Além do feminismo liberal: é tempo de superar o discurso da igualdade

As primeiras pautas do feminismo, enquanto um movimento político que ganha relevância a partir do século XIX, giravam em torno da garantia da condição humana às mulheres, a conquista da cidadania plena. Nos países ocidentais, o direito ao voto, o acesso a escolas, a possibilidade de trabalhar fora de casa, entre outras reivindicações, marcaram o que ficou conhecido como a primeira onda do feminismo. Muitas dessas pautas ainda fazem sentido atualmente, ainda que a forma de concebê-las possa ser bastante distinta entre diferentes escolas ou vertentes. Nesse sentido, o feminismo liberal é a que mais se aproxima dos primórdios do movimento feminista.

Luta pelo sufrágio universal na França: entre as primeiras pautas do movimento feminista.

O feminismo liberal, como o próprio nome sugere, toma emprestados os conceitos do liberalismo clássico estendendo-os às reivindicações das mulheres. Entra, nessa equação, a defesa dos “direitos naturais”, sobretudo a liberdade do indivíduo. Nessa concepção, se o Estado não promover a igualdade de oportunidades, equiparando direitos e condições aos homens, as mulheres continuarão como grupos oprimidos (SCHOLZ, 2010). Embora essa vertente tenha trazido ganhos indiscutíveis às mulheres, é tempo de todas/os aquelas/es que se solidarizam com o feminismo superá-la.

Reivindicar a igualdade social entre mulheres e homens, assim dito, se mostra uma pauta frágil. bell hooks (2000) destaca que se os homens não são iguais entre si, porque vivemos em uma “supremacia branca, capitalista e de estrutura de classes patriarcal” (p. 19), questiona-se a quais homens as mulheres almejam se equiparar. A autora observa que mulheres de grupos mais oprimidos, como as negras ou de baixa renda, percebem com maior nitidez que as condições das mulheres são absolutamente heterogêneas na sociedade, assim como de seus parceiros homens, sendo uma heresia chamá-los pelo singular: a mulher e o homem.

A expressiva representação política dos homens vista como um dos principais alvos da concepção liberal do feminismo.

Vertentes do feminismo liberal levantam bandeiras exigindo reformas provenientes do Estado. As pautas são legítimas, dado o peso da estrutura estatal na vida das pessoas, mas não criticam a fundo as opressões. Pois ao tomar um conceito de direitos no bojo dos valores democráticos liberais, essas feministas também adotam um conceito particular de Estado. Para elas, o Estado é um árbitro em essência neutro, garantidor dos direitos e liberdades individuais e mediador dos conflitos de interesse. Se o Estado age de forma enviesada, favorecendo homens e prejudicando mulheres, é porque empiricamente age dessa forma.

Trocando em miúdos, na metáfora de Raewyn Connell (1990), é como se o Estado fosse um juiz subornado, desde sua origem, por um grupo particular de homens brancos e heterossexuais. Esses homens estariam super-representados na estrutura estatal, cabendo ao movimento feminista diluir suas influências. A questão de gênero, em torno das opressões às mulheres, se reduz ao preconceito, a intolerância e a discriminação proveniente dos homens. Em consequência, a resposta torna-se o combate ao sexismo, a promoção do orgulho da mulher e o discurso da igualdade.

A presença de mulheres no mundo corporativo, em um sistema capitalista, pode até ser visto como um sinal de mudança, mas pouco diz a respeito da situação do conjunto das mulheres.

Riscos maiores surgem na medida em que o pensamento liberal dá margem a um feminismo pequeno-burguês, no qual as mulheres lutam por uma ascensão social dentro de um sistema desigual e opressor. Quando, na verdade, há pouco de feminista em um movimento que simplesmente alavanque mulheres a posições de liderança em corporações, a cargos públicos em partidos conservadores ou que permita dedicação integral ao seu trabalho, enquanto uma outra mulher – geralmente pobre e negra – faz o serviço doméstico para o qual a primeira não tem tempo.

Não é de se espantar que muitas mulheres que hoje são beneficiadas pelos avanços feministas do passado se neguem a defender o feminismo (ou o que elas entendem por esse termo). Assim como também não aderem mulheres desfavorecidas que associam o movimento à luta pela liberdade da mulher branca e independente, ou as mulheres homofóbicas que o associam ao lesbianismo etc.

Estadunidense, negra e de origem humilde, hooks (2000) defende o resgate do termo. Segundo ela, o feminismo foi por muito tempo gestado – pelo menos o feminismo norte-americano – sobre a luta pela “liberdade da mulher escolher o seu próprio destino”, isto é, uma definição vazia, praticamente apolítica do movimento.

bell hooks (1952-): em defesa de um feminismo plural, conjugado a outros movimentos, que vá nas raízes das opressões e desigualdades.

Em suas palavras, o feminismo deve ser entendido como a luta pelo fim da opressão sexista. Para tanto, suas pautas devem estar conjugadas às da luta empreendida pelo movimento negro, LGBT, de trabalhadores/as, pois a emancipação isolada de um grupo dá a falsa ilusão de conquista. Ninguém é apenas mulher, ou apenas negro. Todas e todos são sujeitos completos: mulheres e homens, de variadas cores e origens que ocupam distintos lugares da sociedade e do mundo.

É contra aquilo que os oprime em conjunto, embora se expressando de formas variadas, que o feminismo e os demais movimentos devem focar. Esses esforços existem há consideráveis décadas dentro do movimento feminista, mas não em sua concepção liberal, que restringe o leque de atuação política e reduz o feminismo ao discurso da igualdade incapaz de questionar as opressões.

Não pretendi, com esse texto, desqualificar uma concepção do feminismo que foi tão importante em suas origens e que, sem dúvida, trouxe à tona o debate sobre as condições das mulheres (CONNELL, 1990). No entanto, defendo que, se o feminismo quer se revigorar e avançar em sua luta, aquelas/es que por ele militam devem superar as limitações que o amarra a uma concepção de liberdade, de direitos e de Estado pouco construtivas. Ou, na pior das hipóteses, conservadoras.

