A categoria do “sexo” em Monique Wittig: para além da natureza

No se nace mujer (Não se nasce mulher), esse é o título de um artigo da feminista francesa Monique Wittig publicado originalmente em 1981, na Feminist Issues, que depois compôs seu livro El pensamiento heterosexual (2006). “Não se nasce mulher”, Wittig retoma um trecho da frase da também feminista francesa Simone de Beauvoir, mas não retoma de todo seu pensamento, junto a seu outro artigo La categoria de sexo, a autora oferece uma crítica radical contra a categoria “sexo”, também contra “a mulher”, sujeito do feminismo, e as leituras sob o determinismo biológico da história, que excluem os fatos sociais. Trataremos hoje de como Wittig interpreta a categoria sexo: sexo seria uma base natural, biológica? Os corpos tomados em seu sexo constituiriam também grupos naturais? As pessoas são interpretadas desde sempre como homens e mulheres?

Para a feminista francesa Monique Wittig (1935 - 2003), a categoria do "sexo" é causado por diferenças sociais e depois colocadas nas relações masculino/feminino, macho/fêmea e sempre sob o efeito de serem categorias naturais.

Wittig não interpreta simplesmente o sexo como um dado natural, uma característica física do corpo que por si separa dois grupos, o homem e a mulher. Mas ao deslocar-se dessa interpretação em que o sexo é pensado, principalmente por feministas baseadas na dicotomia sexo/gênero, onde sexo adquire as possibilidades descritas (uma base biológica por age a cultura, o gênero), que tipo de rupturas a autora está propondo? Aliás, que maneira de analisar o sexo (categorias?) ela propõe? O “sexo” é sim uma categoria na sua linha de pensamento e uma categoria política, não há nada de natural. No artigo La categoria de sexo (2006a), Wittig esclarecerá que a diferença sexual, que é ideológica, oculta a oposição social entre homens e mulheres e faz com que sua causa seja a natureza, assim, haveria diferenças sociais que sempre implicam em uma ordem econômica, política, ideológica e depois essa diferença seria falseada pela suposta invocada natureza, masculino/feminino, macho/fêmea são as categorias que servem para dissimular esse fato, a “biologia” se torna destino, justificativa, obriga a isto ou aquilo etc.

Nesse sentido, adotando uma posição que pretende ser feminista e materialista, Wittig (2006a) considera que podemos interpretar que como não existem escravos sem amos, não existem mulheres sem homens, e consequentemente, a oposição que se mostrava natural, revela-se social a partir do momento em que os escravos se revoltam e começam uma luta de classes. Logo, a partir do momento que as mulheres começam uma luta de classes, seria resolvido as contradições entre os sexos, essa contradição seria minada quando compreendida. Assim o empenho de Wittig (2006a, p. 22) é mostrar que “não existe nenhum sexo. Só existe um sexo que oprime e outro que é oprimido. É a opressão que cria o sexo, e não o contrário”, que o “sexo” é uma criação política dentro e pelas relações sociais, mas o pensamento dominante, que é o da classe dominante (retomando Marx e Engels), faz com que pareça que os “sexos” sempre existiram, precedendo qualquer pensamento e qualquer sociedade.

Além disso, Wittig (2006a, p. 25) afirma que a dominação nos ensina que: (i) sempre existiram os “sexos” e a pressuposta diferença sexual tem consequência ontológicas; (ii) os “sexos” seriam “naturalmente”, “biologicamente”, “hormonalmente” ou “geneticamente” diferentes e essa diferença gera consequências sociológicas e (iii) existem uma divisão natural do trabalho na família que se funda sobre a origem da divisão do trabalho no ato sexual. A categoria “sexo” impõe também as verdades do “sexo”, isto é, as relações homem/mulher, macho/fêmea humana, pênis/vagina, corpo masculino/feminino, é, portanto, uma categoria política que funda a sociedade enquanto heterossexual. Logo não se trata de ser do sexo masculino ou feminino, mas são, antes de tudo, relações, o homem e a mulher se revelam em seu pensamento como o resultado de relações, são o que mantêm a economia heterossexual. Wittig (2006b) esclarece que as mulheres não são um grupo natural, mas são, antes, um grupo de homens (a autora sugere que os homens não sejam sexuados, seus corpos não são marcados, por isso adquirem o status de sujeito universal) específicos em seus corpos (marcados particularmente).

