Questionando alguns pontos do feminismo de Monique Wittig

Através de dois textos anteriores (vejam aqui e aqui), tentamos traçar alguns pontos importantes da crítica e ficção da feminista francesa Monique Wittig e, para finalizarmos, pretendemos hoje tecer algumas críticas questionando as consequências desses pontos levantados. Em primeiro lugar, Wittig sugere que não existam diferenças biológicas, a não ser sob um trabalho violento de diferenças sociais que depois são apresentas como natureza ou biologia; assim não existiram diferenças entre os corpos (não mesmo?), a não ser que essas diferenças tenham sido trabalhadas anteriormente. Porém, Judith Butler (1996), acredita que existam sim diferenças que sejam binárias, materiais e distintas, e mesmo ao afirmamos isso não estamos caindo na ideologia política que Wittig pretende atacar; para Butler as diferenças existem, estão lá e não é percebendo-as que se tecem violentas relações de poder. Adriano Senkevics também comenta no primeiro texto sobre Wittig o seguinte: “não podemos esquecer que há diferenças nos corpos humanos, que se expressam por anatomias distintas, composição genética e hormonal”, mas também não acredita que “sejam diferenças tão fortes a pontos de fundarmos dois sexos absolutamente diferentes, que pensam, agem e se colocam na sociedade em lugares distintos, que são de naturezas variadas, que um de Marte e outro de Vênus. Mas não vamos ignorar que existem diferenças ‘biológicas’. Uma teoria feministas que procurasse passar por cima disso teria que explicar muita coisa, seria desgastante”.

Até quando faz sentido insistir no velho ciclo de repetição e imanência, que a mulher supostamente estaria presa?

A categoria do sexo não pode ser compreendida senão como uma dominação dos homens sob as mulheres, Wittig (2006a, p. 26, tradução minha) deduz que: “não se trata de uma questão de ser, senão de relações (já que as “mulheres” e os “homens” são resultado de relações) mesmo que os dois aspectos são confundidos sempre quando discutidos” e também, sobre essa dominação dos homens sob as mulheres não são o produto de uma dominação natural, uma vez que “não existe outra dominação que a social”. A autora coloca “sexo” como uma categoria política, que surge para a economia heterossexual, mas ao mesmo tempo, “sexo” escraviza as mulheres, só elas são sexuadas, ser sexuado é, consequentemente, ser mulher, o homem não é sexuado. Dessa forma, Wittig se esforça para mostrar, semelhante à Simone de Beauvoir, que o feminino está marcado no sistema heterossexual, os homens não, o status masculino goza da liberdade, o feminino não. Portanto, ao que se torna questionável, a categoria do sexo não parece oprimir os homens, Wittig insiste numa liberdade que até os próprios homens poderiam decidir não contribuir com a economia heterossexual, mas realmente é assim? A categoria do “sexo” também não marca os homens? A categoria política “homens” também não sugere que estes são tomados pelo seu sexo, i.e., “sexo” também não marca violentamente os homens, igualmente e sempre tomados pelo seu sexo na economia heterossexual? O corpo dos “homens” também não foi violentamente trabalhado e fragmentado as partes sexuais? É imposta a obrigação da reprodução para as mulheres, mas os homens não estão igualmente submetidos a essa mesma obrigação?

Monique Wittig (1935 - 2003) propõe uma luta de classes entre homens e mulheres, mas ao falar em que estes constituem classes sociais, muito de sua teoria pode ser repensada.

Wittig ainda propõe uma luta de classes, ela sugere que a mulher está presa a um ciclo de repetição e imanência, como descreveu Beauvoir, a mulher reproduz e reproduz e o homem apropria-se do mundo social, elas são reconhecidas apenas como seres sexuais, como seres sociais são invisíveis. Wittig toma uma postura um tanto confusa, já que em No se nace mujer (2006b), ela sugere que certas feministas fazem uma leitura “biologizante” da história e excluem os fatos sociais, para ela esta posição é bastante crítica, no entanto, ela parece adotar essa posição em La categoría de sexo (2006a). Assim, levanta-se uma série de problemáticas: e a mulher que biologicamente não pode contribuir para a reprodução da espécie (ou da sociedade heterossexual)? A mulher não se liberta da reprodução em algum momento? A mulher sempre cria os filhos e cuida da casa? Mesmo na Revolução Industrial, quando as mulheres são vistas sob a ótica da exploração, lucros, e trabalham fora de casa, não sugere-se daí que o ciclo de imanência e repetição é quebrado? Métodos contraceptivos não sugerem igualmente a quebra desse ciclo? O patriarcado é universal? Mas não existiram sociedades matriarcas? Supõe-se que em sociedades matriarcais, o sistema ainda é heterossexual, mas as relações entre “homens” e “mulheres” não mudam dramaticamente? Aliás, de onde decorre que as relações entre “homens” e “mulheres” possuem o caráter unívoco, constante, repetitivo?