26 comentários
  1. Marília Moscou disse:

    Criaturas, cheguei agora ao blog de vocês.😀
    Sou socióloga, terminando um mestrado em sociologia da educação na Unicamp, e estudo gênero também. Muito antes de ser tudo isso, o que veio primeiro na minha vida foi a militância e o ativismo feministas. Tenho um blog (mulheralternativa.net), um sobre sociologia (mariliasociologa.net) e escrevo no Blogueiras Feministas (blogueirasfeministas.org) e no Outras Palavras (outraspalavras.net) ale´m de eventuais textos no tal Papo de Homem (papodehomem.com.br). Bom, tudo isso é pra convidar vcs, se quiserem, a participar do Blogueiras Feministas (vejam no nosso site como entrar na lista de discussão, animadíssima) que lá temos um grupo de estudos de gênero permanente (leiturasfeministas.blogspot.com). Também pra discutirmos diretamente com outras feministas algumas questões aí…

    Eu, por exemplo, não penso que ninguém milita pelo feminismo. Porque o feminismo não um “fim”, uma “causa”, mas uma lente, uma concepção de mundo. Manjam?

    Beijo.

    • Oi Marília,

      Que bacana que você faz mestrado na Unicamp! Eu faço mestrado pela USP na área de Sociologia da Educação. Seria legal se um dia pudermos nos encontrar para tomar um café, coisa assim. Você costuma vir para São Paulo? Ou costuma ficar em Campinas?

      Então, fazer parte eu até faço do grupo de e-mails do Blogueiras Feministas, mas não tenho conseguido acompanhar. São e-mails demais, rs! Ainda não postei nada e tenho lido pouco. Não estou com muito tempo atualmente. Mas, sim, adoraria participar mais, principalmente do leiturasfeministas, que também já estou dentro.

      Sobre a militância. Entendo o seu ponto, mas acho que uma coisa não anula a outra. Ao militar “pelo feminismo”, como eu escrevi no texto, posso interpretar que se milita por essa lente, por essa concepção de mundo que você mencionou, sem que tenha um tom de fim ou causa. Embora, é claro, o feminismo sempre traga causas e fins pelos quais se luta.

      Vou adicionar o seu blog como parceiro, nas indicações do meu blog.

      Beijos!

      • Marília Moscou disse:

        Adriano, moro em Campinas mas participo de um grupo de pesquisa em sociologia da educação na USP também, só que na FFLCH, onde pretendo fazer o doutorado ano que vem. Se tudo der certo!🙂

        Dê uma olhadinha nos tópicos das blogueiras, que tem um sobre este blog de vocês! De repente é uma boa deixa pra vocês se apresentarem e tal. As BF e os BF se encontram sempre em Sampa, temos um grupo de amigas/os relativamente firme lá, da lista. Quem sabe num próximo vocês também não conseguem aparecer e dar uns ois? Nem todo mundo lá estuda G~enero academicamente, mas o interesse no assunto é óbvio.

        Se for o caso qualquer hora, posso combinar com o pessoal da Unicamp também pra vcs participarem de nosso coloquios, simposios, etc. de sociologia da educação. Dê uma olhada no nosso site (http://www.fe.unicamp.br/focus/) e em algumas atividades recentes no blog – que eu cuido mas está meio desatualizado (http://www.focusunicamp.blogspot.com/). Também temos uma página no facebook pra divulgar atividades (https://www.facebook.com/FocusUnicamp).

        Aliás, o Facebook é a melhor maneira de me encontrar: https://www.facebook.com/mari.moscou

        Nos falamos! Até mais!!!

        • Oi Marília,

          Já olhei lá na lista e respondi. Ah, sim, pode me avisar dos eventos.

          De qual grupo que você participa? O NEMGE ou o NUMAS?

          Beijos,

          Adriano

      • Marília Moscou disse:

        Então, de nenhum deles. Participo do Focus. Esse do qual te mandei o link.

      • POde deixar que esse encontro faço questão de patrocinar Sr. Dexter e Senhora Marília.

      • Marília Moscou disse:

        Olha essa Flavia, hahahah. Tá convidada, Flávia, mas só se levar o Ber pra titia babaaaar – e ensinar um pouco de Bourdieu na primeira infância ghagahahahaha

  2. Bah disse:

    Me senti profundamente representada pelo texto. Por um feminismo libertário e não fragmentado! As lutas tem de coexistir e não serem excludentes.

    • Exatamente, Bah!

      A fragmentação dos movimentos mina as próprias causas do feminismo.

      Volte mais vezes ao blog,

      Abraços!

  3. alice disse:

    gostei do post, mas não sou estudiosa dessa área, nem ativista, me identifiquei com o feminismo recentemente e ainda não tive tempo (já que estou focada na minha graduação ainda, que nada tem a ver com o assunto) de realmente estudar os conceitos.
    o que eu consigo enxergar é por vivência, conversas e observação, por isso senti falta de alguns exemplos pra que ficasse claro o que seria o feminismo liberal. mas pelo paralelo com o liberalismo econômico (“igualdade de oportunidades” na lei, desconsiderando os pontos de partida tão distantes entre as pessoas), especulo quais sejam algumas dessas situações onde o discurso de liberdade de escolha parece ignorar que de fato aquela não é uma escolha livre (ou possível) para tantas pessoas.

    • Oi alice,

      É mais ou menos por aí. O feminismo liberal toma como objetivo avanços feministas dentro de uma ordem ou concepção liberal, não se restringindo apenas ao liberalismo econômico. O liberalismo clássico tem também uma esfera econômica, mas engloba uma concepção de indivíduo, detentor de liberdades, de direitos e de suas propriedades, conquistadas pelo seu próprio mérito ou, no caso de herança, pela sua família. Ao Estado, cabe garantir as condições e oportunidades para que todos dependam das escolhas, sucessos e revezes que encontrar ou fizer na vida. Nesse sentido, o liberalismo em tese abomina, entre outras, desigualdades formais: o voto deve ser um direito de todos, todos devem acessar à escola, todos devem poder trabalhar, o casamento é para todos etc.

