por Virginie Linhart. France 5 / Zadig Productions / Sobifer, 2007)

Se a gente não nasce mulher, mas se torna mulher, como afirmou Simone de Beauvoir, então haveria uma série de significados culturais que seriam inscritos sob um corpo sexuado, logo, gênero seria esses significados culturais inscritos e o corpo sexuado o meio passivo pelo qual esses significados são inscritos. Mas, sendo assim, o sexo seria sempre imutável, a-histórico, independente de gênero e, portanto, duas categorias distintas e dicotômicas.

Para Judith Butler (1956 - ), a dicotomia sexo/gênero implicava consequências radicais.

Judith Butler, em Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade (2008), reclamará que se Beauvoir considera sexo e gênero categorias distintas, então poderíamos considerar que determinado gênero não decorre de determinado sexo, isto é, ser de uma dado sexo não é necessariamente tornar-se de um gênero, ou ainda, “mulher” não é precisamente uma categoria que expressa a construção cultural do corpo feminino, bem como a categoria “homem” não expressa a construção cultural do corpo masculino. “Essa formulação radical da distinção sexo/gênero”, escreve Butler (2008, p. 163), “sugere que os corpos sexuados podem dar ensejo a uma variedade de gêneros diferentes, e que, além disso, o gênero em si não está necessariamente restrito aos dois usuais”.

Nesse sentido, a autora coloca um ponto importante para ser discutido: se sexo e gênero são categorias distintas, decorre daí que o gênero feminino poderia vir de um corpo masculino e vice-versa, uma vez que não se nasce mulher, mas se torna, o sexo não causa gênero, mas abre uma possibilidade de significados. Logo, por que os gêneros devem permanecer em número de dois? Isto é, pode haver nessas muitas interpretações do corpo, aquela que não expressem nem a categoria “mulher”, nem a categoria “homem”, haveria outras maneiras de interpretar o corpo sexuado. O que queremos destacar, com base na crítica feita por Butler a teoria de Beauvoir, é que, pela dicotomia sexo/gênero, o sexo é sempre apresentado como um fato, o gênero como adquirido (ninguém nasce com um gênero), o gênero seria a construção variável do sexo, mas ao mesmo tempo essa teoria apresenta sexo e gênero como categorias tão distintas e descontínuas que poderíamos, de cara, dizer que não há justificativa para que os gêneros permaneçam em número de dois, uma vez que o corpo sexuado abriria uma possibilidade significativa de interpretação, logo para além do masculino/feminino.

Para Butler, a noção de gênero deve ser reformulada, mas não partindo do sexo como não-construído, como um meio passivo que age significados culturais.

“Quando o status construído do gênero”, argumenta Butler (2008, p. 24-25), “é teorizado como radicalmente independente do sexo, o próprio gênero se torna um artifício flutuante, com a conseqüência de que homem e masculino podem, com igual facilidade significar tanto um corpo feminino como um masculino, e mulher e feminino, tanto um corpo masculino como feminino”. Ademais, se o sexo, como colocará a mesma autora em Cuerpos que importan: sobre los límites materiales y discursivos del “sexo” (2002), é definido anterior ao gênero, então ele será em si uma construção anterior a uma outra construção e, dessa forma, como “acessar” o sexo? O sexo não seria absorvido pelo gênero? Mas, se o sexo é absorvido pelo gênero, haveria um acesso direto para se chegar a este sexo?

Butler (2008, p. 25) argumentará que o gênero não deve ser simplesmente definido com a interpretação cultural do sexo, mas “tem de designar também o aparato mesmo de produção mediante o qual os próprios sexos são estabelecidos”. E ainda, gênero “também é o meio discursivo/cultural pelo qual a ‘natureza sexuada’ ou ‘um sexo natural’ é produzido e estabelecido como ‘pré-discursivo’, anterior à cultura, uma superfície politicamente neutra sobre a qual age a cultural”. Para a autora, a noção de gênero precisa ser reformulada, não partindo do sexo como não-construído, mas sim abrangendo as relações de poder que produzem o efeito de um sexo pré-discursivo, pelas quais se estabelece e se assegura a dualidade do próprio sexo e também abrangendo as relações de poder que ocultam a própria operação da produção discursiva. Essa reformulação da autora será o objetivo dos próximos textos, a começar pela análise sobre a categoria “sexo” da feminista francesa Monique Wittig. Aguardem!

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