A autora ainda clama uma luta de classes e a destruição da categoria do “sexo”. Para ela, homens e mulheres constituem duas classes opostas (que se mostram ocultas), homens estão para os “senhores” e as mulheres para os “escravos” na relação senhor/escravo, assim as mulheres (todas elas) devem se levantar contra essa opressão e no momento do conflito, as oposições, com seu caráter político, se mostrarão. Wittig parece sugerir que se pode falar em “homens” e “mulheres” com sentidos únicos, sempre e ao mesmo tempo do mesmo jeito, embora ela critique “a mulher” do feminismo, ela traça outra vez o sujeito do feminismo que pretendeu atacar anteriormente, mas as mulheres constituem uma classe social? Ou ainda, Wittig reconstrói “a mulher” (pouco distante da de Beauvoir), logo nem toda mulher pode iniciar a luta que ela pretende, uma vez que muitas mulheres não se encaixariam nessa categoria pré-definida. Como pertencer a essa classe?

Por fim, a destruição da categoria do “sexo”. Wittig sugere-se que a lésbica é o único conceito que transcende a “mulher”, uma vez que, segundo ela, a lésbica não é uma mulher, porque recusa a heterossexualidade e a oposição binária para com o homem. Butler (1996) faz a seguinte crítica: “quando Wittig descreve a lésbica em relação com essa oposição binária de ‘homem’ e ‘mulher’, o fato de que estar além da oposição continua sendo um modo de estar relacionada com essa oposição”(p. 317, tradução minha), mas com o propósito de quebrar uma nova oposição, “’ser lésbica’ deve se converter em um fenômeno cultural múltiplo, um gênero sem essência unívoca. Se as oposições binárias implicam hierarquias, então postular uma identidade sexual ‘além’ da cultura promete seguir estabelecendo outro par de oposições que, por sua vez, sugerem outra disposição hierárquica; a cultura heterossexual hegemônica se estabelecerá como o ‘Outro’ para esse sujeito pós-cultural, e assim uma nova hierarquia pode substituir a antiga” (p. 317-318, tradução minha). Ainda Butler (2008), questionará que: “Wittig afirma que, em vez de tornar-se mulher, a gente (qualquer um?) pode tornar se lésbica” (p. 183); “o que impedirá o nome lésbica de tornar-se uma categoria igualmente compulsória [mulheres, homens]? O que qualifica alguém como lésbica? Alguém sabe? Se a lésbica refuta a disjunção radical promovida por Wittig entre as economias heterossexual e homossexual, então já não é mais uma lésbica?” (p. 183-184). Logo, para Butler, a lésbica emerge como única possibilidade de destruir a categoria do “sexo” em Wittig, o que se torna nada solidário com as mulheres heterossexuais, além disso, ela reconstrói outras hierarquias e o próprio termo “lésbica” pode se tornar muito questionável, da mesma forma que a gente se torna mulher, a gente poderia se tornar lésbica, a mesma critica poderia ser tecida para esse tornar-se lésbica.

Não queremos menosprezar o pensamento de Monique Wittig, pelo contrário, queremos possibilitar muitas discussões dentre as inúmeras teorias feministas que vão se remodelando, sem se estabelecer uma relação de superioridade. Tanto Wittig quanto Beauvoir são essenciais na teoria e ficção de Butler, há pontos que esta retomará para tecer seu pensamento e onde queremos chegar.

9 comentários
  1. Perfeito!

    Os questionamentos que você fez a Monique Wittig são muito pertinentes. Entendo que o pensamento dela, um tanto anacrônico – e olha que ela nem é tão antiga assim -, está pautado por uma lógica binária. O Homem x A Mulher. Aí fica difícil, mesmo, construir uma reflexão mais aprofundada sobre as relações de gênero. Esse papo da mulher como um escravo, enquanto o homem é o senhor, acho muito inadequado. Não é assim, mesmo, que essas questões aparecem na sociedade. Uma leitura rápida de Connell, hooks, Scott e muitas outras autoras já desmondam esse binarismo.

    O segundo ponto é que dizer que os homens não tem sexo é ignorar os problemas que a “opressão sexista”, ou que a “masculinidade hegemônica”, trazem para os homens. Os transsexuais não são oprimidos pelo seu sexo? Os homens também não se aprisionam nas responsabilidades de ser do sexo masculino? Nem precisamos cair nos transgêneros para enxergar a crítica. Um homem hétero também pode sofrer ao ser “confundido” com um gay.

    Por fim, buscar uma saída por um feminismo lésbico é qualquer coisa lunática. Como se o lesbianismo não traria concepções prévias heteronormativas, como se o relacionamento entre duas mulheres seria o mais “puro”, não reproduziria problemas da sociedade machistas. Enfim, acho que você tocou muito bem nos pontos corretos.

    E, sim, não é o caso de menosprezar a Wiitig. Mas é o caso, sim, de ver o quanto ela contribui ou não para as questões que hoje se colocam. Em caso negativo, não ter receio de buscar outras autoras/es, rs.