      A crítica é que esse “todos” a qual o liberalismo se refere não diz respeito, de fato, a todas as pessoas. O indivíduo, o cidadão ou o sujeito do liberalismo se enquadra usualmente em uma concepção universalista, de que as leis se aplicam a todos igualmente, independentemente de raça, gênero, geração, origem, quando na verdade esse “todos” pode representar apenas alguns estratos da população. Lá em cima, eu disse “em tese” porque muitos só fazem uso do liberalismo quando lhe convém: é muito comum ver aqueles que defendem “igualdade” para todos, mas quando se discute adoção de filhos por casais gays, logo aparecem as resalvas.

      Foi nesse contexto que fiz a comparação entre a primeira onda do movimento feminista e o feminismo liberal, sem tirar os méritos dos primórdios do movimento. O sufrágio universal (i.e, a luta pela voto a todos/as) é uma pauta liberal – e, sim, é extremamente necessária se buscamos uma democracia – mas não é uma pauta que questiona, a fundo, o que é essa democracia que a gente vive, ou se é realmente possível fazer uma democracia em um sistema capitalista liberal. Digo isso porque existem outras concepções de feminismo que fazem uma crítica mais profunda. O exemplo que você deu foi bem adequado: um discurso de liberdade de escolha que fica marcado por uma cegueira, restringindo a liberdades e igualdades formais, como as que a gente têm no Brasil (e ainda não completamente).

      Ficou mais claro?

      Abraços e volte sempre!

        • Bem, Míriam, essa pergunta é bem ampla e vou tentar responder dentro dos meus limites aqui, não só porque demandaria mais espaço, como também não estou certo da resposta. Ainda tento formular, através de muita leitura, escuta e debates, o que para mim seria uma alternativa viável.

          Começando pela redundância que você alega ter que na expressão “capitalismo liberal”. Veja, não entendo exatamente como uma redundância, apesar dos termos serem muitas vezes tratados como sinônimos – de fato, “liberalismo” foi o nome dado ao capitalismo, mas hoje não vejo que é muito essa a situação. O capitalismo é sobretudo um modo de produção e não demanda obrigatoriamente um determinado tipo de sistema político. Ele é bem flexível, na realidade. Pode existir em um fundamentalismo islâmico, em um sistema republicano de um partido (como uma ditadura), de dois partidos, ou pluripartidário. Pode funcionar em um Estado forte, voltado ao bem-estar social, como também em um Estado mínimo, neoliberal. E, de fato, o capitalismo é anterior ao advento da democracia liberal (considerando que essa surgiu em 1789). Então, diria que aí temos também uma disputa. Por escolhas teóricas, prefiro tratá-los separadamente.

          A respeito do que considero ser uma alternativa, aí é uma resposta política bastante pessoal. Eu me considero “socialista”, no sentido lato sensu (de novo, não me sinto seguro para falar das especificidades no interior do que seria um sistema ou um regime socialista, até porque li pouco dos teóricos socialistas), simplesmente porque me oponho ao capitalismo por acreditar que um modo de produção voltado à geração de capital e do lucro sobre a força de trabalho é um sistema potencialmente danoso, sobretudo em termos sociais, que é o que mais importa. Acho que não caberia explicar em todos os detalhes isso, mas na minha visão política a saída seria uma reestruturação radical nas estruturas de poder, que entre outras pudesse expropriar os meios de produção da iniciativa privada e compartilhando tudo que é gerado entre o povo, e movido a partir das necessidades da sociedade e não do mercado.

          No que diz respeito ao liberalismo, acredito que há problemas graves em uma concepção liberal de sociedade. Não vejo a sociedade como uma “soma de indivíduos” e não só não acredito, como discordo, que melhorando as condições para a prática da liberdade e da propriedade privada – portanto, no nível individual – estaríamos trabalhando pela sociedade. Aprendemos na escola que a liberdade de um termina onde começa a liberdade do outro. Isso é um engano fatal. Se vivemos em sociedade, e queremos o bem para a humanidade como um todo, temos que pensar que a liberdade COMEÇA onde começa a do outro, no sentido de que se um não é livre, nenhum pode ser. E para que um seja livre, todos deverão ser. Esse pequeno detalhe não cabe na concepção liberal, que é formalista mas, na prática, não garante direitos, liberdade e igualdade para a maioria da população mundial.

          Enfim, é uma discussão, mas eu começaria por aí.

          Obrigado pela sua participação.

          Abraços!

  4. Esse texto, conforme seus próprios termos evidenciam, condena a ambição da mulher de ter sucesso profissional e dedicar-se integralmente ao seu trabalho, com o sofisma de má-fé segundo o qual “há pouco de feminista” nisso. O moço condena, como ele próprio confessa, o direito absoluto da mulher de ser tão livre quanto o homem, de fazer as mesmas coisas e ter o mesmo sucesso. Quer enganar as leitoras, empurrando-lhes goela abaixo a idéia equivocada de que Feminismo é igual à “feminino” à moda antiga: altruísta, sem ambição e sem competitividade. Seu argumento, condenando as mulheres que ocupam posições de liderança, “enquanto uma negra e pobre faz o serviço doméstico para o qual a primeira não tem tempo” – provam a VERDADE: o moço PENSA QUE O SERVIÇO DOMÉSTICO É DEVER DAS MULHERES, QUE NÃO DEVERIAM ESTAR TRABALHANDO EM TEMPO INTEGRAL E VENCENDO NA VIDA! É O PIOR DOS MACHISTAS, POIS POSA DE “AMIGO” DAS MULHERES, QUANDO NA VERDADE É INIMIGO! Mulher que sabe ler e que pensa não cai nessa esparrela.
    Seu discursinho de falsa defesa da “negra e pobre” é protoesquerdista, condena o Capitalismo (vá para Cuba!) e suas consequencias, que é a diferente remuneração dos postos de trabalho, dos bens de produção, etc. Além disso, quanta “negra e pobre” não sobreviveu condignamente, não se livrou de marido imprestável graças ao trabalho doméstico que a remunerou, posto esse que o fulano que escreveu este lixo quer ver fechado.
    Enfim, não se iludam: aqui está um moço que se acha o dono da verdade, que acha que pode nos dizer como pensar e no que é certo acreditar.
    Enfim, opinião que respeito NENHUM merece.

