Trabalho infantil: a principal causa dos problemas escolares dos meninos?

O trabalho infantil, exercício de tarefas remuneradas dentro ou fora do domicílio, é usualmente visto sob uma ótica negativa, sendo ele considerado o principal fator dos problemas de escolarização, sobretudo a defasagem série/idade e a evasão escolar. Em países latino-americanos, incluindo o Brasil, os meninos apresentam desempenhos inferiores se comparados às meninas. Dado que são eles a principal força do trabalho infantil extradomiciliar, a diferença de desempenho entre os dois sexos é com frequência atribuída ao trabalho infantil. Neste texto, discutiremos se essa tese é realmente válida.

Pesquisa de Amélia Artes e Marília Carvalho (2010) apresentam dados do IBGE e da PNAD, de 2006, os quais mostram que na faixa etária de 5 a 17 anos, 11,5% das crianças trabalhavam, totalizando 5,1 milhões, entre os quais havia predominância de meninos (na faixa etária dos 10 aos 14 anos, por exemplo, tínhamos 11,1% dos meninos e 5,9% das meninas no trabalho – não estamos considerando, neste texto, os afazeres domésticos). Em primeiro lugar, é curioso notar que uma parcela significante de jovens não estudam e nem trabalham: entre 10 e 14 anos, 28,7% dos meninos e 11,7% das meninas.

Se o trabalho infantil é a principal causa do abandono escolar, como explicar os 76 mil rapazes de 10 a 14 que não trabalham e nem estudam?

Nessa faixa etária, como explicar os 76 mil rapazes que não frequentam a escola ou o trabalho? Se o trabalho infantil é o grande “vilão” da escolarização dos meninos, o que levaria esses garotos a não exercerem nem um, nem outro? Será que desistiram da escola para procurar emprego? Ou será que há outros fatores levando a altas taxas de evasão escolar?

Os dados de defasagem escolar são ainda mais alarmantes. Na mesma faixa etária, 52,5% dos meninos e 41,7% das meninas estão defasados, isto é, cursam uma série em desencontro com a idade esperada. Essa defasagem é maior para negros e habitantes de Estados brasileiros de baixo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) para ambos os sexos, mas este aspecto não será tratado nesse texto. Vamos, então, aos efeitos do trabalho infantil:

Pela tabela abaixo, vê-se há relação entre trabalho infantil e defasagem escolar, pois a proporção de meninos e meninas defasados aumenta significativamente quando os mesmos trabalham (colunas 3 e 4). No entanto, vemos que fica uma questão em aberto: apesar da correlação entre trabalho infantil e defasagem escolar, ainda temos 50,5% de meninos e 41,3% de meninas que não trabalham, mas estão defasados. Além de nos perguntarmos o que estaria levando a essas altas taxas de defasagem, teríamos que questionar por que meninos e meninas são afetados distintamente.

Defasagem série/idade, por sexo e trabalho (10 a 14 anos) - note a variação na 'proporção de defasados por trabalho' (Fonte: Microdados PNAD 2006; extraído de ARTES & CARVALHO, 2010)

A tabela acima é bastante elucidativa, mas apresenta algumas limitações. É necessário levar em conta o perfil mais completo dos indivíduos, pois podem existir outras informações relevantes por trás da variável que estamos considerando. “Somente é possível afirmar que o trabalho exerce algum efeito”, explicam Artes e Carvalho (2010, p. 57), “se compararmos indivíduos de perfis semelhantes que difiram, apenas, em sua condição de trabalhador.” Para isso, as autoras desenvolveram uma modelagem estatística que chegou aos seguintes resultados:

Comparados a uma mulher que não trabalha, os homens apresentam um risco crescente de defasagem escolar: 43,6% para homens que não trabalham, 116,2% para homens que trabalham por um período de 1 a 10 horas semanais , 167,0% para homens que trabalham por um período de 11 a 20 horas, e 213,3% para homens que trabalham por um período de 21 horas ou mais.

Meninos são mais suscetíveis aos problemas escolares em função do trabalho infantil, de modo proporcional ao número de horas dedicadas ao trabalho.