Porém, tanto para Beauvoir quanto para Wittig, só as mulheres são tomadas em seu “sexo”, o corpo sexuado, ou melhor, “sexo” funda-se com a sociedade heterossexual e com essa heterossexualidade compulsória a categoria do sexo é sempre mulher, é o que une todas as mulheres, umas vez que elas não podem ser concebidas fora dessa categoria. Wittig (2006a, p. 28, tradução minha) escreverá: “Só elas são sexo, o sexo, e seus espíritos se converteram em sexo, seus corpos, seus atos, seus gestos; inclusive os assassinatos de que são vítimas e os golpes que recebem são sexuais. Sem dúvida a categoria do sexo aprisiona firmemente as mulheres”. Continuando a leitura, Wittig nos diz que é a categoria do sexo que determina a escravidão da mulher e ela opera em uma redução, semelhante aos escravos negros, onde uma parte é tomada como todo, assim são a cor e sexo as partes que são tomadas como “todos”, um sinédoque forçosamente trabalhado sobre os corpos para que estes sejam sempre tomadas nas “partes” que se desejam que sejam tomadas.

Para Wittig a categoria do "sexo" é o produto da sociedade heterossexual que impõe as mulheres as obrigações de reproduzir "a espécie", ou melhor, a própria sociedade heterossexual.

A filósofa estadunidense Judith Butler, em seu Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade (2008) escreve: “Para Beauvoir — como para Wittig — a identificação das mulheres como o ‘sexo’ é uma fusão da categoria das mulheres com as características ostensivamente sexualizadas dos seus corpos e, portanto, uma recusa a conceder liberdade e autonomia às mulheres, tal como as pretensamente desfrutadas pelos homens” (p. 41). Wittig ainda argumentará que a categoria do sexo é colocada para as mulheres de forma que necessitam de seus inquisidores, tribunais, leis, a categoria “sexo” forma o espírito e o corpo das mulheres, se estabelece de tal maneira que as mulheres não pensam fora do seu sexo. Desse modo, a solução para Wittig é destruir a categoria do “sexo”, pensar além da categoria “sexo”, abolir o “sexo”, ela escreve “O que/A que esperamos?”.

Com a categoria do sexo destruída, estaríamos destruindo um atributo, o sexo, que foi forçosamente trabalhado para tomar o lugar da pessoa (por meio de um efeito de sinédoque), onde o feminino foi linguisticamente investida como marcado, enquanto o masculino se apresenta universal (BUTLER, 2008), por isso as mulheres são o sexo, Wittig tenta mostrar que o sexo é sempre feminino uma vez que as mulheres não podem ser tomadas fora do seu “sexo” e por ele estão presas. Wittig citada por Butler (2008, p. 42) escreverá também que só existe um gênero, o feminino, “O gênero é o índice lingüístico da oposição política entre os sexos. E gênero aqui é usado aqui no singular porque sem dúvida não há dois gêneros. Há somente um: o feminino, o ‘masculino’ não sendo um gênero. Pois o masculino não é o masculino, mas o geral”.

A destruição proposta por Wittig, Butler (2008) afirma a seu respeito que a autora enseja que as mulheres deixem ter um status relativo e particular e possam assumir o status de sujeito universal, mas em busca dessa destruição, as “mulheres” (Wittig pensa que como luta de classes, só as mulheres, classe oprimida, devem começar a lutar e todas as mulheres) devem assumir um ponto de vista tanto particular quanto universal. Mas como exatamente destruir a categoria do sexo? O que Wittig propõe? Como recusar a heterossexualidade compulsória? Como não ser nem homem nem mulher?

4 comentários
  1. Letícia Tavares disse:

    Lucas, muito boa sua reflexão em torno da dicotomia sujeito/gênero. Tenho acompanhado seu crescimento, traduzido em visível maturidade acadêmica. Tem um livro lá em casa para você, quando estiver em PIR me avise. Boas férias.
    Letícia

    • Letícia querida,
      fico muito agradecido pelo comentário.
      É claro que boa parte disso é graças a senhora.