    • Oi Simone, que prazer te ver por aqui,

      Desculpe-me, mas penso que sua crítica demonstra uma falta de compreensão do meu texto. Eu reconheço avanços que o feminismo liberal trouxe, pois acredito que o liberalismo clássico, longe de ser o meu objetivo ou meu inimigo, para mim é um pressuposto. O mínimo que podemos ter é uma igualdade perante a lei, propriedade privada para todos, liberdade individual etc, se queremos viver dignamente em um regime capitalista. Basta comparar um capitalismo à la Oriente Médio, no qual o fundamentalismo islâmico mina direitos cruciais da população, jogando mulheres, LGBT e outros grupos na escória da sociedade, com um capitalismo escandinávio, baseado na social-democracia, que não adotou causas socialistas, mas conseguiu produzir o regime capitalista, digamos, de “melhor qualidade”, com melhor qualidade de vida, renda média e, no caso do feminismo, representatividade política de mulheres. Legal, não?

      A questão é que, para mim, isso é pouco. Pois esses avanços não vieram para todas as mulheres. Enquanto diversas mulheres conseguiram ascender a postos de liderança – e eu penso que, sim, isto é um avanço! – uma série de mulheres ficaram e continuarão ficando para trás. É o caso, como no meu exemplo, das mulheres negras e pobres. Estas pouco avançaram. Não porque o feminismo teria falhado, e sim porque uma luta unicamente feminista, que pensa apenas na questão de gênero, é incapaz de alterar os pilares de uma sociedade desigual como a nossa. Ainda que o feminismo que você defenda traga inegáveis avanços às mulheres, o racismo, classismo, xenofobia, homofobia etc, continuarão excluindo não só as mulheres, como homens também.

      Por isso, o meu ponto no texto não foi denegrir o feminismo liberal, que eu reconheço os méritos no seu contexto histórico, mas chamar a atenção para a necessidade de uma luta feminista que pense no conjunto de mulheres, e que também permita que se inclua os homens. Da mesma forma que há questões de gênero no qual as mulheres são prejudicadas (vide baixa representação política, violência doméstica, estupro, entre outros), há pautas que concernem a homens (maiores riscos de envolvimento na criminalidade, de fracasso escolar, de ser vítima de homicídio ou acidentes de carro). Nesse sentido, uma visão mais ampla que uma “guerra de sexos”, como você parece propor, seria muito mais justa, efetiva e igualitária.

      Incomodou-me, ainda, esse seu “vencer na vida”. Primeiro, acho um contra-senso você dizer que eu penso que o serviço doméstico pertence às mulheres quando acabo de mencionar que há mulheres que não conseguirão ascender profissionalmente e ficarão restritas a ele. E o que seria “vencer na vida”? Conseguir um bom emprego, uma boa representação política, às custas do feminismo para, depois, virar as costas para as mulheres mais oprimidas? Leia a autora bell hooks e verá que muitas feministas usaram o movimento em causa própria: elas discutiam feminismo para poder compartilhar, com homens, os privilégios de raça e classe, sem ter o menor interesse em abrir mão dos benefícios históricos que outras formas de dominação e opressão as concederam.

      Abraços,

      Adriano

  5. Por que será que incomoda tanto quererem as mulheres vencer na vida?
    Um homem ter esse desejo, tudo bem; ser competitivo e individualista, tudo bem; afinal, o homem pode tudo em nossa sociedade, e não tem a menor idéia do quanto a opressão machista (neutra quanto ao sexo do opressor) restringe e infelicita a vida cotidiana das mulheres.
    Você cobra das mulheres altruísmo, compromisso com os “oprimidos”, e condena que desejemos sucesso, bem-estar, dinheiro e liberdade, iguais aos desfrutados pelos homens. Isso deixa claro que você não vê a mulher no que ela é – ser humano – mas sim no que, segundo seus ideais, ela deve ser – altruísta, maternal, preocupada com os “oprimidos”, os “fracos”, e, óbvio, de reduzidas competitividade e ambição. O acesso da mulher às decisões políticas e econômicas, nessa visão, só se legitima na medida em que ela tiver os compromissos tomados como “corretos” para ela; o Feminismo (que você grafa em letra minúscula) só se legitima se seguir nessa toada e preocupar-se com os pobres, com os coitados…
    Guerra dos sexos: enquanto persistir a cultura machista e sua distribuição de privilégios aos homens e às mulheres “de família” (esposas, companheiras, namoradas, noivas, filhas), a guerra tem que ser retomada e continuar.
    Ninguém verbera contra a discriminação cruel e cotidiana contra as mulheres “sem homem”. Nem a esmagadora maioria das que se dizem feministas, que, estando casadas ou juntadas, bradam o discurso da “fidelidade” a qualquer custo. E ai daquela que se atreve a olhar para o “seu” homem! Neste ponto em particular, tenho que concordar com você, elas agarram o privilégio de ser companheira ou esposa com garras e presas!
    A liberdade igual ainda está longe de acontecer. E, quando me refiro à liberdade igual, pugno por incremento na liberdade das mulheres e, consequentemente, na dos homens.
    Por que,por exemplo, há a cobrança de um homem público ser casado e “fiel”, como um cãozinho? Não consigo entender. E a patrulha sobre a vida sentimental e sexual da mulher, seja ela quem for? Ainda hoje é mais drástica e cruel. Se uma mulher diz, publicamente, que teve dois parceiros, a reação ainda é muito negativa e ela é chamada daqueles adjetivos que a todas ofende. Semana passada, vi isso acontecer, em reação a uma matéria publicada na mídia impressa.
    Penso que o Feminismo só foi até a metade do caminho – e urge cobrir a outra metade na velocidade da luz.
    Abs,
    Simone Andréa

    • Simone,

      Eu concordo com você em certo pontos. Existe, sim, um controle maior sobre a sexualidade da mulher, enquanto na do homem não falam nada. A “promiscuidade” do homem, por exemplo, é bem mais aceito, enquanto homens e mulheres se opõem a qualquer aspecto da sexualidade da mulher que foge do modelo “esposa”, fiel e moral. Ainda existe discriminação contra mulheres solteiras. Até aí, concordo.

      Não disse em nenhum momento que concordo com os homens serem individualistas e competitivos. É óbvio que não concordo! Defendo um sistema em que não haja competitividade (e, minha cara, é impossível não haver em um regime capitalista, só para deixar claro – e não ponha Cuba no meio que não estou discutindo socialismo cubano). Quando me refiro às feministas, no texto, refiro-me a qualquer pessoa que defenda o feminismo, independente de ser homem ou mulher. Não estou cobrando posições das mulheres especificamente, mas de qualquer um ou uma engajado(a) na questão de gênero, do feminismo, da sexualidade. Veja no meu texto: em nenhum momento falei “as mulheres devem fazer…”, falei “o feminismo que enfoque nisso e não naquilo”.

      Sobre o movimento, insisto que não se trata de “guerra dos sexos”. Primeiro, porque muitos homens são oprimidos. E eles não são apenas oprimidos pela homofobia (os homens gays), pela transfobia (os transgênero, transexuais e travestis), peloracismo (os homens negros), pela xenofobia (os nordestinos), pelo classismo (os homens pobres). Eles são oprimidos também por questões de gênero, pautas que o feminismo conceitualiza muito bem. Raewyn Connell, por exemplo, é uma autora transexual que escreve muito bem sobre masculinidades e mostra como os homens são heterogêneos entre si. Há certas questões que afetam as mulheres? Sim, claro! Estupro, violência doméstica, a baixa representação política, a repressão à sexualidade, o preconceito no mundo do trabalho etc. Mas, há questões que afetam homens? Sim, também! São eles que mais sofrem homofobia e transfobia, são eles que mais sofrem homicídio ou acidentes de carro, são eles que mais adentram no mundo do crime, são eles que mais ‘fracassam’ na escola. E defender esses pontos, visando fazer justiça com os homens que sofrem esses problemas, não é feminismo? Na minha concepção, é muito feminista. É muito feminista trazer os homens para o debate, dialogar com eles, construir com eles, romper o sexismo com eles e procurar resolver os problemas deles também.

      bell hooks, autora que eu adoro e recomendo, diz que quando o feminismo era essencialmente branco, euroamericano e burguês, muitas mulheres se sentiam excluídas do movimento, entre outras, porque elas viam que os homens da sua classe/cor eram muito mais próximos delas que as militantes feministas da época.

      Você tem que entender, Simone, que os homens também são vítimas do sexismo. Eles também são socializados para aceitarem o machismo, para reproduzirem o sexismo e a dominação das mulheres. E eu disse TAMBÉM por uma razão óbvia: as mulheres também são socializadas para serem sexistas e machistas, ou você vai dizer que todas as suas conhecidas são feministas? Tem mulher que não vê problema nas frases machistas sobre as “vagabundas”, as “vadias”, as “putas”, as “promíscuas”. A questão é mais ampla que o sexo de cada um. É algo que está sociedade, na cultura, nas instituições. Por isso, mulheres e homens devem se unir para combater, e não se separar. Como ficarão as mulheres que são casadas? Terão que odiar os seus maridos? E as mulheres com irmãos? Terão que evitar sua fraternidade? Veja, a “guerra dos sexos” é socialmente destrutiva e incapaz de resolver problemas enraizados na sociedade. A menos que você defenda o feminismo lésbico, como Monique Wittig, e ache que as mulheres devem se relacionar apenas entre elas e empreenderem uma “luta de classes” contra os homens… fala sério.

      Só para finalizar: o que significa a mulher “vencer na vida”? Arranjar emprego numa corporação chefiada por homem, em um mercado altamente masculinizado, ganhar um salário tendo o lucro do seu trabalho revertido para um patrão homem, e depois ser associada a traços masculinos?

      Abraços!

  6. Guerra dos sexos socialmente destrutiva: esse tem sido o argumento utilizado pelos detratores do Feminismo, desde sempre.
    O que me diz dos países (a leste) em que a cidadania da mulher inexiste, em que ela é obrigada a se esconder? A guerra dos sexos, nesse caso, seria “socialmente destrutiva”? Acaso essas sociedades merecem sobreviver nesses termos?
    Capitalismo: não há, no atual estágio da História humana, outro modo de produção viável. E foi em países capitalistas que o Feminismo mais se desenvolveu. Vivemos num país capitalista: fatoque opiniões contrárias hoje não podem mudar. Logo, a pergunta a ser respondida é: o que pode ser feito pela igualdade dos sexos e liberdade igual, num país capitalista emergente, como é o caso do Brasil?
    Condenar a competitividade, definitivamente, não!
    Não nego que o sexismo também oprima aos homens; se passar pelo meu blog, encontrará várias postagens em que denuncio esse fenômeno. Porém, a maioria dos homens não está nem um pouco interessada em “libertar-se” do “eterno masculino”; afinal, ser homem é pertencer à metade privilegiada da Humanidade, da sociedade. Há um movimento de homens voltado para isso. Mas o que você propõe é que as mulheres tomem para si o encargo de libertar os homens também, e reconstruam o Feminismo, obrigatoriamente, com a participação dos homens.
    Não dá. O Feminismo é nosso. Se vocês apoiarem nossas propostas e interesses, OK. Agora, se quiserem dizer o que devemos fazer ou deixar de fazer, nem pensar.
    Mulheres e homens são grupos que apresentam interesses conflitantes. Sobretudo, à mulher não cabe tomar “o mal da vida nos seus braços”, como diria Florbela Espanca, e a todos salvar como se fosse a Mãe das Mães simbólica.
    A mulher tem direito absoluto de aspirar uma vida igual tão livre quanto a de qualquer homem. Não consigo entender porque causa tanta espécie uma mulher trabalhar numa corporação, num “mercado altamente masculinizado” (o que é isso? Excesso de homens no ambiente?)
    Defina “traços masculinos”. As mulheres que conheço não querem usar barba e bigode, tampouco cuecas!
    Você não aceita que nós, mulheres, tomemos nossa História em nossas mãos, sem levar em conta os interesses de vocês, homens, na manutenção de seus privilégios. Acusar-nos de “indiferença” para com as “oprimidas” é um subterfúgio para desqualificar nossa luta. Dizer que quem recusa a participação dos homens na construção do Feminismo deve estar defendendo o “feminismo lésbico” é outra forma de ataque machista bem conhecida, a fim de desqualificar a outra parte, haja vista o preconceito que cerca as lésbicas, grupo ao qual, sinto informar-lhe, não tenho a honra de pertencer, mas admiro muito quem pertence.
    Diferenças de raça e fortuna. Tenho uma história bem interessante para contar.
    Jovem negra e pobre passou em Direito, numa universidade pública de capital nordestina. Nem ela nem sua família tinham dinheiro para pagar aluguel numa república, e havia a dificuldade com os livros, alimentação, etc. A moça encontrou colegas às quais fez uma proposta: com serviço doméstico, pagaria sua estadia na república de moças. A proposta foi aceita. Ela se formou em Direito, passou num concurso federal, cargo privativo de bacharel em Direito. Não demorou muito, tornou-se juíza. Hoje, é desembargadora. E em São Paulo!
    Uma mulher “negra e pobre” que usou o serviço doméstico para vencer na vida. Não ficou restrita a ele. E essa é uma vencedora, sim.

    Abs
    Simone Andréa

    • Simone, você tem uma capacidade imensa de distorcer o que eu falo, estou impressionado. E será que é possível estabelecermos um debate sem que você me chame de machista a cada duas linhas?

      Vamos lá: começando pelo capitalismo. Nos últimos séculos, saímos de sistemas absolutamente injustos, como os monárquicos (capitalistas), para cair no liberal (ainda capitalista). Não faz sentido simplesmente falarmos capitalismo se não estivermos especificando. Não foi “O Capitalismo” em si que garantiu avanços. Se não fosse uma concepção liberal, aliada ao capitalismo, que nos permitisse exigir, dentre outras, a igualdade perante a lei, esses avanços não seriam facilmente deduzidos. Pegue o caso do Irã e observe: eles são capitalistas, mas com outras particularidades. Discutir isso vai muito além de discutir feminismo. O que eu quero te mostrar é: a superação do capitalismo é essencial para a libertação de TODOS os povos. As mulheres adquiriram avanços dentro de um regime capitalista, mas esses avanços têm limites e não irão, de modo algum, confrontar as rígidas estruturas desse sistema. Elas vão avançar até onde o sistema permitir, simples assim. Quem sabe daqui a uns 50 anos teremos 5% de mulheres entre líderes de corporações, em vez dos 2% atuais? Vai torcendo pelo avanço, na fé.

      A sua concepção de feminismo, pelo que vejo, é absolutamente liberal. Para você, como eu disse no texto, o Estado capitalista é um árbitro neutro. Ele foi “tomado” pelos homens desde sua origem, mas “em essência” é neutro. Logo, nas suas lutas feministas – onde homens, raça e classe não existem – vocês conseguirão “recuperar” essa fatia masculinista do sistema político. Esse é uma visão tão ingênua, Simone. Abrace o feminismo revolucionário, minha cara, vá atrás de algo que realmente faça a diferença. Caso contrário, vocês terão que se contentar com as migalhas e acusar que foram os homens os seus inimigos. Homens, incluindo eu. Vai lá, boa sorte!

      E que países do “leste” são esses que você se referiu? Vamos entender que certos países passaram por situações de extrema instabilidade. Você disse que o capitalismo garantiu os maiores avanços, então vai lá no Congo para ver a situação. É capitalismo também. Países do leste europeu, quais? Sei de países ex-comunistas que conseguiram avanços, sim. Não apoio o comunismo, mas sei reconhecer ganhos. Em países ex-comunistas, desenvolveu-se sistemas de creche e pré-escola, por exemplo, que dividiam a criação dos filhos com a família e deixando as mulheres, geralmente sempre encarregadas de criar as crianças, mais livres para outras atividades. Procure ler Lenira Haddad, uma pioneira na educação infantil e gênero no Brasil.

      Outro ponto que muito me incomodou: “Mulheres e homens são grupos que apresentam interesses conflitantes”. Consigo perceber que você tem uma visão completamente bipolar de gênero: existem homens X mulheres, que pensam, agem e sentem de forma diferente. Cuidado: você está essencializando esses dois. Para você, os homens essencialmente buscam o poder e a dominação, enquanto as mulheres são essencialmente militantes. E as mulheres reacionárias? Ah, estão sendo enganadas pelos homens! Simples, não? Nesse caso, é melhor ler mais sobre “estudos de gênero”, porque essa visão bipolarizante te dará um escopo teórico e político muito pequeno, como tem dado.

