Sobre a metafísica da substância ou “‘Quem é você?’ — perguntou a lagarta”

Se uma pessoa é de um sexo ou é de um determinado gênero, em que medida é possível ser desse sexo e desse gênero? Afirma-se que alguém é homem ou é mulher, mas como opera essa gramática do ser? Como alguém é isto ou é aquilo? Aparentemente, aquilo que a pessoa pensa ser tem a ver com sua identidade, com uma substância original que está dentro de si, ou mesmo sua própria substância, sua essência, mas a identidade da pessoa é realmente aquilo que ela é por livre-arbítrio, i.e., uma unidade que ela desejou se tornar? A “pessoa” é uma essência natural de si? Todas essências são possíveis? Se no texto anterior discutimos a questão da inteligibilidade da “pessoa”, ou seja, sua identidade, e vimos que só é possível ter uma identidade na medida em que ela é culturalmente inteligível, então quer dizer que nem todo tipo de identidade é possível. A questão crucial que queremos entender nesse texto é: O que há por trás do ser?

Simone de Beauvoir escreveu no seu O segundo sexo que a gente não nasce, mas torna-se mulher; a frase pode ser considerada um pouco problemática, mas o fato é que obrigatoriamente a fêmea humana “torna-se” mulher e o macho humano “torna-se” homem e, além disso, ser mulher e ser homem se tratam de campos coercitivos. Beauvoir (1980, p. 18) parte da concepção hegeliana de que “ser é ter-se tornado, é ter sido feito tal qual se manifesta”, ninguém se torna o Outro a não ser que esse processo tenha sido realizado pelo Um, em outras palavras, uma pessoa ou um grupo de pessoas só são inferiores na medida em que outra pessoa ou outros grupos de pessoas o tenham feito assim. A autora esforça-se por uma teoria de Um/Outro, onde esse Um define-se como Um e define ao mesmo tempo o Outro como inferior, inessencial perante  a ele, logo alguém é Um, alguém é Outro, alguém é mulher, é homem, é branco, é homossexual, é superior, é inferior; onde a questão do ser não é vista senão como uma questão substancial, onde, obviamente, a palavra ser denota substancialidade, essência, aquilo que se é naturalmente. Para Beauvoir, como já dissemos, a palavra “ser” não pode ser pensada senão sobre a dinâmica hegeliana.

O estado de "ser" constitui um estado natural da "pessoa"? A identidade é um ideal normativo ou a experiência da "pessoa"? "Ser" é uma substância, um essência da pessoa?

Claramente, o feminismo de Beauvoir apresenta algumas considerações limitantes, a começar pela própria dicotomia Um/Outro, Sujeito/Outro, dominador/dominado, mas a problemática do “ser” colocada pela autora gera desloca-se de um enfoque essencialista e ontológico, ser não é uma substância da pessoa, uma essência interna do humano, uma unidade interior natural. Não obstante, a filósofa estadunidense Judith Butler em Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade (2008), invoca uma metafísica da substância, termo vindo diretamente de Nietzsche, para designar essa noção substancial do ser, ou melhor, para atacá-la.

Butler (2008, p. 42), retomando um comentário de Michel Haar sobre Nietzsche, argumenta que as questões do “Ser” e da “Substância” abraçada por diversas ontologias filosóficas são promovidas pela crença “em que a formulação gramatical do sujeito e predicado reflete uma realidade ontológica anterior, de substância e atributo”, instituindo, principalmente, a identidade. Dessa forma, Haar citado por Butler (p. 43) esclarece que as todas as categorias psicológicas como ego, indivíduo e pessoa, procedem da ilusão da identidade substancial, porém essa superstição não engana apenas o senso comum, mas também os filósofos que acreditam na verdade das categorias gramaticais; ele acrescenta: “O sujeito, o eu, o indivíduo, são apenas conceitos falsos, visto que transformam em substâncias fictícias unidades que inicialmente só tem realidade linguística”. Para Haar, assim como para Butler, a apropriação da formulação gramatical do sujeito e predicado projetam feixes de realidade, diga-se assim retomando Wittig, substancial nos corpos, levando a uma série de noções ontológicas, na verdade, aquilo que a “pessoa” supostamente é, é senão ficção, uma crença na naturalidade do ser.

Se é assim, então ser torna-se um termo problemático, alguém é mulher/homem, mas somente sob um esforço de interiorização de uma essência de ser homem ou ser mulher; esses atributos identidatários constituem uma ficção, onde a substância, a essência interior, não existe naturalmente, senão interiorizada e, depois, dissimulada para alcançar esse efeito substantivo. Ser tanto de um sexo como de um gênero, argumenta Butler, é impossível; a gente só é de um sexo, como é de um gênero, na medida em que esse sexo e esse gênero sejam inteligíveis e mantenham relação de coerência entre sexo/gênero/desejo. Mas esse sexo e esse gênero inteligível emanam naturalmente de nós? Como vimos, não; essas unidades são leis aplicadas aos corpos, que os governam.

2 comentários
  1. “Esses atributos identidatários constituem uma ficção, onde a substância, a essência interior, não existe naturalmente, senão interiorizada e, depois, dissimulada para alcançar esse efeito substantivo.”
    E é justamente aí que entra análise material e histórica da sociedade que identifica os processos sociais que naturalizam a hierarquia de gênero como algo que não é imanente ao sexo biológico. O artigo não analisa o viés materialista histórico da dialética utilizada pela autora.

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