Trabalho infantil: os afazeres domésticos atrapalham os estudos?

Trabalhar em casa atrapalha o estudo? Só com essa pergunta, muito se pode debater. Quando se fala em trabalho infantil e seu suposto peso decisivo no “fracasso escolar”– tema de outro texto já publicado –, raramente são apresentadas as possibilidades e correlações entre os serviços domésticos e os prejuízos na escolarização. Neste texto, vamos nos debruçar sobre uma possível relação entre trabalho doméstico e a defasagem série/idade na escola.

Dados do IBGE de 2006, destacados na pesquisa de Amélia Artes e Marília Carvalho (2010), mostram que na faixa etária de 5 a 17 anos, 11,5% das crianças trabalhavam, totalizando 5,1 milhões, entre os quais havia predominância de meninos. Na faixa etária dos 10 aos 14 anos, por exemplo, tínhamos 11,1% dos meninos e 5,9% das meninas no trabalho. Há um grave problema nessas estatísticas: o trabalho doméstico não está sendo considerado.

Trabalho doméstico infanto-juvenil: usualmente negligenciado da categoria "trabalho infantil", os afazeres domésticos devem ser incluídos por apresentarem impactos na escolarização e serem altamentes sexuados.

Dessa forma, torna-se primordial discutir a própria noção de trabalho infantil. Usualmente, desconsidera-se o trabalho doméstico, dentre fazer comida, lavar a louça e cuidar dos irmãos, por ser uma atividade não remunerada e geralmente com flexibilidade de horários. Veremos que é um erro negligenciar este tipo de trabalho, que não só possui impacto na escolarização das crianças, como ainda é altamente segregado por sexo.

Em 2007, 89,9% das meninas com 16 anos ou mais afirmavam realizar algum tipo de trabalho doméstico, contra 50,7% dos meninos. Ainda, a carga horária era bastante distinta: para meninas, uma média de 27,2 horas por semana; para meninos, 10,6 horas. Para a faixa etária dos 10 aos 14 anos, a diferença nas proporções de meninas e meninos que trabalham é levemente menor, mas continua alta (31 pontos percentuais), com diferenças significativas entre o tempo despendido por sexo. É importante mencionar que o tipo de trabalho pode também ser diferente entre os sexos.

Mas, afinal, os afazeres domésticos prejudicam ou não a escolarização? Uma primeira olhada, de acordo com a tabela abaixo com dados da PNAD 2006, mostra que existe correlação entre as crianças que realizam afazeres domésticos e as que estão defasadas. O trabalho doméstico, entretanto, parece prejudicar muito mais as meninas: temos 37% de meninas defasadas na escola, índice que sobe para 43,1% para meninas que trabalham em casa (última coluna da tabela). Para os meninos, há pouca correlação.

Defasagem série/idade por sexo e afazeres domésticos, 10 a 14 anos (Fonte: Microdados PNAD 2006; extraído de ARTES & CARVALHO, 2010).

Como era de se esperar, aumentando-se a carga horária de trabalho doméstico, a correlação entre realização de afazeres domésticos e defasagem escolar cresce. Para os meninos, novamente a correlação é baixa. Já para as meninas, cresce de 37% para 51,6% as meninas com defasagem escolar, entre aquelas que não trabalham e aquelas que trabalham 21 horas ou mais (última coluna da tabela). Na tabela abaixo, também vemos, comparando as duas primeiras colunas, que a quantidade de meninas que gasta mais tempo nos afazeres domésticos é sensivelmente maior em relação aos colegas do sexo oposto.

Defasagem série/idade por sexo e tempo de duração de afazeres domésticos, 10 a 14 anos (Fonte: Microdados PNAD 2006; extraido de ARTES & CARVALHO, 2010).

Obtendo outros resultados por meio de uma modelagem estatística sobre os dados da PNAD 2006, que não serão aqui expostos, Artes e Carvalho (2010) concluem que há correlação, sim, entre as crianças/jovens que realizam trabalho doméstico e as crianças/jovens defasadas na escola. Essa correlação é mais acentuada para as meninas. Elas, além de trabalharem mais horas, são mais afetadas por esse tipo de trabalho, possivelmente porque são mais cobradas para os afazeres domésticos, além de dedicarem mais tempo.

Por fim, esses dados mostram que é necessária uma reflexão mais profunda sobre o trabalho infantil, que não ignore os afazeres domésticos. O discurso sobre o trabalho realizado por crianças é quase sempre o mesmo: a ele é atribuída a maior responsabilidade pelo “fracasso escolar”, principalmente de meninos, vistos como os únicos trabalhadores (ALVES-MAZZOTTI, 2002). Esse ponto é criticado no texto anterior a respeito de trabalho infanto-juvenil.

Nem é preciso dizer que a negligência dos afazeres domésticos está associada à baixa valorização desse tipo de trabalho que é tradicionalmente exercido por mulheres. Além de sexuado, é uma atividade geracional: mãe passa para filha e assim por diante, sendo que diferentes estratos sociais podem lidar com o trabalho infantil – doméstico ou não – de formas distintas.

Outras questões ainda estão abertas: como o trabalho doméstico ou não é exercido por essas crianças? Em que condições? Como as famílias e as crianças lidam com o trabalho infantil? Este é sempre visto sob uma ótica negativa? É necessário, pois, que nos aprofundemos mais sobre o trabalho infantil, procurando descortinar o senso comum e os vícios acadêmicos.

1 comentário
  1. Interessante. Esses dados sempre ajudam na nossa análise e reflexão sociológica.

    Abraços.

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