É interessante notar que, para jovens que não trabalham e controlando as demais variáveis, pelo simples fato de ser “homem”, o risco de defasagem aumenta em 43,6%. Isto significa que outros fatores – para além do trabalho, da raça ou do IDH – prejudicam a escolarização dos meninos.

Uma reflexão a respeito do significado desses dados é absolutamente necessária. Como mostramos, existe, sim, uma associação entre trabalho infantil e defasagem escolar. Essa associação é crescente de acordo com o número de horas dedicadas ao trabalho por semana. Porém, se na faixa etária de 10 a 14 anos, 11,1% dos meninos e 5,9% das meninas trabalham, enquanto 52,5% deles e 41,7% delas estão defasados, como sustentar a ideia de que as dificuldades escolares, sobretudo enfrentadas pelos meninos, estão enraizadas no trabalho infantil?

Em outras palavras, de cada 10 meninos, apenas 1 trabalha, mas 5 estão defasados. O trabalho infantil pode até ajudar a explicar a defasagem desse um aluno, mas certamente não explica a defasagem dos outros quatro. “É muito provável”, ilustra Alda Alves-Mazzotti (2002, p. 89), “que trabalho infantil e ‘fracasso escolar’ estejam relacionados não porque o primeiro seja causa do segundo e sim porque ambos são consequências dos mecanismos excludentes que perpetuam pobreza.”

A relação entre trabalho infantil e dificuldades na escola pode ser inversa ao usual, com os problemas escolares levando a criança ao trabalho.

A autora ainda sugere que invertamos a relação entre os problemas escolares e o ingresso no mercado de trabalho. Em vez de o trabalho infantil gerar as dificuldades escolares, talvez ocorra justamente o contrário: a repetência, a violência escolar, a “falta de sentido” do aprendizado, entre outros, estimulem o jovem (principalmente meninos) a abandonarem os estudos e ingressarem no mercado.

Ao responsabilizar o trabalho infantil, o discurso do senso comum pode estar mascarando problemas internos à escola que, se não foram levantados, se perpetuarão. Ao olhar apenas para o trabalho infantil, portanto, poderíamos estar olhando para o ponto errado. Não que essa modalidade de trabalho, frequentemente realizada em condições subumanas, não mereça ser discutida.

Uma análise à altura merecia uma discussão mais aprofundada, que será trabalhada em outro momento. No próximo texto, vamos discutir o peso do trabalho doméstico, que é usualmente negligenciado por ser uma atividade realizada dentro de casa, não remunerada e com flexibilidade de horários.

2 comentários
  1. Ótimo texto Adriano!

    Realmente eu nunca tinha olhado por esse lado, mas agora pensando o contrário, como que fatores escolares podem influenciar um indivíduo a deixar a escola e ingressar no mercado de trabalho, outras possibilidades de análise se abrem. E se torna muito interessante pra nós, futuros professores, podermos partir dessa análise fora do discurso dominante, para repensarmos essas questões.

    Mas Adriano, se o a situação pode ser pensada de forma inversa, em nome de quê é mantido o discurso de que é o trabalho infantil que gera as dificuldades escolares?

    Abraços.

    • Oi Lucas,

      Concordo que novas possibilidades de análise se abrem. Averiguar se o fracasso escolar estaria levando os alunos ao trabalho não é uma tarefa simples. Mas as pesquisas da Alda Alves-Mazzotti, que eu mencionei, mostram que muitas vezes os estudantes e pais fazem uma representação acerca do trabalho infantil que é diferente do usual. Geralmente, todo mundo fala do trabalho infantil como algo explorador, prejudicial. Há famílias que, pelo contrário, afirmam que o trabalho ajuda a criar senso de responsabilidade, que até melhora o aluno na escola, só para você ter uma ideia.

      A respeito da sua pergunta, Lucas, acho que ela toca numa coisa que é a cultura escolar e as ideias dominantes sobre a educação. Esse discurso se reproduz da mesma forma que a ideia de que a reprovação ajuda no desempenho escolar, embora inúmeras vezes já tenha se demonstrado que não; se reproduz como a concepção de que os meninos são melhores em matemática. Enfim, você que lê sobre os discursos que se reproduzem, que inscrevem uma heteronormatividade e etc. Então, imagine algo semelhante para a educação: é um ciclo vicioso, um senso comum na melhor acepção do termo.

      Abraços!

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