“Faça-se o sexo”, exclamou a materialização

O que causa a diferença sexual? Nada? Ela é simplesmente biológica, material? Porém, alguns pensadores poderiam dizer que o discurso a causa, como? Comecemos, então, pela questão do discurso. Como já dissemos, em textos anteriores, a feminista francesa Monique Wittig sustenta que o sexo é discursivamente produzido, não existe um “sexo”, ou melhor, diferenças sexuais, no fundo; ou ainda, a diferenciação material do corpo não é suficiente para supor que sejam binárias. “Afortunadamente”, escreve Butler (1996, p. 315, tradução minha), “eu não acredito que seja assim como afirma Wittig. Sem duvida alguma existem diferenças que são binárias, materiais e distintas, e não somos seduzidos pela ideologia política quando assentimos a este fato”.

Em Cuerpos que importan: sobre los límites materiales y discursivos del “sexo” (2002), Butler irá retomar essa questão e reformulará a noção da produção do sexo. Como dissemos, para a autora, existe sim uma diferença sexual, um sexo, que não é discursivamente criado, mas uma condição material do corpo. Mas, o que Butler propõe, grosso modo, é pensar no status ou nos efeitos do “sexo”. Para ela, o caráter que o “sexo” assume não pode ser pensado fora das relações sociais, fora de marcações discursivas que materializam esse “sexo”, em outras palavras, existe uma diferença material que posteriormente será denominada “sexo”, essa parte do corpo existe, uma condição material, mas não materializada. Essa materialização ocorre por práticas regulatórias reiteradas que produzem aquilo que desejam produzir, o “sexo”, os limites que são ao mesmo tempo materiais e discursivos do corpo.

Para Judith Butler (1956 - ), o "sexo" alcança sua materialidade através de práticas regulatórias reiteradas. Essas normas vão construindo a materialidade dos corpos e, mais especificamente, a materialização do "sexo" do corpo, materializando a diferença sexual.

Retomando Foucault, Butler (2002), considera a categoria do “sexo” como sendo, desde o começo, um “ideal regulatório”, ele não funciona apenas como uma norma, mas também compõe uma prática reguladora que produz os corpos que governa, uma prática regulatória como uma espécie de poder produtivo, ela produz, ela tem o poder de produzir, de marcar, demarcar, diferenciar, os corpos que essas práticas controlam. O “sexo” é, portanto, um “ideal regulatório” em que sua materialização é imposta e essa materialização ocorre por práticas regulatórias. Assim, o “sexo”, não é apenas uma condição material do corpo ou um tipo de construto discursivamente criado, mas ele é em si um processo pelo qual normas regulatórias o materializam, produzem o “sexo”, produzem sua materialização, através de uma reiteração forçada dessas normas.

A materialidade, argumenta a autora, deve ser pensada ou re-pensada como o efeito (mais produtivo) do poder. Desse modo, as normas regulatórias do “sexo” trabalham de uma forma performativa, i.e., através de uma prática reiterativa e referencial pela qual o discurso produz os efeitos que nomeia, para materializar o corpo, e, especificamente, a diferença sexual. Nesse sentido, quando Wittig afirma que a categoria do “sexo” se funda na sociedade enquanto heterossexual, e esse “sexo” torna a marca da exploração (claro que não só das mulheres) desse e por esse sistema, sua afirmação não está errada, a materialização da diferença sexual é uma função que está a serviço da consolidação dessa economia heterossexual, ou, nas palavras de Judith Butler, do imperativo heterossexual.

Também se há outra afirmação concisa de Wittig é que esse “sexo” toma o lugar de todo o corpo da “pessoa”. Essa materialização do sexo faz igualmente com que o corpo seja seu “sexo”, com que a condição de ter um sexo seja pré-requisito para ser um humano. Como sugere Butler (2002), e discutido anteriormente várias vezes, o bebê passa do estado de “neutro” para o estado de “ele” ou “ela” e, portanto, humano. Enfim, o “sexo” não é simplesmente um dado material do corpo, mas ele também não é exclusivamente causado por um discurso, ele é materializado por práticas regulatórias reiterativas através do tempo. Essa materialização é imposta e é também, através dela, que a “pessoa” se torna viável.

2 comentários
  1. Texto conciso e profundo. Gostei bastante!

    Concordo bastante com a Butler. A explicação que você aqui desenvolveu ilustra bem essa ideia do sexo enquanto um todo material e discursivo. Um material que, para Butler, já está impregnado por concepções sobre o corpo, que por sua vez são políticas.

    Só queria ressaltar, Lucas, que a Butler não foi a primeira a dizer isso. Hoje ela ganhou muita relevância e está no centro do debate de gênero, em âmbito mundial, como se ela tivesse “descoberto” o sexo/gênero/desejo, a heteronormatividade etc. Mas a Joan Scott já havia escrito, embora não tivesse se debruçado tanto sobre o corpo como Butler o faz em “Bodies that matter”, a respeito do sexo, do gênero, e da impossibilidade de separar natureza e cultura, entendendo o gênero como um construto que engloba o próprio conceito de sexo, a partir da forma como as diferenças biológicas são organizadas socialmente. Ela inclusive discorre sobre a necessidade de separar a ideia de um gênero que pode ser deduzido de um sexo, e do gênero que deduz uma sexualidade. Tudo naquele artigo do “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”.

    Enfim, gostei bastante e acho que você conseguiu construir muito bem a ideia que se propôs.

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