O patriarcado pensado pelo feminismo radical

Para aquelas pessoas interessadas nos estudos feministas, é comum, em algum momento das suas leituras, esbarrar no termo patriarcado. Esse conceito, central para certas correntes do feminismo, já passou por variadas acepções. Em alguns textos, vamos discutir a origem desse conceito, refletindo sobre suas aplicações e problemas, a fim de compreender se e qual será sua utilidade atualmente.

Quando afirmei que o patriarcado (ou patriarcalismo) é um conceito-chave para certas discussões feministas, pensei essencialmente no que se convencionou chamar feminismo radical. É preciso entender suas propostas para compreender o uso daquele conceito.

Shulamith Firestone (1945-), uma das principais teóricas do feminismo radical, escreveu a influente obra A Dialética do Sexo (1970).

Em poucas linhas, a partir do momento em que a reflexão sobre as opressões às mulheres ganhou relevo no feminismo, o que ocorreu a partir da década de 1960, essa dominação masculina, pensada tanto como universal (por ocorrer em todas as partes e em todos os períodos históricos conhecidos) quanto específica (por ter suas particularidades ao longo do tempo e espaço), recebeu a denominação de patriarcado, isto é, uma organização social que sistematicamente beneficia o homem em detrimento da mulher (SCHOLZ, 2010).

O conceito foi particularmente útil para o feminismo radical, o qual entendeu que a dominação masculina devia se inscrever naquilo que era visto como comum a todas as mulheres e homens do planeta, independente de suas culturas e sistemas políticos tão distintos: o corpo. Mais, a principal diferença entre o corpo masculino e feminino: o aparelho reprodutivo.

Assim, o feminismo radical escreveu que as origens da subordinação feminina estariam localizadas no processo reprodutivo. “Os papéis desempenhados por homens e mulheres na reprodução da espécie”, comenta Adriana Piscitelli (2002) a respeito dessa visão, “são fatores fundamentais de onde derivam as características que tornam possível a dominação que os homens exercem sobre as mulheres.”

Em decorrência, as desigualdades econômicas ou de poder político, entre outras, estão enraizadas na maneira como se reproduzem os seres humanos: o papel das mulheres no processo reprodutivo, visto que são as únicas da espécie capazes de engravidar e amamentar os bebês durante o seu longo período de dependência, as tornariam “prisioneiras da biologia”, forçando uma dependência do homem.

O patriarcado, segundo o feminismo radical, estaria baseado nas diferenças reprodutivas entre homens e mulheres, sobretudo a maternidade.

A esse regime de dominação universal, amparada na biologia das mulheres, chamou-se patriarcado. É válido destacar que o conceito não foi criado por essas feministas. Patriarcado é uma noção antiga, que inclusive já foi conceituada por Max Weber como aquelas sociedades tradicionais, centradas na figura de um patriarca. O uso do termo patriarcado no feminismo foi por meio de uma apropriação um tanto livre, mas bastante importante à época.

A demarcação dessa possível causa da dominação masculina levou, pois, à proposição de soluções radicais. Entre elas, a substituição da reprodução biológica pela artificial, livrando as mulheres do fardo de carregar um bebê e ser a principal responsável pelo seu cuidado. A ideia é tirar a reprodução sexual do cerne da desigualdade, limpando qualquer significado sócio-cultural das diferenças genitais.

Hoje em dia, ainda que as diferenças sexuais tenham um peso importante nas opressões, que se expressam em variados níveis e realmente configuram formas de dominação em diferentes espaços e tempos, já é possível prever que a concepção de patriarcado tal qual defendida pelo feminismo radical está cheia de problemas. No próximo texto, teceremos uma crítica a esse conceito, para em seguida discutir sua utilidade.

4 comentários
  1. Mas se o enfoque é dado no corpo, nas distinções biológicas, então a definição de Patriarcado apresentada não faz o menor sentido! Isto é: “uma organização social que sistematicamente beneficia o homem em detrimento da mulher”. O Patriarcado seria derivado sobretudo de uma administração dessa diferença biológica que, ao reconhecer a Paternidade, coloca o homem como coautor do processo reprodutivo, diretamente envolvido e responsabilizado da reprodução.

    Deveria ser óbvio que o não reconhecimento ou valoração do papel reprodutivo masculino enquanto PAI mantém a sociedade em perpétua condição primitiva, incapaz de transcender sua natureza biológica compulsiva. Se TODAS as sociedades mais desenvolvidas são Patriarcais, é pelo fato de que tal modelo promove um salto de qualidade na espécie humana, transcendendo sua natureza. O vício da visão feminista é ver no Patriarcado APENAS seu lado negativo, como se o mesmo não impusesse aos homens uma enorme carga de responsabilidade e deveres e automaticamente liberasse a mulher da necessidade de lutar diretamente por sua própria sobrevivência numa condição de terrível desvantagem natural.

    http://www.xr.pro.br/ENSAIOS/Em_Defesa_do_PATRIARCADO.HTML

  2. Abbadon disse:

    Olá.
    Farei alguns apontamentos que penso que serão úteis para as leitoras/es de seu texto e também do texto posterior no qual o conceito apresentado aqui é criticado.
    Boa parte do que é apresentado sobre patriarcado neste texto advém das considerações da Firestone e alguns grupos feministas radicais que concordam que a origem da opressão das mulheres enquanto grupo é a “realidade da diferença biológica” dando enfâse na biologia da ‘mulher’. O texto está correto na apresentação, porém, incorreto a atribuir estas considerações como que compartilhadas por todas as feministas radicais. Existem divergências neste feminismo acerca da origem da opressão das mulheres, nem todas concordam com as postulações da Firestone, então, penso que é incorreto informar no texto que esta perspectiva teória seja ‘do’ feminismo radical, mas sim de teóricas ou grupos específicos do feminismo radical. Monique Wittig, por exemplo, que discorda dessa perspectiva, dirá que é a opressão que cria a diferença sexual, e não que a opressão se assenta numa diferença biológica. A reprodução que se apresenta como compulsória em nossa sociedade continua sendo objeto de estudo numa perspectiva de exploração das mulheres enquanto grupo, assim como o corpo (não como o centro da opressão), mas sofrendo sintomas da opressão, onde um corpo é transformado em feminino.Outras teóricas criticam até mesmo a própria palavra “patriarcado” como insuficiente para explicar a opressão das mulheres enquanto grupo.
    Espero ter ajudado.

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