      Agora estou ansioso pra saber qual livro,
      quando estiver aí, vou avisar sim, se bem que podíamos marcar um dia, um café.

      Boas férias pra senhora também,
      abraços afetuosos,
      Lucas.

  2. Oi Lucas,

    Eu conhecia só um pouco do pensamento da Monique Wittig por meio do que a Butler escreve sobre ela no “Problemas de Gênero”. Foi interessante conhecer e um pouco. De fato, Wittig retoma Beauvoir em vários pontos, dando uma nova roupagem àquela antiga teoria, adequando-a às questões da atualidade. Mas não sei se concordo com tudo, porque é uma discussão bastante téorica, depende única e exclusivamente do ponto de vista que você escolhe. Pode chegar uma outra autora, como a Lucy Irigaray (também mencionada por Butler), falar uma coisa oposta à da Wittig, e eu concordar também, rs, porque não sinto que conseguiria me posicionar nesse debate.

    Vou comentar algumas partes do texto:

    – a respeito do que “a dominação” nos ensina. Em primeiro lugar, eu acho que é importante falar em “dominações”, porque a opressão masculina não é una. Aquela imagem do patriarcado universal, uma opressão única fundada em determinado momento da história, já está um tanto desgastante.

    – as lições da “dominação”: (1) de que o sexo sempre existiu; bom, vale a crítica, uma vez que “sexo” é uma construção social, mas não podemos perder de vista que os corpos sempre foram como são, e só mudaram no peso que eles tem recebido para as análises; independente de existir sexo ou não, desde que a nossa espécie existe, há órgãos que ejaculam, bolsas escrotais que produzem sêmen, etc. (2) sobre as diferenças terem consequências sociológicas, acho que é a própria conceituação de determinismo, concordo com a crítica; mas só não podemos esquecer que há diferenças nos corpos humanos, que se expressam por anatomias distintas, composição genética e hormonal. Não acho que sejam diferenças tão fortes a pontos de fundarmos dois sexos absolutamente diferentes, que pensam, agem e se colocam na sociedade em lugares distintos, que são de naturezas variadas, que um de Marte e outro de Vênus. Mas não vamos ignorar que existem diferenças “biológicas”. Uma teoria feministas que procurasse passar por cima disso teria que explicar muita coisa, seria desgastante. Não é o ponto de procurarmos ocultarmos as diferenças, mas pensar o que faríamos com elas. Neste caso, justamente por ser bióloga, a autora Anne Fausto-Sterling pode nos responder a algumas dúvidas. Ela, que estuda o corpo em termos biológicos, mas que interpreta seus resultados a partir de análises de Butler e Scott. Sobre o ponto (3), concordo com a crítica.

    Eu só faria uma outra ressalva: a Wittig diz explicitamente que as mulheres são uma classe social? Porque, até onde sei, não se pode considerar as mulheres uma classe social. A luta delas não é uma luta de classes. Existem mulheres de classe média, mulheres ricas (da Band, rs), negras, de países do Oriente Média, lésbicas, cristãs, que apresentam demandas e origens diferentes e não se constituem enquanto uma classe social. A mulher sobre a qual a Betty Friedan fala é uma, a mulher sobre a qual bell hooks fala é outra.

    Enfim. Gostei bastante do texto!

    Abraços!

    • Oi Adriano,
      eu também só conhecia pela leitura em Butler. Mas depois, quando no final do Problemas de gênero, a Butler volta a questionar a teoria de Beauvoir (principalmente a frase), aí eu vi que ela esboça a teoria da Monique Wittig, até o subtítulo que ela faz essas duas coisas é Monique Wittig: desintegração corporal e sexo fictício (do capitulo3). Então eu procurei alguns textos dela, principalmente os artigos que a Butler cita e felizmente eu encontrei. Eu adorei Monique Wittig, tem muita coisa que se aproxima da Beauvoir, se distancia dela também e a Butler aproveita muitos pontos do pensamento de Wittig.

      Sobre as partes do texto comentadas, partilho também do mesmo ponto de vista e as mulheres da Band foi ótimo, rs! Definitivamente não se pode falar de uma classe social das mulheres.

      Abraços,
      Lucas.

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