Dildotectônica

Em textos que falamos sobre contra-sexualidade, problemática inaugurada pelo pensamento da teórica queer Beatriz Preciado em seu livro Manifiesto contra-sexual: prácticas subversivas de identidad sexual (2002), vimos como a reformulação radical do dildo (sexo de plástico) como suplemento, no sentido derridiano, pode ser usado para desestabilizar as lógicas instituídas pelo pênis e pelo Falo.

Um dos deslocamentos possíveis do dildo. (Imagem: PRECIADO, 2002)

Preciado (2002) afirma que, na contra-sexualidade, o dildo antecede o pênis, é a origem do pênis e, portanto, “no princípio era” o dildo. O dildo, para a autora, é suplemento do pênis, aquilo que supostamente deve completá-lo. O suplemento no pensamento do filósofo francês Jacques Derrida é definido por Silviano Santiago (1976, p.88) como “uma adição, um significante disponível que se acrescenta para substituir e suprir uma falta do lado do significado e fornecer o excesso de que é preciso”. Ainda, pela lógica do suplemento, o suplemento finaliza as oposições do positivo/negativo, do dentro/fora, do mesmo/outro, da essência/aparência, da presença/ausência e também do original/imitação. Assim, significativamente, o suplemento pode se passar pelo original.

Para Preciado (2002), o dildo, frente ao pênis, troca as posições imitação/imitado, fazendo com que o pênis pareça ser de fato quem imita o dildo e não contrário. A dildotectônica (dildotectónica) surge nesse contexto e a partir dele como campo de estudo da subversão e plasticidade do sexo, dos órgãos sexuais, do orgasmo. A dildotectônica, segundo a autora, é uma contra-ciência que tem por objetivos estudar a aparição, a formulação e o uso do dildo, localizando as deformações que o dildo inflige no sistema sexo/gênero.

"Dildo-perna", citação de um dildo sobre a perna. (Imagem: PRECIADO, 2002)

Também, fazer da dildotectonia um ramo prioritário da contra-sexualidade é perceber o corpo como superfície, terreno de deslocamento e ao mesmo tempo de local do dildo. Dessa forma, Preciado propõe uma “citação” ou deslocamento do dildo para as demais partes do corpo, como o braço, as pernas, a cabeça etc.; onde surge a ideia, já mencionada em outros textos, de usar essas partes nas práticas contra-sexuais, por exemplo, parodiando a masturbação no braço, nos dedos.

“A dildotectônica”, escreve Preciado (2002, p. 41, tradução minha), “se propõe a localizar as tecnologias de resistência (que por extensão chamaremos de ‘dildos’) e os momentos de ruptura da cadeia de produção corpo-prazer-benefício-corpo nas culturas sexuais hetero e queer”. Além disso, ela compreende que não será uma tarefa fácil, assim como outras práticas contra-sexuais, mas que a paródia e simulação do orgasmo subvertem e transformam uma reação natural ideologicamente construída, que, aliás, é o que está proposto no artigo 4 da sociedade contra-sexual.

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