Outras perspectivas em Monique Wittig: a destruição do “sexo” e a linguagem

No texto anterior tentamos fazer uma introdução ao pensamento da feminista francesa Monique Wittig no que diz respeito a categoria do “sexo”. Para a autora, a categoria do “sexo” funciona como uma categoria política, uma categoria que oprime as mulheres, que causam a sua opressão, aliás, a opressão se justificaria porque a ideologia da diferença sexual colocaria a natureza como causa; assim, seria preciso uma luta de classes para solucionar as contradições entre os sexos, destituí-las enquanto compreensíveis. No entanto, ainda sobre o “sexo”, Wittig (2006b, p. 34, tradução minha) escreve:

hoje, noções como raça e sexo são entendidas como um “dado imediato”, “sensível”, um conjunto de “características físicas”, que pertencem a uma ordem natural. Mas, o que acreditamos ser uma percepção direta e física, não é mais que uma construção sofisticada e mítica, uma “formação imaginária” que reinterpreta características físicas (em si mesmas tão neutras como quaisquer outras, porém marcadas por um sistema social) por meios da rede de relações que as tornam possíveis.

Monique Wittig (1935 - 2003) considera que a diferença sexual é socialmente criada, o "sexo" constitui uma abstração imposta à força ao campo social, produzindo uma realidade de segunda ordem.

Judith Butler (1996) compreende que para Wittig não existe um fundamento material necessário para a diferença sexual, isto é, mesmo que os corpos apresentem diferenças, não decorre daí que essas diferenças sejam binárias. Desse modo, Wittig sustenta o pensamento que uma opressão cria o “sexo”, ele é resultado de relações (hetero)sociais e não um fato natural, assim, “sexo”, como o analisa Butler (2008, p. 166) no pensamento de Wittig, “são abstrações impostas à força ao campo social, as quais produzem uma realidade de segunda ordem ou ‘retificada’”, o sexo é um objeto que foi violentamente modelado e tanto a história quanto o mecanismo dessa violência não aparecem mais. Por efeito, “sexo” é institucionalizado como natural, toda uma natureza se desenha em torno dos sexos e a categoria do “sexo” não poderia nunca ser analisado fora dessa natureza, mas para Wittig não existe outra dominação que senão social.

Também, para Wittig, o “sexo” escraviza as mulheres, elas não podem ser tomadas fora do seu sexo, logo, ela conclui, que só as mulheres são sexuadas, os homens não, ser sexuado é obrigatoriamente ser mulher. O sexo passa a ter um caráter de marcação, marcando as mulheres e não os homens, eles tem status de sujeito universal; Wittig escreve: “como as mulheres estão marcadas na linguagem pelo gênero, estão marcadas na sociedade como sexo” (1988, online, tradução minha); “[as mulheres] não podem ser concebidas por fora dessa categoria [categoria do sexo]. Só elas são sexo, o sexo, seus espíritos se converteram em sexo, seus corpos, seus atos, seus gestos” (2006a, p. 28, tradução minha). Nesse sentido, a autora analisa a categoria do “sexo” com uma categoria opressiva que marca violentamente as mulheres, elas estão “impregnadas” de sexo, e, por consequência, estão escravizadas a reprodução, a reproduzir “a espécie”, ou melhor, a sociedade heterossexual. Portanto, a divisão sexual serve para os propósitos da economia heterossexual (BUTLER, 2008, p. 164), e as mulheres são reconhecidas apenas como seres sexuais, mas como seres sociais são totalmente invisíveis (WITTIG, 2006a). Para Wittig, seria preciso iniciar uma luta de classes entre homens e mulheres para colocar e resolver contradições entre essas duas classes opostas, além disso, ela insiste na derrubada na categoria do “sexo”.

Para Wittig, a lésbica é único conceito que ela conhece que além das categorias do sexo (homem e mulher).

Em No se nace mujer (2006b) Wittig afirma que a lésbica não é uma mulher nem econômico, político e ideologicamente. Para a autora, a lésbica é o único conceito que está além das categorias do sexo, a lésbica recusa a heterossexualidade compulsória; nesse sentido, “mulher” seria um termo estabelecido somente em relação binária com o homem e heterossexual, ela afirma: “seria incorreto dizer que as lésbicas se associam, fazem amor, vivem com mulheres, pois ‘mulher’ tem significado” (1988, online, tradução minha). Ser lésbica possibilitaria uma liberdade do sexo e das funções em nome desse sexo, minando a heterossexualidade compulsória, para ela, é tornando-se lésbica que derrubaríamos a categoria do “sexo” e seus efeitos. Wittig pretende uma superação da categoria do “sexo” através do lesbianismo, não a superioridade de uma cultura não heterossexual (BUTLER, 1996, tradução minha); se a lésbica não é uma mulher, porque não se define em relação binária e oposicional com o “homem”, então a própria recusa a heterossexualidade sugere que ela não tenha também um sexo.

Wittig (1988, online, tradução minha) também afirma: “Destruir as categorias do sexo na política e na filosofia, destruir o gênero na linguagem (ao menos modificar seu uso) é parte da minha obra como escritora”. Consoante a isso, entra outro ponto importante na sua teoria e ficção: a linguagem; para Wittig: “A linguagem projeta feixes de realidade sobre o corpo social” (apud Butler, p. 162); “a linguagem relaciona-se com um importante campo político onde o que está em jogo é o poder, ou mais ainda, uma rede de poderes […] o mundo inteiro é apenas um grande registro onde as mais diversas linguagens surgem” (1980, online). A autora releva um pensamento hetero nos discursos, uma vez que estamos submetidos à economia heterossexual, os discursos se fundam sobre a categoria do “sexo” e seus efeitos e esses discursos são praticamente todos os das ciências humanas. Assim, esses discursos oprimem “lésbicas, mulheres, e homens homossexuais, [eles] são aqueles que tomam como certo que a base da sociedade, de qualquer sociedade, é a heterossexualidade” (WITTIG, 1980, online, tradução minha); se esses grupos desejam falar, eles devem re-adequar sua linguagem e discurso aos termos deles, eles nunca podem, como esclarece Butler (2008, p. 168), falar, senão sobre os termos da opressão, transmitindo a seguinte ameaça: “você-será-hetero-ou-não-será-nada”!

Quais problemáticas podem originar desses levantamentos feitos a partir do pensamento de Monique Wittig? As considerações da autora sobre “sexo” e sua destruição não acarretam algumas consequências? Em que medidas elas são possíveis? Bem, o que finalmente pretendemos tratar no próximo texto, são justamente alguns problemas na teoria e ficção de Wittig, a partir das colocações de Judith Butler, sobre essas questões.

2 comentários
  1. Oi Lucas,

    Eu já estava pensando até no que escrever, quando vi que você vai lançar mais um texto, fazendo algumas ponderações, então esperarei. Mas, em se tratando de usar a Butler para tecer uma crítica, já tenho mais ou menos uma ideia.

    Enfim, aguardo ansiosamente o novo texto.

    Abraços!

    • Quando estava escrevendo o texto, pensei nas suas colocações mesmo Adriano (rs!)
      Também pensei que eu ia poder fazer as minhas colocações nesse texto, mas eu fui percebendo o tanto que ele foi ficando extenso.
      Mas enfim, Wittig merece.

      Abraços!

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