      Quando me referi às mulheres em corporações, estou dizendo o seguinte: já te falei que considero, sim, um avanço ver as mulheres subindo nos cargos empresariais e nas carreiras políticas. Não me distorça novamente, por favor. Eu só acho que, dentro de um sistema opressor (as corporações deitam e rolam nos direitos humanos, nas leis trabalhistas etc), isso para mim é pouco. Nossa, superbacana saber que temos uma mulher “feminista” à frente de uma empresa grande como a Monsanto: explorando trabalhadores/as, destruindo o meio ambiente, afetando diversas famílias pobres e enriquecendo para poder consumir em Miami. Puxa, que avanço! Ou eleger uma Sarah Palin nos EUA: republicana, criacionista, racista, xenofóbica. Ah, mas me esqueci, na sua visão feminista, as mulheres, no fundo, são todas boas e desejam o melhor para a humanidade. Margareth Thatcher mostrou isso muito bem, né? Sim, estou sendo irônico.

      Agora, por favor, me chamar de homofóbico foi a gota! Vou ser bem claro: (1) eu não falei que todas as mulheres feministas são lésbicas, e (2) não desqualifiquei as lésbicas, nunca o faria. Eu disse que defender um “feminismo lésbico”, isto é, aquele que defende que a única forma das mulheres se libertarem é pela prática do lesbianismo e afastando-se de todos os homens ao seu redor, era uma solução inviável. Por isso citei Monique Wittig. Ela defendia que o lesbianismo como a saída para a libertação feminina. Minha crítica foi: as mulheres casadas com homens terão que odiar seus maridos? As mulheres não poderão ter amigos homens? As mulheres não poderão ver seus irmãos? Em suma, teremos que dividir o mundo em dois? Essa concepção é absolutamente retrógrada e despolitizada.

      Mas, dentro de uma dicotomia simplista dos “homens vilões e malvados” X “mulheres boazinhas e vítimas”, que você expõe, é difícil imaginar outras soluções.

      Abraços,

      Adriano

  7. Tenho observado, nos debates, esse recurso: um dos interlocutores diz que o outro “distorce” o que ele fala, para logo em seguida ele, que quer vencer, apresentar de forma distorcida o que o outro falou. E fica no bate e rebate.
    Talvez você tenha entendido mal o que eu disse no texto que antecedeu ao seu, então, tem o benefício da dúvida.
    Em momento algum coloquei as mulheres como “boazinhas” ou vítimas. E não coloco no meu blog. Muitas reclamam do meu estilo demolidor.
    Sarah Palin, Gisele Bundchen (lembrança minha) e quejandas: mulheres inimigas da liberdade, maiores e capazes de escolher não sê-lo. Infelizmente, há traidora que enche a boca e diz, “não sou feminista, sou feminina”. Eu nem respondo, não debato com elas.
    E há aquelas que se dizem “feministas”, mas se doem todas quando alguém critica mais duramente essas mulheres (as traidoras).
    O seu texto acima e minhas idéias (que não expus). Vamos a elas.
    a) “Dividir o mundo em dois”.
    Não fique alarmado com a possibilidade de, um dia, tomarmos o poder e exercemo-lo segundo nossos interesses. Oxalá isso estivesse mesmo em vias de acontecer, e experimentássemos uma revolução libertária no mundo! Mas fique tranquilo, é pouco provável, pelo que observo de homens e mulheres atualmente, da epidemia de caretice e espírito repressor que assola o país.
    Defendo, sim, que as mulheres construam o Feminismo segundo seus interesses e sem obedecer aos homens, aceitos como colaboradores, apoiadores; porém, vocês não estão na nossa pele, não passam por situações que passamos e pecebemos, e quase sempre (mas nem sempre!) são quem nos discrimina. Exemplo: aqui em Brasília, se chego só num bar ou restaurante, sou muitas vezes olhada de forma inamistosa e recebo tratamento idem. E piadas machistas, e algum fulano que fala mais alto ou mais duro só porque se acha no direito absoluto de mandar nas mulheres.
    Tive um estagiário que achava que podia falar comigo em tom imperativo, retrucava e questionava ordens (um rapaz alto e magro). Teve o que mereceu: dispensado.
    Os interesses de um e de outro gênero ainda são predominantemente contrapostos. É o que vivo e observo.
    É contraditório um marxista negar a existência de interesses contrapostos entre homens e mulheres, uma “luta de classes”, e a “capitalista” (antes fosse capitalista de verdade, e tivesse muito capital para acumular-se mais, mais e mais!) percebê-la!
    Não se trata de odiar e eliminar os homens, mas de combater o machismo (venha de quem vier) sem temor servil e com muita firmeza. Foi o discurso do receio de “destruir a família”, a “sociedade” que durante muito, muito tempo, o Estado foi indiferente à violência doméstica, o Código Civil previa a chefia da sociedade conjugal (pelo marido), etc.

    b) Homofóbico: conclusão sua. Não disse que vc o era. Apenas exerci meu direito de defender meus direitos de personalidade.

    Quanto á sua afirmação de que tenho “escopo teórico e político muito pequeno”: você, como todo bom marxista, tem notório saber sociológico, teórico e político por definição, não dá para comparar com uma pobre advogada, livre-pensadora, formada em 1991, naquela velharia que é a SanFran…
    Por que tanta hostilidade com a velha Maggie? Deixa prá lá, ela é capitalista ferrenha.
    E o que é “mercado altamente masculinizado” e “ser associada a traços masculinos”?

    Abs
    Simone Andréa

    • Puxa, Simone, “não fique alarmado com a possibilidade de, um dia, tomarmos o poder e exercemo-lo segundo nossos interesses”. É essa a concepção de poder que você tem? Algo voltado sempre para a dominação, não importa vindo de que lado? Não que eu me oponha a um poder desse tipo com medo de perder privilégios (por ser branco e homem, por exemplo), é claro que não, mas simplesmente porque é um contrassenso eu tentar corrigir um erro com outro: sair de uma dominação sexista, masculina, para cair em uma feminina… era só o que me faltava. Eu entendo perfeitamente que, para as mulheres ascenderem dentro da estrutura atual, os homens terão que cair. Para se ter maior número de mulheres nos cargos políticos, teríamos menos homens; para se ter mais mulheres como juízas, teríamos menos homens etc.

