Tomboy

O expectador desavisado, que não leu a sinopse do filme ou sequer conhece o significado do seu título, pode muito bem ser levado a acreditar no que vê durante os primeiros minutos de Tomboy (Tomboy, França, 2011). O longa-metragem é escrito e dirigido pela francesa Céline Sciamma, que já possui experiência com a temática de gênero na infância e juventude, como demonstrou em seu Lírios D’Água (Naissance des Pieuvres, França, 2007), filme muito sensível que retrata a sexualidade infanto-juvenil por meio da atração entre duas meninas.

Em Tomboy, começamos vendo a nuca de uma criança loira de cabelo curto. Essa criança se passa facilmente por menino, tanto pelo o seu jeito de se expressar (distante da feminilidade enfatizada), quanto pela aparência e roupas. O primeiro indicativo de que a situação não é tão simples assim vem quando, em período de mudança para o subúrbio de Paris, a mãe (Sophie Cattani) afirma que “fiz o seu quarto azul, como você queria”. Ora, pensamos, se aquela criança é um menino, não haveria por que a cor do quarto ser discutida. Nas cabeças convencionais: azul para menino, rosa para menina.

A personagem protagonista, interpretada por Zoé Héran, alterna-se entre Laure e Michaël. (Foto: Divulgação)

Quando essa criança que julgamos ser um menino na faixa dos dez anos, interpretado pela jovem e talentosa Zoé Héran, sai à rua pela primeira vez na nova vizinhança, encontra Lisa (Jeanne Disson). Acanhado, identifica-se como Michaël, e aqui começa a problemática central de Tomboy. Antes de seguirmos, vale um esclarecimento: uma possível tradução para tomboy, quando aplicado a uma menina, aproxima-se daquilo que vulgarmente chamamos de moleca ou maria-homem. Em outras palavras, a expressão (de origem estadunidense) refere-se às meninas que se distanciam do modelo feminino, que trocam as bonecas pelas bolas e a cor-de-rosa pelo azul.

Um pouco adiante no filme, vemos Michaël e sua graciosa irmã Jeanne (Malonn Lévana), brincando na piscina. Quando sua mãe a chama para sair da água, grita “Laure!”, revelando o verdadeiro nome de Michaël, e uma rápida cena de nudez que confirma as desconfianças. A princípio, parece que Laure é uma menina que se identifica mais com o gênero masculino, criando um pseudônimo que nomeia a sua segunda identidade, evocada somente fora de casa. Na frente dos pais, é Laure; na rua, Michaël. É evidente que essa dupla identidade não conseguiria seguir por muito tempo, e os problemas que Laure/ Michaël viriam a enfrentar são iminentes.

Laure/Michaël e a construção de uma masculinidade que a faria aceita no grupo de meninos. (Foto: Divulgação)

A questão de gênero é tratada neste filme com muita delicadeza. Há um diálogo com o filme Minha vida em cor-de-rosa (Ma vie en rose, 1997, Bélgica/França/Reino Unido), sobre um menino que se identifica com o gênero feminino, mas enquanto neste predomina um tom humorístico e irreverente, em Tomboy a construção das personagens e das situações é outra. É um filme silencioso, com longas tomadas nas quais apenas deparamos com o rosto de Laure, um convite para refletirmos sobre o que poderia estar passando na cabeça da menina.

É válido ressaltar que, enquanto menino, Michaël foi aceito no grupo de rapazes da vizinhança. Neste grupo, Lisa era a única da menina mesma idade com o qual ele poderia brincar. E, para completar, Lisa percebe e comenta que Michaël “não é como os outros”. Mas Laure/Michaël tenta ser igual, participando das mesmas brincadeiras, tirando a camiseta no jogo de futebol, cuspindo no chão entre um lance e outro. Vê-se a construção de uma masculinidade que a faria aceita naquele grupo de meninos, tentando-se passar por um deles. O que não dispensa os problemas: na hora que todos os meninos saem para fazer xixi, cabe a ela passar despercebida.

No dia de mergulhar com os amigos, Laure improvisa uma pequena alteração no seu corpo. (Foto: Divulgação)

Destaco uma sequência em que, prestes a sair com os amigos para nadar, Laure improvisa uma sunga a partir do seu maiô e prepara uma massinha de modelar em formato cilindrico, para dar um volume à região genital. Aquele pedaço de massinha é o que permite, à menina, se passar por um menino entre as brincadeiras na água. Ao término do dia, Laure guarda a sua massinha dentro da sua caixinha de dentes de leite, como se aquilo fizesse parte do seu corpo, fosse íntimo, digno de se guardar.

E a família? É o arquétipo da família perfeita, que de tão harmoniosa e equilibrada chega a ser caricatural: todos se amam, se respeitam, se escutam. A mãe, muito atenciosa, está grávida de um menino. O pai (Mathieu Demy), ocupado com o trabalho, mas nem por isso ausente. Liberal, o pai joga cartas com as filhas, oferece um gole de cerveja para Laure, deixa ela pegar no volante e, mais, não a repreende quando a “farsa” de Michaël começa a ser desvendada.

Uma relação entre Lisa (Jeanne Disson) e Michaël, um menino diferente dos outros. (Foto: Divulgação)

A família, evidentemente, percebe que Laure se afasta da feminilidade que se esperaria de uma menina. Mas não parece levar isso como um problema. A virada vem quando se descobre que aquele Michaël é, na verdade, a sua filha. Não pretendo revelar o que acontece, mas digo que achei a ação da mãe um tanto precipitada, pois pouco se dialogou com sua filha, mas não foi de todo incorreta, visto que uma hora ou outra a “verdade” seria revelada, o que traria algum custo para a pequena Laure.

Fica a dúvida do que aconteceria com ela. Será que ela insistiria no gênero masculino em breve? Será que voltaria a ter uma aproximação quando se tornasse mais madura? Será que ela negaria a identidade masculina e continuaria sendo a Laure que a família conhecia? Ou será que foi uma fase, um experimento? Na infância, tem-se mais flexibilidade para brincar com essas normas, ainda mais quando o corpo da criança está pouco diferenciado. O filme não traz respostas definidas, mas deixa algumas reflexões. De toda forma, está bastante recomendado!

Cartaz do filme. (Foto: Divulgação)

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