    Parabéns pelo texto!

    • Ah, só mais uma coisa. Lucas, se puder retirar o negrito do meu nome, eu prefiro. Não me sinto bem estar sendo referenciado no mesmo parágrafo de duas pensadoras feministas do calibre delas. Ainda nem tenho nada publicado, rs. Obrigado!

      • Muito obrigado Adriano,
        e graças a esse blog, pude conhecer um pouco mais sobre o pensamento de Wittig.

        Bom, já que o senhor está pedindo, eu retiro o negrito, mas acho que as suas colocações não são suficientes para isso, rs.
        Abraços,
        Lucas.

    • Ok, Adriano, porém, os problemas masculinos dentro de qualquer sociedade patriarcal são problemas de nível de poder já elevado e ativo. Não dá pra comparar, isso, pois, os supostos problemas estão dentro de uma categoria onde a própria existência já remete a um pressuposto de superioridade.

      • Oi Vinícius,

        Não o problema de todos os homens. Os homens do Pinheirinho, por exemplo, também sofreram com a desocupação. Eu concordo que os homens, de modo geral, podem se beneficiar – mesmo a contragosto – de um sistema patriarcal. E é óbvio que se estamos discutindo feminismo, estamos mais sensíveis a prestar atenção às questões que concernem às mulheres. Mas, diferentes homens e mulheres partem de pontos tão distintos nessa sociedade, que não me atreveria fazer generalizações.

        Apesar disso, concordo com a ideia que Simone de Beauvoir expressa ao dizer que, em uma sociedade centrada no homem, mesmo o mais abjeto dos homens pode se sentir superior, porque tem as mulheres como uma referência de inferioridade.

        Só para saber: esse seu comentário foi uma resposta ao comentário que eu deixei neste texto do Lucas?

        Abraços!

      • Esses homens em pinheirinhos não se encontram em um conflito de gênero, quando prendemos a questão à desocupação. É um conflito, antes de tudo, de classe.

        Então, para analisar o acontecimento, é necessário delimitar a esfera que ele pertence e quais aspectos da esfera pertencente são manifestados.

        O problema não é de haver problemas de homens e mulheres, dentro de toda sua individualidade em uma sociedade onde há desigualdade de gênero, creio que a problemática não está na esfera da individualidade do sujeito que, por sua vez, estabelece uma relação desigual entre homens e mulheres e homossexuais e etc e etc, mas na própria formação do sujeito (ou melhor, naquilo que dá margem para o sujeito, como expressão social, se formar). Creio ser, então, um problema estrutural, objetivo. E, se os problemas de gênero estão escritos nas estruturas da sociedade, então, admitir uma infinidade de problemas, impossíveis de generalização, se torna até mesmo uma negação de que os problemas são estruturais. Digo, aqui me refiro até à Durkheim, não é simplesmente generalizar… O fato só é geral por ser coletivo.

  2. Sim, você se referindo às problemas de gênero que são estruturais à sociedade em que vivemos? Eu não se entendi seu ponto.

    Quando me referi à não generalização, estou falando o seguinte: homens e mulhers experimentam o que é ser do seu sexo de formas distintas, e procurar um problema comum que afete a todas as mulheres, individualmente, não é o caminho. Mas, se pensarmos no coletivo, em aspectos institucionais, simbólicos, estruturais como você disse, veremos que há desigualdades de gênero que marcam tudo aquilo que é considerado feminino, mas não que isso necessariamente leve toda as mulheres a amargurar um mesmo problema.

    • Sim, isso por que eu não me refiro a problemas pontuais. Como o sexismo é um problema estrutural, creio que o problema que todas as mulheres compartilham, enquanto mulheres (e enquanto análise de gênero), é a desigualdade social, econômica e política.

      • Então, mas o que estou tentando dizer é que é complicado falar em “todas as mulheres compartilham”. Prefiro pensar na análise de gênero a análise que se pauta nos indivíduos. Socialmente falando, sabemos que mulheres são mais propensas ao estupro, por exemplos; economicamente, sabemos que mulheres recebem menos pelas mesmas profissões e cargos; politicamente, são sub-representadas.

        Mas, até que ponto dizer que isso vitimiza uma ou outra mulher? Margaret Thatcher foi ao poder, nem por isso foi uma mulher comprometida com causas feministas. De modo algum a sua posse representou um avanço às mulheres. Existem mulheres de classe alta, mas até que ponto elas representam avanços ao gênero feminino?

        Dizer que as mulheres compartilham experiências de desigualdade é praticamente amarrar às mulheres às mesmas vivências e experiências, como se a causa de uma fosse a causa de todas, e a luta de uma representasse todas. Argumento o contrário: coletivamente, muda-se o gênero e os significados atribuídos a ele; mas individualmente uma mulher pode ou não ser comprometida com isso e partilhar dessas opressões.

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