Gênero, sexualidade e educação formal no Brasil: um mapa da produção acadêmica entre 1990-2006

Na medida em que o conhecimento e as pesquisas em determinada área avançam, é sempre importante olhar para o que já foi feito a fim de organizá-lo. Sendo do interesse desse blog, preparei esse texto situando a produção acadêmica entre 1990 e 2006 sobre os temas gênero, sexualidade e educação formal, baseando-me na pesquisa de Cláudia Vianna, Marília Carvalho, Flávia Schilling e Maria de Fátima Moreira (2011).

Interface da Base de Dados Ariadne, produto da pesquisa que buscar os trabalhos sobre gênero, sexualidade e educação formal entre 1990 e 2006.

As autoras, procurando em bancos de dados por todos os trabalhos publicados (entre artigos de periódicos científicos, dissertações de mestrado e teses de doutorado) que tratavam essas temáticas naquele período, encontraram 1.213 produções. Essa busca foi organizada e publicada em um site de livre acesso, com o nome de Base de Dados Ariadne, que pode ser acessada clicando aqui.

Alguns problemas bastante interessantes para pensarmos os vieses da produção brasileira foram levantados. Entre eles, a pouca quantidade de trabalhos publicados na revistas feministas a respeito de educação. O campo de estudos de gênero, no Brasil, parece não dar muito ênfase à educação, pelo menos a nível escolar, formal. Ainda, uma série de trabalhos que se propõem a discutir “gênero”, na verdade, simplesmente trazem as mulheres para o foco, de maneira descritiva, sem fazer uso dos potenciais analíticos daquela importante categoria. Esses pontos ficam para outro texto.

Aqui, minha intenção é mapear a produção em gênero, sexualidade e educação formal no Brasil, relevando onde se localizam as maiores produções e situando seu contexto espacial e temporal.

No gráfico abaixo, vemos que as regiões onde houve mais publicação nessa área durante os 16 anos que a pesquisa coletou são as regiões do Sudeste e do Sul. Mas, vemos que a região do Nordeste também tem se destacado, especialmente por conta das universidades federais.

Distribuição dos trabalhos pelas cinco regiões (Extraído de VIANNA et al, 2011) - Clique na imagem para ampliar.

Entre os Estados mais profícuos, temos São Paulo (com 414 produções no período), Rio Grande do Sul (211), Rio de Janeiro (140), Mato Grosso (69), Santa Catarina (56), Paraná (45) e Distrito Federal (35). Os demais produziram, cada um, menos de 20 trabalhos nesse intervalo pesquisado. As principais instituições que geraram trabalhos nessas temáticas são a USP e a UFRGS; as demais, produziram menos de 50, com exceção da Unicamp, conforme o gráfico abaixo:

Instituições que mais publicaram trabalhos nessa temática (Extraído de VIANNA et al, 2011) - Clique na imagem para ampliar.

Ressaltamos que as universidades públicas (estaduais e federais), principal polo de produção da pesquisa básica nacional, respondem por 782 trabalhos. Salta aos olhos que as universidades privadas católicas, como a PUC, tiveram uma produção de 158 trabalhos, o que é extremamente significativo; as outras particulares contaram com 110.

Outros dados mostram que a área de Educação foi a responsável pela produção de 64,3% das dissertações e teses. Esse alto valor era esperado, pois a busca foi justamente por produção relacionada à educação formal. Mas, chama a atenção a diversidade de outras áreas, como Psicologia (10,1%), Educação Física (4,6%) e Ciências Sociais (4,4%). Evidencia-se que o caráter interdisciplinar desses estudos tem ganhado novas áreas, ainda que com produções pouco consolidadas ou sistematizadas.

No gráfico abaixo, notamos que a maior parte das produções são dissertações (78,8%), preponderante sobre as teses (19,5%) e artigos (16,2%). É esperado encontrar mais dissertações que teses, pois os primeiros derivam do mestrado, que são mais curtos e antecedem os segundos. Em contrapartida, a baixa publicação de artigos indica que a produção acadêmica pouco tem sido publicada em revistas científicas, o que dificulta a difusão do conhecimento e divulgação dos resultados. Porém, é possível também que esses trabalhos até tenham sido publicados, mas nas revistas especializadas da sua área e, logo, não foram contempladas pela pesquisa.

Distribuição dos trabalhos por tipo (Extraído de VIANNA et al, 2011) - Clique na imagem para ampliar.

Por fim, o resultado mais interessante mostra um crescimento vertiginoso na produção acadêmica em gênero, sexualidade e educação formal, entre 1990 e 2004. Sobre os anos de 2005 e 2006, não é possível concluir que houve um decréscimo na produção, porque os bancos de dados possivelmente ainda não estavam completos à época da pesquisa, realizada entre 2006 e 2007.

Distribuição dos trabalhos por ano (Extraído de VIANNA et al, 2011) - Clique na imagem para ampliar.

Vemos, assim, um salto de 16 para 193 trabalhos em 1990 e em 2004, respectivamente, o que significa um crescimento de 12 vezes. Nos mesmos anos, vemos um crescimento de 356 para 2.996 trabalhos sobre “educação”, o que indica um aumento de oito vezes. Percebemos, portanto, que não só houve uma expansão das publicações na temática de interesse, como essas ainda ganharam relevância dentro da produção nacional em Educação.

O desafio, agora, é transformar essas produções em informações relevantes para a população, em conhecimentos úteis para educadores e pesquisadores e em conteúdos básicos para a formulação de políticas públicas, pois não basta estudar; é necessário aplicar. O primeiro passo, pelo menos, já está sendo dado.

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