      Mas não se trata de lutar por essa “retomada” do poder. bell hooks, a autora de quem eu tanto falo, diz algo que cabe bem ao que você falou. Muitas mulheres feministas possuem uma visão ambivalente sobre o poder: elas denunciam um poder que não tem, e que está concentrado nos homens, para exigir um poder semelhante. O saldo é: redistribui-se o poder, mas muitas e muitos ainda permanecem sofrendo as penas de um poder opressor e desigual. Prefiro adotar a postura de hooks e outras que escrevem sobre um poder pelo fim da opressão, e não pela inversão das relações de poder.

      É nesse sentido que usei a expressão “altamente masculinizado” ou “associada a traços masculinos”. Vou explicar por meio de um exemplo. Sabe o fenômeno que costumam chamar de “feminização do magistério”. Podemos pensar que essa feminização significa a predominância de professoras mulheres, correto? Mas não só. A feminização do magistério vai além, e se refere quando se constitui, socialmente, uma ideia de feminilidade que está associado à prática de docência. Relacionar-se com alunos, dar aulas, ser atencioso, tornam-se características femininas. E, por serem femininas, menos valorizadas na sociedade. Por que digo isto? Essa é uma das maiores contribuições do conceito de gênero: enxergar além do sexo. Não estamos falando do gênero apenas para se referir a homens e mulheres. Essa seria uma análise descritiva fraca. Falamos de gênero para falar de relações de poder, de símbolos e significados, associados a universos culturalmente masculinos ou femininos, que são absolutamente cambiáveis, complexos e mesmo contraditórios.

      Por isso que eu disse que uma mulher virar líder de uma corporação e agir de acordo com as masculinidades desse cargo não é um avanço tão louvável. Ainda que ela fosse mulher, ela estaria reforçando aspectos conservadores, não feministas ou mesmo anti-feministas. Não se combate ao sexismo ou machismo “punindo” homens. Porque os homens não são um todo homogêneo, assim como as mulheres. É mais importante olhar para as práticas de cada um, do que propriamente para o seu sexo. Dessa forma, podemos ser mais justos e atacar na raiz do problema.

      Logo, me assusta quando você afirma que homens e mulhers possuem interesses contraditórios? De onde vem esses interesses? Da natureza de cada um? Aí eu vou discordar. Se disser que vem da socialização deles, tenho ressalvas. Deduzir o interesse ou identidade de alguém pelo seu contexto nem sempre é tão direto.

      E desde quando eu sou marxista? Marxismo é uma filosofia, uma concepção. Ser contra o capitalismo ou falar contra a opressão seja lá qual for não é necessariamente marxista. Eu nem conheço o marxismo com tanta profundidade para defendê-lo.

      E, outra, o meu discurso não é receoso contra a “destruição da família ou sociedade”. Quem está sendo receosa aqui é você, que acha que esse sistema desigual será melhor quando as mulheres “vencerem na vida”, “tiverem a liberdade de escolher seu caminho”.

      Sobre sua formação, não emiti opinião nenhuma sobre isso.

      Um abraço,

      Adriano

  8. Simone Andréa disse:

    Não, vc não emitiu opinião sobre minha formação, mas, como Adriano sabe tudo, entende mais sobre o que é ser mulher num mundo machista, resolvi ironizar um pouquinho. Dizia-se na minha faculdade, “ridendo castigat mores”.
    Será que as mulheres estão mesmo condenadas a se contentar com as migalhas que lhe jogam os homens, no mundo capitalista? Será que o avanço será tão lento, de 2% para 5% daqui a décadas?
    Um bom estudo a ser feito: em quanto aumentou a participação feminina na economia, de 1916 (data do primeiro Código Civil do século XX) a 1988 (promulgação da atual Constituição)?
    Os homens que hoje se dizem “feministas” cobram das mulheres postura cooperativa, atacando toda pretensão feminina de tomada de poder. Eles, que sempre foram os donos do mundo, agora que se veem diante de uma instabilização de sua hegemonia, não querem nem pensar num mundo governado pelas mulheres! Como diria o Dr. Spock, fascinante!
    Mulheres também não são uma categoria homogênea. Há mulheres heterossexuais que são competitivas, individualistas, falam duro e se identificam com o que vc chama de ambiente masculinizado.
    Mundo ideal: sem machismo, caretice, repressão, mas com muita liberdade de ação.

    • Sério, amiga, feminismo não é uma luta pela tomada de poder das mulheres. O que vc anda pregando por aí é femismo. É outra coisa.

      • Adriano curtiu esse comentário.

        Quem sabe agora que uma mulher feminista falou contra a Simone, ela pare para ouvir antes de chamar de “machista”.

    • will disse:

      a simone é a mulher inferiorizada que venceu na vida por seu mérito – ela não é a excecão no sistema e sim a regra (graças a seu esforço) – e agora quer pisar em tudo e todos em função de sua vingança contra a vida. busca deseperadamente mostrar que “venceu na vida” – advogada, formada na universidade x, é conhecida por seus “argumentos destruidores” (essa foi boa rs) e etc. acho que ela deveria estudar menos retórica e mais autores autores positivistas, pois, com esses pseudo-argumentos, que ficam apenas dando voltas e fugindo da discussão real, dificilmente vai fazer com que uma discussão seja proveitosa. impressiona-me se ela atuar como advogada. apesar de que até no stj há juízes com decisões repletas de erros básicos. e nem vou falar sobre seus valores totalmente distorcidos. o oprimido que deseja ser o opressor: grande luta! força lá simone! o/

  9. Elea Mercurio disse:

    Entendi o texto e concordo, mas a minha impressão é de que muitos movimentos começam a partir das classe sociais mais favorecidas, pois são as que tem acesso à educação de melhor qualidade e, portanto maiores condições de lutar e argumentar contra o que consideram injusto. No entanto, é tempo SIM do feminismo coexistir com o movimento negro e de olhar para as mulheres que ainda não alcançaram as mesmas oportunidades. Abraço.

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