Ensino Fundamental de 9 anos: impactos sobre as crianças de 6 anos

Entre as medidas decorrentes da implantação do Ensino Fundamental (EF) de 9 anos que mais impactaram sobre as crianças se destaca, sem dúvida, a antecipação da escolarização. Se antes as crianças ingressavam no EF próximas a completar sete anos de idade, com a reforma a escola incorpora crianças que, ao concluírem o seu 1º ano de EF, possuem apenas 6 anos. Antes, as crianças passariam esse ano no Ensino Infantil (EI). Se uma das metas da política de ampliação do EF é melhorar a qualidade de ensino, é válido nos debruçarmos sobre seus impactos nessas crianças.

Crianças de 6 anos na escola: o EF antecipado e ampliado traria efeitos positivos ou negativos a essas crianças?

A questão que se coloca, logo de início, é: que lugar terá a infância no EF de 9 anos? Sabe-se que o ensino fundamental, como um todo, passa ao largo das experiências infantis. Se na escola infantil as crianças sentam em grupo, possuem tempo para brincadeiras e para o lúdico, no EF elas são postas em fileiras, muitas vezes reproduzindo gestos mecânicos que supostamente as preparariam à alfabetização. Nesse contexto, Anete Abramowicz (2006, p. 322) questiona “qual infância a escola de nove anos tem proposto às crianças?”

É claro que podemos muito bem estender esse questionamento e discutir se os métodos educacionais estão adequados para as crianças de 7, 8 ou 9 anos. Mas, se desconfiamos que possam haver graves problemas, por que tomar a precoce iniciativa de antecipar a escola? Autoras como Lisete Arelaro, Marcia Jacomini e Sylvie Klein (2011) chegam a se perguntar se, ao antecipar a escolarização, estaríamos também adiantando o “fracasso escolar”.

A afirmação não é à toa. Desde que as crianças de 6 anos foram gradativamente incorporadas à escola (tendência observável ao longo da década passada) e o EF de 9 anos foi sendo progressivamente implantado (em especial a partir de 2006), podemos notar, pela tabela abaixo, que o número de reprovações na 1ª série do EF de 9 anos cresceu vertiginosamente, passando de 18 mil para 79 mil alunos reprovados.

Número de alunos reprovados no 1º ano do EF de 9 anos - Brasil. (Fonte: INEP; extraído de ARELARO, JACOMINI & KLEIN, 2011; *Dado relativo à escola pública; **Fonte: Folha de S. Paulo 23/02/2011)

Se, como mostram as pesquisas, o trabalho com as crianças de 6 anos é, na essência, o mesmo ao das crianças de 7 anos, fica na dúvida a validade dessa mudança, visto que a alfabetização continuaria sendo tratada como uma “apropriação mecânica de um código escrito”, além dos problemas de evasão, repetência e a não efetivação do processo de alfabetização e letramento – deficiências historicamente presentes no tradicional EF – que se repetiriam, com apenas um adendo: maculando crianças mais precocemente (PANSINI & MARIN, 2011).

A respeito dos desejados efeitos positivos que um ano a mais de EF proveriam à criança, ainda é cedo para afirmar, mas pesquisas preliminares apontam que este item também é problemático. Maria Malta Campos e colaboradores (2011) afirmam que estudos internacionais sustentam que frequentar a pré-escola impacta positivamente nas crianças nos demais anos de escolarização.

No Brasil, a autora coordenou uma pesquisa que procurou comparar, a partir dos resultados na Provinha Brasil (avaliação diagnóstica do nível de alfabetização das crianças matriculadas no 2º ano do EF público), o desempenho de crianças que cursaram um EI de qualidade com crianças que não frequentaram o EI. Os dados estão resumidamente apresentados na tabela abaixo.

Médias na Provinha Brasil, segundo qualidade da EI. (Fonte: CAMPOS et al, 2011)

Em uma escala de 0 a 24 pontos, vemos um salto de 16,1 para 18,1, entre as crianças que não passaram pela educação infantil e aquelas que passaram em uma instituição bem avaliada. Ainda, se olharmos o gráfico abaixo, veremos que as crianças entre 7,5 e 8 anos obtiveram o melhor desempenho na Provinha Brasil. Era justamente esta a idade esperada para as crianças matriculadas no 2º ano do EF, quando a prova é aplicada, antes da mudança.

Médias na Provinha Brasil, segundo faixa etária. (Fonte: CAMPOS et al, 2011) - clique na imagem para ampliar.

Embora preliminares, esses dados apontam uma tendência contrária às reformas impostas pelo EF de 9 anos, qual seja: é melhor, pelo menos acerca da alfabetização, que uma criança curse o EI e ingresse no EF com uma idade mais avançada. De toda forma, é bom lembrar que nos dados acima não há um total controle de variáveis e outros fatores poderiam estar influenciando os diferentes desempenhos.

O que assusta, de tão evidente, foi a forma atropelada com a qual a mudança foi imposta. Pouco se discutiu e pouco se pensou na formação dos profissionais e nas orientações curriculares. O EF de 9 anos foi implementado sem que as condições mínimas fossem garantidas. Esses e outros aspectos serão discutidos no próximo e último texto da série, voltado para as reflexões a respeito do trabalho pedagógico no novo 1º ano e da formação de professores.

Clique aqui para acessar a introdução ao Ensino Fundamental de 9 anos, que dá acesso aos demais textos da série.

Ensaie um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: